Cebrián anuncia vendas da Prisa

Em dia de reunião de acionistas, e com uma oferta da Altice pela Media Capital na mesa, o chairman da Prisa anunciou a "redução do perímetro" do grupo e "desinvestimentos" para fazer frente à dívida.

Juan Luis Cebrián, chairman da Prisa, discursou na assembleia geral de acionistas esta sexta-feira. Anunciou “desinvestimentos”.Peter Foley/Bloomberg

Da Altice não falou. Diretamente. Mas numa altura em que a dona da Meo já apresentou uma proposta preliminar de compra da Media Capital, e em dia de assembleia geral de acionistas da Prisa, o chairman do grupo espanhol fez referências diretas à “redução do seu perímetro”, leia-se à venda de ativos. Nas entrelinhas, o negócio está lá, à espera de uma conclusão formal, que pode ser conhecida a qualquer momento.

Num discurso proferido na reunião esta sexta-feira, e enviado aos mercados, o chairman da Prisa, Juan Luis Cebrián, disse: “Para aumentar a rentabilidade do grupo será também inevitável reduzir o seu perímetro e modificar a estrutura de custos fruto de um passado impossível de manter na nova economia digital“, reconheceu, sem se referir especificamente à Media Capital. De seguida, apontou: “Uma rápida resolução do problema da dívida, uma redução do perímetro consolidado, a implementação de uma política de remunerações de acordo com a situação, a recuperação do entusiasmo e a coerência da equipa profissional implicam no seu conjunto a necessidade de uma mudança de ciclo.”

A Prisa vê-se a braços com uma “dívida avultada”, parte dela a vencer já em 2018, pelo que o grupo espanhol tem procurado a alienação do ativo Media Capital, a empresa dona da TVI e da Rádio Comercial em Portugal. As negociações exploratórias para um negócio com a Altice, dona da Meo, já tinham sido confirmadas aos mercados este mês. As negociações estão muito avançadas e o anúncio da venda poderá ser feito a qualquer momento, como o ECO avançou esta sexta-feira. Longe, provavelmente, dos 450 milhões de euros que a Prisa terá posto em cima da mesa, e que corresponde a um múltiplo de EBITDA da ordem de dez vezes. A Media Capital apresentou um EBITDA de 43 milhões de euros em 2016.

Cebrián, sob pressão dos acionistas por causa das contas e da necessidade de amortizar dívida, foi transparente na estratégia e só faltou mesmo anunciar já o negócio. “Quero reiterar a nossa decisão de proceder aos desinvestimentos necessários e a quantas operações do género sejam precisas para fazer frente às obrigações de crédito, sempre e quanto contarmos com a cumplicidade e ajuda dos nossos próprios credores.” Nos últimos oito anos, a Prisa abateu dívida no valor total de 3.435 milhões de euros, 108 milhões no ano passado.

Esta operação justifica-se, desde logo, pela necessidade da Prisa de participar de forma ativa nos movimentos empresariais em Espanha. “Vamos viver no futuro próximo um processo de consolidação das empresas de media, e queremos não só estar presentes nele como capitalizá-lo tanto quanto possível. Requisito indispensável é também equilibrar as contas e estabilizar a estrutura acionista. Caso contrário, defraudaríamos os nossos milhares de acionistas, trabalhadores e colaboradores das nossas empresas, que sofreram dolorosos processos de reestruturação, tão difíceis como necessários”.

Para aumentar a rentabilidade do grupo será também inevitável reduzir o seu perímetro e modificar a estrutura de custos fruto de um passado impossível de manter na nova economia digital.

Juan Luis Cebrián

Chairman da Prisa

CEO de saída, mas elogia Media Capital

Não foi só o chairman da Prisa a falar de consolidação dos media. Também o presidente executivo, José Luis Sainz, que será substituído por Manuel Mirat em setembro, falou do mesmo assunto. No discurso na assembleia geral desta sexta-feira, abordou de forma superficial os “rumores contínuos de consolidação setorial”. “Está claro que não é possível manter os modelos empresariais atuais e que a rentabilidade caiu”, reiterou.

E acrescentou: “Muitos jornais sobrevivem graças a subvenções, financiamentos indiretos o estando nas mãos de fundações. O declínio estrutural do processo de difusão deveria forçar o processo de consolidação definitiva das empresas de distribuição e das fábricas de impressão (as que ainda restam). Só apostamos em operações que tenham sinergias efetivas, basicamente as que impliquem redução de gastos e estas têm a ver com as já citadas, com as compras e com os novos modelos de venda de publicidade.”

De seguida, o presidente, de saída da empresa, desdobrou-se em elogios à dona da TVI e ao trabalho desenvolvido em Portugal por Rosa Cullell e a sua equipa. “A Media Capital é uma das empresas da Prisa que melhor fez frente à crise, mantendo um resultado estável mesmo com as fortes quedas da publicidade. Tem disso possível, graças à capacidade da equipa diretiva, de potenciar linhas de receita, publicidade BTL [below the line, para segmentos específicos], chamadas telefónicas de valor acrescentado e lançamento de canais temáticos”, sublinhou.

"Está claro que não é possível manter os modelos empresariais atuais e que a rentabilidade caiu.”

José Luis Sainz

Presidente executivo da Prisa

Concluiu, falando dos números do grupo em Portugal. “Em 2016, as receitas da Media Capital mantiveram-se estáveis. A quebra nas receitas com as chamadas (22%) foi compensada por um crescimento da publicidade na TVI (4%), na rádio (6%) e na internet (14%), e por maiores receitas pela venda de canais às plataformas pagas [televisão por subscrição da Meo, Nos e por aí em diante]”, disse, por fim.

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