Exclusivo Uptec. Da saúde ao chão de fábrica, IA está a revolucionar os negócios

De um universo de 160 startups incubadas na Uptec, cerca de 20% utilizam a IA nos seus modelos de negócio. Tecnologia está a ser encarada como uma oportunidade que Portugal não pode deixar escapar.

Da saúde à indústria, passando pela restauração, a inteligência artificial (IA) está a ser encarada como um “recurso extremamente poderoso” que pode ajudar a salvar vidas, tornar o setor da restauração previsível e ter a fábrica na palma da mão.

É no Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (Uptec), um edifício de três pisos com mais de 1.200 metros quadrados, que estão incubadas 33 startups ligadas à IA. De um universo de 160 startups, cerca de 20% utilizam a tecnologia nos seus modelos de negócio.

Maria Oliveira, diretora executiva da Uptec, não tem dúvidas que as startups direcionadas à IA “têm mais possibilidades de ser bem-sucedidas”. Uma tecnologia que é um aliado poderoso em vários setores da atividade, com “o financiamento público a acompanhar a tendência”.

A IA é um recurso extremamente poderoso e quando pensamos na saúde pode ajudar a salvar vidas e acelerar processos de cura que nem sequer estão no
pipeline por serem tão caros.

Maria Oliveira

Diretora executiva da Uptec

Saúde poderá ser uma das áreas que poderá colher mais benefícios. “A IA é um recurso extremamente poderoso que pode ajudar imenso em diferentes setores e quando pensamos na saúde, em particular, pode ajudar a salvar vidas e acelerar processos de cura que nem sequer estão no pipeline por serem tão caros”, considera Maria Oliveira.

A DigestAID (2021) e a GynoAID (2023), spin-offs da Universidade do Porto, são duas das health techs incubadas no Parque de Ciência que usam a IA para desenvolver soluções. O foco é a saúde digestiva e a ginecológica, e os médicos estão no centro do seu desenvolvimento. “Os médicos perceberam que têm que ser líderes no desenvolvimento da tecnologia — esse conceito de que o médico é um validador de tecnologias rapidamente está a desaparecer e, nisso, a DigestAID é pioneira”, diz Miguel Mascarenhas. “É uma empresa criada por médicos que desenvolve tecnologias para médicos, tendo em conta que conseguimos pensar o que é que o médico precisa para, em última análise, cumprirmos o nosso propósito: salvar vidas e aumentar a duração e qualidade de vida dos nossos pacientes”, explica o fundador.

Na saúde digestiva, a DigestAID tem projetos na área de identificação precoce do cancro do pâncreas, do cancro das vias biliares, na área da endoscopia por cápsula — “onde o objetivo é transformar um vídeo de mais dez horas numa questão de segundos e aumentar a taxa de sensibilidade diagnóstica, que em alguns casos é inferior a 60% para mais de 95%”, detalha o investigador e médico gastroenterologista.

Miguel Mascarenhas, fundador da DigestAID e GynoAIDRicardo Castelo/ECO

Com parcerias com instituições clínicas dos quatro continentes, a health techjá tem os próximos passos definidos: ainda este ano quer obter aprovação do regulador europeu, para obter o selo CE e, no próximo ano, luz verde da norte-americana Food and Drug Administration (FDA). “O nosso objetivo não é ser uma empresa software as a service, mas sim uma empresa software as a medical device”, afiança o investigador.

É “salvar vidas, sem nunca retirar o controlo ao ser humano, mas ser um segundo olho, uma segunda ajuda, que não só nos vai permitir detetar lesões que, às vezes, podem escapar-nos, como detetar lesões antes do tempo”.

Dois anos depois de fundar a DigestAID, Miguel Mascarenhas criou a GynoAID, uma plataforma com tecnologia de IA que garante mais de 95% de precisão na deteção e diferenciação de uma ampla gama de lesões no trato genital feminino, segundo explica o fundador.

Os longos corredores do Uptec estão revestidos com paredes de madeira e intercalados por sofás e mesas de apoio onde os empreendedores podem trocar ideias ou simplesmente fugir da secretária. E foi numa desses sofás que o professor e investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), distinguido no ano passado pelo Colégio Americano de Gastroenterologia pelos seus projetos na área da saúde digestiva, partilhou com o ECO já ter alguns contratos de intenção assinados com alguns distribuidores de vários países.

UPTEC—Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto Ricardo Castelo/ECO

No início do ano, a DigestAID e a GynoAID, que já empregam cerca de 22 pessoas entre a equipa médica e a de engenharia, mudaram as instalações para uma moradia na zona das Antas, no Porto, para projetar o crescimento da startup e acomodar a equipa que tem vindo a crescer, mas continuam com uma incubação virtual no espaço detido pela Universidade do Porto.

Já a Scemai fez outro percurso. No final do ano passado, a startup fundada em 2021, que disponibiliza soluções de IA para o setor industrial, mudou-se de umas instalações de Vila Nova de Gaia para “o ecossistema vibrante da Uptec”. E foi na sala 11 do primeiro piso, com vista para o Metro, que fomos conhecer a “Sophia”. “A nossa assistente, com recurso a algoritmos de inteligência artificial, faz o planeamento automático de todo o chão de fábrica”, explica Rodolfo Caramez, um dos fundadores da Scemai, que já emprega quatro pessoas e fatura 200 mil euros.

Hugo Alexandre Trindade (E) e Rodolfo Caramez (D), fundadores da ScemaiRicardo Castelo/ECO

Ou seja, através da aplicação o cliente consegue perceber, entre outras informações, quais as máquinas que estão a funcionar, qual a capacidade produtiva, qual o consumo de energia ou quantas pessoas estão a trabalhar. A Jofebar, uma das maiores empresas em Portugal de caixilharia, e a multinacional sueca Atlas Copco são algumas das empresas que já recorrem aos serviços de “Sophia”. Com o objetivo de continuar a desenvolver a tecnologia, contratar os melhores recursos humanos e investir numa infraestrutura de dados, a Scemai está a negociar uma ronda de capital de dois milhões de euros.

Apesar do ambiente dinâmico, tendo em conta que só no ano passado a Uptec apoiou 231 projetos empresariais, dos quais 160 startups que empregam 854 pessoas, os corredores do polo da Asprela I estavam pouco movimentados no dia da nossa visita, com muitos sofás vazios — à exceção da hora de almoço e lanche que chamam bastante mais pessoas ao bar (localizado à entrada do Parque Tecnológico) —, muito à conta do teletrabalho, modelo de trabalho de muitos colaboradores das incubadas.

Ricardo Castelo/ECO

No entanto, o que salta à vista é o ambiente descontraído do espaço, com sofás a convidar à troca de ideias. Ao dispor, ainda uma esplanada exterior que juntou alguns jovens no dia da visita.

Antecipar vendas com base em meteorologia

A restauração é outro dos setores que pode beneficiar da aplicação da IA. Com recurso a uma centena de variáveis onde se inclui, por exemplo, a meteorologia, eventos culturais e desportivos, dias comemorativos e feriados, sazonalidade a até avaliações dos clientes através do Google ou TripAdvisor, a Adeci consegue prever quais os consumos e as encomendas necessárias para as próximas semanas.

As previsões de vendas têm cerca de 92% de precisão, estimam os fundadores, Telmo Taipa e Hélder Pereira. E, qual bola de cristal powered by AI, permite aos restaurantes prever o que irá acontecer no negócio nos próximos 31 dias. “Prevemos sempre com um mês de antecedência para dar uma visão ampla aos nossos clientes”, explica Hélder Pereira, responsável pelo desenvolvimento do algoritmo de IA.

Hélder Pereira (E) e Telmo Taipa (D), fundadores da AdeciRicardo Castelo/ECO

Fundada em 2023, a startup já conseguiu captar mais de 2.000 estabelecimentos na Península Ibérica, como por exemplo o Grupo Capricciosa, a rede Poke House, a Portugália, o Valor do Tempo ou o Burger King Portugal e Espanha. E não querem ficar por aqui. A meta até final do ano é clara: alcançar os 5.000 estabelecimentos. Mas também há planos para reforçar a equipa, atualmente com nove pessoas, e dar maior robustez à solução tecnológica, com mais integrações. Projetos onde vão ser aplicados os 500 mil euros de investimento recentemente captados junto da Portugal Ventures, o braço de capital de risco do Banco Português de Fomento, juntando-se aos 50 mil euros anteriormente levantados junto da StoresAce.

Internacionalização na mira

Com soluções tecnológicas, com base em IA, expandir o negócio para o mercado externo está na mira de várias das startups. É o caso da Scemai. Nos planos está levar a tecnologia da “Sophia” para a Alemanha, França e Espanha já no próximo ano, adianta Hugo Alexandre Trindade. Reino Unido e EUA também estão na mira, mas ficará para mais tarde.

Espanha é um mercado que os fundadores da Adeci querem carimbar ainda este ano no passaporte. “Começar por atacar os grandes grupos em Espanha com a vantagem que têm uma maior abertura à tecnologia”, explica Telmo Taipa. E não querem ficar por aqui. Para o próximo ano, querem conquistar o setor da restauração do Reino Unido com a sua plataforma de previsão de vendas.

Mas há quem faça o percurso inverso. A Nilg.AI quer começar a atacar o mercado nacional, já que quase todos os clientes são internacionais. “Trabalhamos muito o mercado dos EUA, Reino Unido, Alemanha e Israel, mas sentimos que agora está na altura de atacar o mercado nacional já que os clientes portugueses já têm maturidade suficiente para poder abraçar a tecnologia”, considera Kelwin Fernandes, fundador da startup, que emprega 12 pessoas, e que se dedica-se a ajudar empresas a melhorar os seus processos de decisão e eficiência através da IA. “Mapeamos os processos das empresas, vemos onde é que existem constrangimentos e implementamos soluções”, explica Kelwin Fernandes.

Está na altura de atacar o mercado nacional já que os clientes portugueses já têm maturidade suficiente para poder abraçar a tecnologia.

Kelwin Fernandes

Fundador da Nilg.AI

Maria Oliveira corrobora a ideia do fundador da Nilg.AI e explica que apesar de “Portugal ainda estar aquém da realidade europeia e até norte-americana no que toca à IA”, constata que “há cada vez mais capital de risco para apoiar este tipo de empresas”. “Muitos dos investidores que contactam a Uptec querem saber mais detalhes de novas empresas que estão a lidar com processos de Inteligência Artificial”, diz a diretora executiva da Uptec.

Maria Oliveira, diretora executiva da UPTECRicardo Castelo/ECO

Continental, Metro do Porto e Algar — entidade para a qual a solução da Nilg.AI ajudou a otimizar a colocação dos ecopontos, tornando a gestão de resíduos mais rápida e eficiente, um projeto premiado como Data Changemaker of the Year no DSPA Insights 2024 — são alguns dos cerca de 100 clientes de 25 países, em 29 setores de atividade, que já adotaram a solução desenvolvida pela startup fundada pelo luso-venezuelano em 2018, pouco depois de ter terminado o doutoramento em computer science na FEUP.

Os serviços de consultoria da Nilg.AI são tão diversificados que a startup atua também na área da saúde e, exemplo disso, é o seu envolvimento no maior ensaio clínico em El Salvador na deteção de cancro no colo do útero. “São dez mil pacientes onde a IA é que vai fazer o rastreamento dos pacientes com alterações no colo do útero”, realça Kelwin Fernandes, num dos espaços de coworking da Uptec.

Kelwin Fernandes, fundador da Nilg.AiRicardo Castelo/ECO

O empreendedor mostra-se otimista com o impacto da IA no mundo das empresas e do trabalho, contrariando visões mais pessimistas que antecipam que, por exemplo, só em Portugal cerca de 30% dos empregos sejam afetados pela automatização de funções permitida por esta tecnologia.

A “IA, mais que cortar empregos em Portugal, vai ajudar a ganhar escala, dentro de um país com recursos e capital humano limitado”, acredita Kelwin Fernandes. E Portugal pode colher benefícios. “Portugal tem uma população envelhecida e vai precisar de duplicar, triplicar a produtividade nos próximos 20 anos onde a IA pode ter um papel fundamental”, aponta Kelwin Fernandes.

Os fundadores da Adeci, Telmo Taipa e Hélder Pereira, não têm dúvidas que a IA “sempre será uma oportunidade”. Os jovens empreendedores realçam que a essência está em “saber usar a tecnologia” e que “deve ser vista como uma forma de agregar valor às funções dos recursos humanos”.

Rodolfo Caramez, cofundador da Scemai, sintetiza. “A inteligência artificial é uma ameaça se não for enquadrada naquilo que são as necessidades, os valores e os princípios humanos.”

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