Saída de Renzi poderá fechar mercado à Caixa

Recapitalização da CGD passa também por emissão de dívida, por isso atrasos no plano de capitalização da banca italiana pode agravar juros a pagar nas obrigações de mil milhões a colocar no mercado.

Os analistas ouvidos pelo ECO são unânimes: o deteriorar das condições de mercado por causa da instabilidade criada pela eventual nomeação de um Governo de transição em Itália vai agravar os custos da emissão de dívida de mil milhões de euros que a Caixa Geral de Depósitos vai ter de realizar no âmbito do plano de recapitalização.

“O resultado do referendo não deveria, por si só, constituir um problema, mas como o Governo se demitiu, tal como tinha prometido, o maior problema agora é o da falta de Executivo que responda às necessidades do setor bancário e que negoceie com Bruxelas os planos de recapitalização. Devemos, por isso, esperar um agravamento do risco de crédito”, sublinha João Queiroz, diretor de negociação do Banco Carregosa.

“Como a recapitalização da CGD também prevê a emissão de dívida, o agravamento do risco da dívida dos países do sul da Europa afetará a dívida da República Portuguesa (que nos dez anos tem vindo a acompanhar esse aumento de risco) e, consequentemente, o risco da banca portuguesa“, acrescenta.

É verdade que, à semelhança do que aconteceu nas eleições nos Estados Unidos — que ditaram a vitória de Donald Trump –, ou até mesmo depois do referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia, não houve pânico nos mercados, apesar do ‘Não’ ter vencido o referendo deste domingo. Mas, “o ponto mais frágil será a banca italiana, nomeadamente o plano de recapitalização de cinco mil milhões do Monte di Paschi, cujo plano envolve também a conversão de dívida subordinada em capital”, frisa Nuno Serafim, membro do comité executivo do IM Gestão de Ativos.

“Caso seja evitada a hipótese de eleições antecipadas, é de esperar que o plano de recapitalização prossiga até ao final do ano em linha com as expectativas o que, apesar de encerrar sempre algum risco, tem como cenário central a conclusão com sucesso do plano de levantamento do capital proposto”, afirma Nuno Serafim. Mas, se o caminho for o das eleições antecipadas, “os riscos de resolução do Monte di Paschi aumentam consideravelmente, mesmo com a ação do BCE, que prometeu intervir para que não ocorra nenhum problema de liquidez com o sistema financeiros italiano”.

Para Nuno Serafim, o processo de recapitalização da Caixa apenas estará sob ameaça num “cenário de resolução do Monte di Paschi”. Uma ameaça que não se cingiria apenas à “banca nacional, mas mesmo ao nível da estabilidade do sistema financeiros europeu”. Recorde-se que o Monte di Paschi é o terceiro maior banco italiano e calcula-se que o sistema financeiro italiano se debata com cerca de 300 mil milhões de ativos sem rendimento (non performing loans), “pelo que as exigências de capital sendo enormes estariam seriamente comprometidas com efeitos nefastos em todo o sistema financeiro”, acrescenta.

Os maiores riscos para os mercados parecem estar relacionados com um eventual processo de transição “desorganizado”, o que colocaria problemas nomeadamente ao setor bancário”, corrobora Albino Oliveira. O analista da Patris Investimento, reconhece que “os mercados parecem estar a antecipar que será possível manter uma situação de status quo no país, embora as próximas semanas sejam importantes para observar a evolução da situação política”.

Esta situação não é nova para Itália. Em novembro de 2011, Mario Monti sucedeu a Berlusconi, liderando um governo não eleito durante quase dois anos.

Nuno Serafim

Para Albino Oliveira “a expectativa” é a de que sejam criadas “as condições necessárias para que o setor bancário prossiga a sua restruturação e recapitalização, assim como na reforma da lei eleitoral (preparação para as próximas eleições)”. Por isso, o analista acredita que “provavelmente” a vitória do ‘Não’ não vai comprometer a capitalização da Caixa Geral de Depósitos.

“O risco estaria relacionado com uma reação adversa que provocasse uma deterioração nas condições do mercado, importante tendo em conta que a Caixa Geral de Depósitos terá de vender uma emissão de dívida subordinada, fazendo parte do seu plano de recapitalização”, afirma Albino Oliveira. Mas para o analista, “mais importante” do que o referendo, “pelo menos para já, terá sido a decisão da DBRS de colocar o rating da CGD para revisão, com possíveis efeitos negativos, o que poderá conduzir a um custo de financiamento mais elevado na colocação dessa mesma emissão”.

 

Para Ricardo Evangelista “a preocupação é grande relativamente à saúde do sistema bancário italiano (e não só)”. O analista da Activtrades defende que “alguns dos principais bancos precisam urgentemente de ser recapitalizados”. “Dentro deste cenário, o sistema financeiro português também merece um olhar mais prolongado, dadas as debilidades que apresenta. O caso da CGD é o exemplo mais vivo. As necessidades de capitalização são claras e o que acontecer em Itália poderá ditar o tom”, afirma.

João Lampreia, analista do Banco Big, acredita “num provável diferimento da recapitalização do sistema financeiro em Itália”. Por isso, “as soluções que estão a ser procuradas noutros países europeus (entre os quais obviamente Portugal) para enfrentar o legado de malparado do sistema financeiro poderá, igualmente, funcionar como um obstáculo adicional para a celeridade com que o Executivo português pretendia apresentar uma solução específica para a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos”.

Já o presidente da Dif Broker considera que referendo “não vai impactar na recapitalização da CGD”, diz. “Quanto muito poderá ter impacto no juro a pagar no que diz respeito às obrigações que têm de ser colocadas no mercado, no montante de mil milhões de euros. O facto da CGD ser pública, ter uma nova administração e o apoio do Governo e do BCE para a recapitalização elimina os riscos que por exemplo o banco Monte di Paschi está a passar”, sublinha.

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