BCP tem cada vez menos acionistas. Peso dos investidores portugueses caiu para metade desde a crise

É um reflexo da crise recente no maior banco privado português: o BCP tem cada vez menos acionistas. E o peso dos acionistas portugueses caiu para metade desde a crise em Portugal.

O BCP tem cada vez menos acionistas. E eles falam cada vez menos português. O peso dos investidores nacionais no capital do banco caiu em metade desde o início da crise. É o reflexo da reestruturação do setor bancário nacional nos últimos anos e que levou ao definhar da sua representatividade na bolsa de Lisboa até aos dias de hoje. Com a saída do Santander (que comprou o Banif em 2015) e BPI (comprado pelos espanhóis do CaixaBank em 2017), o BCP será uma espécie em vias de extinção na praça portuguesa.

No final do ano passado, o capital da instituição agora liderada por Miguel Maya estava repartido por 169 mil acionistas. Embora seja uma das ações mais populares entre os pequenos investidores nacionais, a verdade é que o BCP perdeu algum do seu brilho por cá: registou uma redução de quase 20 mil investidores na sua base acionista face a 2016, na sua grande maioria portugueses, num período em que ascenderam ao poder os chineses da Fosun, com os angolanos da Sonangol na sombra.

O próprio banco fez a sua análise dos acontecimentos na sua estrutura acionista: “Durante o ano de 2017, assistiu-se a um aumento significativo da percentagem do capital social detida por acionistas estrangeiros, motivado essencialmente pela operação de aumento de capital, concretizada em fevereiro de 2017″, assinalou no relatório e contas do ano passado.

BCP perdeu 17 mil acionistas em 2017

Fonte: BCP

Hoje em dia, pouco mais do que 30% do capital do BCP está em mãos portuguesas. É o peso mais baixo desde 2010, pelo menos. Antes de a crise soberana se ter abatido sobre Portugal em abril de 2011 e ter provocado uma crise bancária sem precedentes no mercado nacional, mais de 60% do capital do BCP era detido por investidores nacionais, como a Ocidental Seguros (9,6%), Teixeira Duarte (5,68%), Grupo Berardo (4,33%), EDP (3,75%) ou Caixa Geral de Depósitos (2,68%). Esta era a realidade no final de 2010.

Hoje mandam os chineses (27%) e os angolanos (19,5%) e o único investidor português a assumir relevância dentro do banco é a elétrica nacional liderada por António Mexia, com uma posição de 2,11%, refletindo a falta de capital entre os investidores nacionais que não conseguiram acompanhar os sucessivos aumentos de capital realizados pelo BCP nos últimos anos — foram seis, ao todo, desde 2011.

“A diminuição do número de acionistas e portugueses demonstra um clima de desconfiança no próprio banco uma vez que já registou fortes quedas nos últimos anos”, explica Pedro Amorim, broker da XTB Portugal. “Houve pessoas que perderam milhares de euros na desvalorização das ações do banco após a crise financeira. O clima de desconfiança não se deve só ao próprio banco mas sobretudo ao sistema português — falência do BES e Banif. O BCP é o único banco português a ser cotado no PSI-20, o que significa que em qualquer notícia que afete o setor financeiro (europeu), as ações do BCP são a única representação portuguesa”, contextualiza.

“Com estes factos, os portugueses estão muito adversos a investimentos no setor financeiro nacional”, resume Pedro Amorim.

BCP fala cada vez menos português

Fonte: BCP

Na verdade, não é só no BCP onde os portugueses têm perdido força dentro das estruturas de capital dos grandes bancos nacionais. Não há capital para o BCP como não houve para outras históricas instituições financeiras.

Em fevereiro do ano passado, o CaixaBank lançou mão sobre o BPI com uma OPA que está prestes a ser bem-sucedida: na altura da conclusão da operação, os catalães ficaram com 84% do banco, mas hoje já detêm quase 95% do capital do banco e pediram para retirar o BPI da bolsa nacional. Poucos meses depois, em outubro, o Novo Banco, que ficou com a parte boa do antigo Banco Espírito Santo (BES), foi alienado aos americanos do Lone Star, a troco de uma injeção de capital de 1.000 milhões de euros, ficando apenas 25% do capital nas mãos do Fundo de Resolução.

Estas duas operações ajudam a identificar as causas do apagão do setor financeiro na bolsa nacional. O BPI deu mais um passo rumo à porta de saída de bolsa depois de o regulador dos mercados ter solicitado um auditor independente para fixar o preço a pagar pelo CaixaBank. Num contexto diferente, o espanhol Santander também já pediu para deixar de estar cotada cá. Desde 2010, a praça lisboeta viu desaparecer Finibanco, Popular, BES, Espírito Santo Financial Group, Banif, Montepio… e apenas o BCP permanecerá como único representante do setor a cotar em Lisboa.

“É provavelmente ainda o reflexo da crise financeira, perante o sobredimensionamento que era observado então neste setor, no que se refere às suas implicações em termos do desaparecimento dos bancos que ficaram mais fragilizados (BES) ou na tendência de M&A que surgiu como necessidade de o setor aumentar os seus níveis de rentabilidade (BPI e CaixaBank)”, sintetiza Albino Oliveira, da Fincor.

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