Pedro Tânger: “O gosto é um radar inato de competência”

  • Juliana Nogueira Santos
  • 14 Dezembro 2017

Pedro Tânger exerceu advocacia durante três anos, mas a paixão pelas artes marciais levou-o por outro caminho. O de utilizar o seu gosto para potenciar os outros.

“Não há cá pausas que isto não é para meninos”, exclama Pedro Tânger à sua turma de Krav Maga, totalmente composta por adultos. A aula decorre dentro do espaço da STAT, a primeira academia profissional de artes marcais do país, mas a força dos golpes e a garra dos pontapés que ali se treinam é percetível mesmo antes de passar as portas do espaço. “Sim senhor”, respondem, a uma só voz, os alunos.

A STAT abriu em 2008 pelas mãos de Pedro Tânger, um advogado feito mestre que contava já com mais de três anos de experiência numa das maiores sociedades do país, a Abreu Advogados. No entanto, o entusiasmo e realização que sentia ao pisar os tapetes, em nada se comparavam àquilo que sentia quando estava sentado à secretária.

“Comecei a praticar artes marciais aos 16 anos”, conta o mestre e empresário à Advocatus. “Rapidamente assumi responsabilidades e aos 18 anos comecei a dar aulas”. Fazer das artes marciais a sua vida parecia, já aí, a decisão certa a tomar, mas não para os que o rodeavam. “Os meus pais não achavam muita graça quando eu dizia que queria viver disto, diziam que era impossível”, explica. Em alternativa, ingressou pelo direito.

A sua carreira começou na PACSA, que mais tarde se viria a fundir com a Abreu. “Gostei do ambiente da sociedade, achei que era menos quadrado do que habitual”, considera Pedro. Ainda assim, diz nunca se ter identificado com “a austeridade e o exagero português das regras e da instituição”.

“Não estava ali bem. Fazia tudo o que tinha a fazer e fazia bem, mas comecei a sentir que a minha vida estava no fim”, recorda Pedro. “Não porque me ia matar, mas porque ia chegar aos 60 anos e tinha seguido aquela historiazeca toda igual. Ia olhar para trás e sentir que a minha vida não tinha sido minha.”

O ponto de viragem dá-se, ironicamente, com a ajuda da sua sociedade. Após se ter qualificado para o campeonato mundial, a Abreu Advogados garantiu-lhe apoio para participar. Aí, viu centenas de profissionais que tinham escolas próprias, um pouco por todo o mundo, e pensou: “se eles conseguem, eu também consigo.”

E viria a conseguir. O sonho começou com a abertura de um espaço em Campo de Ourique, onde dava aulas e formava instrutores. “O primeiro ano foi dificílimo. Fantástico, mas dificílimo”, relembra o empresário. “Estava a inventar a roda, não havia nada como isto em Portugal. Era receber o dinheiro e pagar as contas, mês após mês.”

O modelo foi-se adaptando, entre épocas mais fracas e viragens inesperadas. Hoje, a STAT conta com mais de 600 alunos entre as duas academias (em Campo de Ourique e no Restelo) e os colégios onde os instrutores dão aulas, sendo que “o modelo está pronto para duplicar”. “No fundo, foi a Abreu Advogados que me tirou da advocacia”, resume, entre risos, o empresário.

Mesmo tendo abandonado a área, Pedro Tânger não consegue negar que foi também na advocacia que se constituiu tal como é hoje. “A parte ética, humanística e dos valores veio comigo”, enumera. “Aqui na academia ensinamos com base em valores, ensinamos os alunos a estabelecerem objetivos, metas, a serem exigentes com eles próprios, sem perderem a satisfação de verem reconhecido o seu próprio valor.”

É também por isso que, como afirma o mestre, muitos advogados procuram a sua academia para treinar ou para inscrever os seus filhos. “É muito interessante para um advogado potenciar uma educação ética para os seus filhos”, conclui.

Para além da formação na sua academia, Pedro tenta também devolver ao mundo empresarial algo que afirma estar em falta: a autoestima. “O tecido empresarial português gosta e precisa de autoestima, por isso utilizo as artes marciais como forma de criar aberturas nas pessoas, de as potenciar”.

O gosto e a motivação são, assim, os guias da vida Pedro Tânger, luzes que, segundo o próprio não devem ser ignoradas. “As pessoas subestimam o gosto. Acham que se estão a gostar de uma coisa que ela não tem valor. O gosto é um radar inato de competência que diz que é por ali.” O dele não falhou.

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