Fiz surf com 12 startups. E foi isto que aprendi

Acelerador global de startups de energia começou em S. Francisco, vai para Singapura e... passou por Lisboa. O ECO esteve lá. E meteu-se no mar com os empreendedores.

As 12 equipas participaram numa aula de surf.Ricardo Gomes/Free Electrons

“Isto não tem nada a ver com partir placas de madeira. Tem a ver com a maneira como partimos pranchas na nossa vida. Tem a ver com a forma como olhamos para o contexto e com a nossa atitude e mindset que conseguimos ter na nossa vida. Quando ele me desafiou a partir a tábua de madeira, eu acreditava que podia partir aquela prancha mas não tinha a certeza. Aquilo ensinou-me muito sobre os obstáculos e sobre como superar dificuldades. Por que é que partiram as placas? Porque decidiram que iam fazê-lo. Porque disseram que sim a vocês mesmos.”

Pedro Tânger está equipado com o fato branco e o cinto negro, de frente para a audiência. O café assente na praia do Castelo, na Costa da Caparica, serve de cenário à sessão de motivação que precede a aula de surf. Minutos antes, Pedro aponta para um bloco alto de qualquer coisa tapada com uma toalha amarela, encostado a um dos cantos da esplanada. Destapa-o. São dezenas de tábuas de madeira. Para partir.

Tábuas de madeira estavam no canto da esplanada tapadas com uma toalha amarela.Mariana de Araújo Barbosa/ECO

“A técnica é importante mas o mais importante é uma atitude. Tens o conhecimento, sabes o que tens a fazer. Aprendemos, possuímos esse conhecimento. Depois temos de aprender a usá-lo”, esclarece o fundador da STAT Artes Marciais. Pedro explica, passo a passo, o que é preciso para conseguir partir a tábua com a mão. Não é uma questão de força mas de foco, garante.

Depois da técnica apreendida, é preciso passar à ação. Pedro explica que o “yes, sir!” é fundamental. Às ordens do professor, a audiência repete as palavras e os gestos. Mão direita colada à cintura e, num golpe, mão aberta contra a resistência das mãos do par. Depois, é o momento de transformar a resistência em madeira. Placa entre as mãos do professor.

“Próximo passo: visualizar. Não basta saber qual é o objetivo, temos de nos visualizar, imaginar a realizar esse objetivo”. Conclusão? Não chegou uma placa de madeira para contar a história.

Da técnica à ação

Já dizia alguém — nem me lembro bem — que ser empreendedor é tropeçar, cair e levantar… várias vezes. E não há melhor metáfora do que uma aula de iniciação ao surf para percebermos o que é que esse processo implica. Os braços ainda me doem — e subi para a prancha de surf na Costa da Caparica na quarta-feira à tarde. Adiante.

O programa, que envolve a EDP e outras sete utilities, é pioneiro no mundo.Beta-i

Lisboa recebeu esta semana parte do segundo módulo do acelerador global de startups da área da energia, Free Eletrons, dividido em três partes: a primeira, em S. Francisco — de 30 de abril a 5 de maio –, a segunda, em Lisboa/Dublin, entre 25 e 30 de junho — e, a terceira, entre 17 e 22 de setembro, em Singapura. Na quarta-feira, os cerca de 40 participantes no programa — onde estão startups norte-americanas, britânicas, suíças e de Hong Kong, entre outras –, foram à Costa da Caparica dar os primeiros passos na prancha de surf. E aprender sobre ‘como partir blocos de madeira’ o português Pedro Tânger, fundador da STAT Artes Marciais.

O programa, avaliado em cerca de um milhão de euros, sabe o ECO, é uma parceria entre oito utilities — AusNet Services, Dubai Electricity and Water Authority (DEWA), ESB (Electricity Supply Board), EDP (Energias de Portugal), innogy, Origin Energy, Singapore Power (SP) e Tokyo Electric Power Company (TEPCO), com o apoio de dois parceiros aceleradores, New Energy Nexus e a Swissnex San Francisco –, que proporcionam a 12 startups de todo o mundo a oportunidade de, durante cerca de seis meses, terem contacto mais direto com os seus departamentos-chave. O programa Free Electrons foi desenvolvido para startups ligadas à energia com o objetivo de apurar ainda mais os seus produtos e serviços, com o potencial de os testar e desenvolver numa carteira de clientes global na ordem dos 73 milhões.

“Abrir o mundo das utilities às startups, fornecendo-lhes uma base de dados de clientes global, acelerando a execução das grandes empresas, isso é tudo aquilo que o Free Electrons é. Não consigo pensar numa melhor oportunidade para uma startup a operar neste setor“, explica Luís Manuel, administrador da EDP Inovação.

Para Stefan Padberg, Managing Director, da innogy New Ventures, um dos parceiros da iniciativa, trata-se de uma “relação perfeita”. “Boas ideias de negócio em contacto com o mundo corporate em plena reinvenção. Podemos ajudar as startups a escalar o negócio rapidamente. E as startups podem ajudar-nos com os melhores produtos. Vamos para fora para inovar dentro”, esclarece.

"Abrir o mundo das utilities às startups, fornecendo-lhes uma base de dados de clientes global, acelerando a execução das grandes empresas, isso é tudo aquilo que o Free Electrons é. Não consigo pensar numa melhor oportunidade para uma startup a operar neste setor.”

Luís Manuel

Administrador EDP Inovação

Inovar e deixar acelerar

Mas nem tudo é feito a pensar nas grandes empresas e nas oportunidades de inovação que podem vir deste contacto das utilities com as startups. Para os 12 participantes no programa, o Free Electrons dá, além da oportunidade de viajar e conhecer quatro diferentes ecossistemas e protagonistas, a chance de escalar os negócios que, na maioria dos casos, já se encontram em fases avançadas. Não se trata apenas de um programa de aceleração vertical proporcionado por oito grandes empresas, mas de um intercâmbio de contactos, oportunidades e disrupções.

“O programa é importante para a nossa globalização, estamos a tentar expandir para fora do mercado europeu porque o nosso tipo de solução pode ser usado em vários países independentemente da regulação. O networking é chave em todo este processo. Normalmente, fazer contactos com as unidades de negócio que nos interessam nas grandes empresas demora muito tempo. Assim, torna-se mais fácil aproximarmo-nos das pessoas que mais interessam, de maneira a acelerar o processo”, explica Michael De Vivo, da startup suíça DEPsys, em conversa com o ECO.

Mas, se pensa que é entre formações de liderança e aulas de surf que são feitos os contactos essenciais, esse é apenas o primeiro passo. “Entre os módulos, é quando fazemos o grande trabalho. Normalmente não temos nem o tempo nem a oportunidade de discutir com a correta unidade de negócios durante a formação”, esclarece Michael, sobre as conversas com as empresas promotoras que operam em mais de 40 países, representando mais de 148 mil milhões de dólares norte-americanos em vendas combinadas.

“Depois de Lisboa, os participantes seguiram para Dublin e o último módulo é em Singapura, em setembro. O objetivo geral do programa é assinar acordos ou pilotos durante o processo entre as startups e as utilities“, explica Ricardo Marvão, da Beta-i, adiantando que já está a ser negociada a 2ª edição do programa.

A startup vencedora do programa ganha um prémio de 50.000 euros. Em janeiro deste ano, a EDP juntou-se a mais sete utilities de países como a Austrália, Singapura, Alemanha, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos para formar um consórcio para o programa global de aceleração de startups: a ideia era, de alguma forma, acelerar e ajudar a escalar startups ligadas à energia limpa, eficiência energética, mobilidade elétrica, digitalização e serviços de apoio ao cliente.

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