Vídeo Ventura

Na vulgaridade do quotidiano político, Ventura vive, Mortágua morre. A política é por natureza cruel e não é o espaço para o convívio da esperança.

O Ventura fica, a Mortágua sai. O “fascista” fica, a “activista” sai. O sucesso de Ventura e o fracasso de Mortágua são duas faces de um Portugal desconhecido que não gosta de esperar nem sabe o que esperar. A política portuguesa está transformada num baloiço de sobe e desce em que a esquerda e a direita se desequilibram com prazer. O extremo de Ventura eleva a direita ao topo mais próximo do céu. O extremo de Mortágua aterra com ruído no fracasso do inferno. O centro ocupa a planície de uma mesa de ping-pong trocando argumentos burocráticos brancos na forma de uma bola política sem emoção ou entusiasmo. Entre a banalidade do centro político e a excitação dos extremos ideológicos, o país vai fazendo a difícil contabilidade do fim do mês na marquise de uma varanda com vista para a via rápida de uma circular externa. Na vulgaridade do quotidiano político, Ventura vive, Mortágua morre. A política é por natureza cruel e não é o espaço para o convívio da esperança.

Nem sempre vive politicamente quem merece, nem sempre morre politicamente quem merece. Ventura é uma máquina de palavras automáticas onde se arrumam todos os preconceitos, lugares-comuns, demagogia, populismo, oportunismo, desonestidade, mentiras, verdades, mas sobretudo o delírio de quem faz política com a superioridade moral na manga do casaco e a mão no peito. Ventura Presidente é igual a Ventura Primeiro-Ministro, é igual a Ventura líder do Chega, é igual ao demagogo que acredita na gramática mínima de uma política sem políticas. A política de Ventura é o povo da política, a esplanada de um café central, a tasca estendida na mesa de uma taberna portuguesa com certeza. Do miradouro de Ventura vê-se o podre da República, as criaturas corruptas, os ladrões diplomados, os subsídios imigrantes, os marginais ciganos, todo um mundo insalubre e decadente que está a matar Portugal na sua essência histórica e pureza identitária.

Ventura pretende ser como Presidente o “condutor” de um país em “contramão”. O Presidente Ventura não será o semáforo da República pois pretende acabar com o Regime e fundar a Quarta República. Ventura Presidente será o “condutor” da Nova República que terá o benefício da “ordem” face à “bandalheira” de meio século. Ventura despreza os coitadinhos, odeia os marajás, detesta a “bandidagem”, promete criar a banda sonora da República do respeito e dos bons costumes. E qual o modo de transformação político que Ventura propõe para a transição entre a Terceira e Quarta República? Golpe de Estado Militar? Golpe de Estado Constitucional? Ventura sugere o megafone estereofónico na palavra do Presidente até rebentar os tímpanos do estuque dourado de Belém. Uma questão que deixo aos portugueses – “Qual o som do suicídio de um Parlamento?”.

Há um ponto interessante no discurso venturista. O líder da nação afirma que para pôr Portugal na ordem são precisos “dois ou três Salazares”. O salazarismo marca a cultura política portuguesa à direita como uma constante para lá do tempo e para lá da história. O salazarismo é um estado de espírito e não apenas um regime que governou Portugal durante meio século. O contraste entre regimes é uma ironia conceptual que explica a perturbação bipolar da política portuguesa – 50 anos de ordem, 50 anos de bandalheira. Ventura propõe aos portugueses os próximos 50 anos de ordem. Os portugueses devem mostrar gratidão.

Mortágua é uma revolucionária moralista que não encontra em Portugal a fábrica social para a libertação dos povos e para a glória da Humanidade. Para Mortágua, os portugueses são um povo condicionado pelo obscurantismo fascista de meio século de salazarismo incapazes de reconhecer as propostas do Bloco. A odisseia pelo Mediterrâneo dos Clássicos despertou em Mortágua o espírito internacionalista de uma activista pela causa da Humanidade, a mesma Humanidade que os portugueses recusam ao ignorar as propostas do Bloco. Para Mortágua, os portugueses são uma casta inferior que não sabe nem quer viver a verdadeira liberdade. Com a leveza fashion de um caminhar all-star, com os feedbacks da guitarra de um discurso sobre a “vida boa”, Mortágua é maior do que Portugal. E sendo maior do que Portugal sofre o destino de todos os grandes profetas da Humanidade – Ninguém é profeta na sua terra.

Não se percebe se os portugueses desistiram do Bloco ou se Mortágua desiste dos portugueses. É sempre mais fácil condenar do que entender, mas sente-se em Mortágua o clímax do fim de um romance e o estilo policial de quem nunca se encontrou com a natureza progressista de um país por inventar. Mortágua é o espírito do PREC permanente, a ideia de que a revolução se parar morre. Na política portuguesa, o PREC também é um estado de espírito para além de uma fase da revolução. Estranha ironia quando o salazarismo e o PREC são os pólos opostos da grande disfunção política de um país eternamente adiado.

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