Cabral dos Santos desmente Berardo. Nega que tenha ido “bater à porta” do comendador para lhe dar crédito para o BCP

Joe Berardo tinha afirmando na comissão de inquérito que foi o antigo diretor de grandes empresas da Caixa que lhe contactou para ir lá pedir financiamento. Cabral dos Santos nega.

Joe Berardo afirmou na sua audição na comissão de inquérito da Caixa Geral de Depósitos (CGD) que foi José Cabral dos Santos quem lhe contactou inicialmente para ir ao banco pedir um empréstimo de 350 milhões de euros para comprar ações do BCP. Mas o antigo diretor de grandes empresas rejeita que tenha ido “bater à porta” do comendador. E deixou críticas aos antigos administradores por tentarem atribuir responsabilidades pela defesa das operações de crédito.

“Na audição de Berardo, foi dito que a CGD que foi à porta de Berardo. Depois de consultar o seu advogado, Berardo disse o meu nome. Fui procurar evidências. Fui ao arquivo da Caixa e encontrei uma carta de 10 de novembro de 2006 assinada por José Berardo e dirigida a Carlos Santos Ferreira, com o seguinte texto: Assunto: Concessão de linha de crédito”, afirmou Cabral dos Santos naquela que é a sua segunda audição no âmbito desta comissão.

O antigo responsável já tinha ido ao Parlamento no passado dia 24 de abril, e foi agora novamente convocado por causa de algumas dúvidas suscitadas em audições seguintes, como a de Joe Berardo.

Depois de ler a carta em questão, Cabral dos Santos revelou que esta lhe foi dirigida no dia 7 de dezembro de 2006 por Maldonado Gonelha, ou seja, um mês depois de Joe Berardo ter contactado o banco público. “A carta evidencia que foi a Fundação Berardo tomou a iniciativa de consultar a Caixa”, reforçou o responsável. E quis deixar claro aos deputados que nunca promoveu políticas para compra de ações: “Nunca andei a convencer ninguém para fazer investimentos mobiliários, fossem quais fossem”, referiu.

Então Joe Berardo mentiu? Cabral dos Santos fala em “jogo de palavras” e no qual recusa participar. Depois da insistência do deputado Virgílio Macedo, disse: “Eu nunca falei com o senhor José Berardo para lhe oferecer ou saber se queria crédito para comprar ações ou o que quer que fosse. Muitas vezes há jogos de palavras. Fui eu que lhe enviei o e-mail, nem foi diretamente a Joe Berardo, mas à sua equipa, com as condições em que foram aprovadas as operações“.

Em causa esteve a abertura de uma conta corrente no valor de 350 milhões de euros, que veio a revelar-se uma operação ruinosa. A auditoria da EY revelou que a Fundação Berardo devia 270 milhões de euros no final de 2015. Há outra sociedade ligada a Joe Berardo, a Metalgest, a quem a Caixa concedeu 50 milhões e ainda não viu o dinheiro de volta.

Cabral dos Santos critica administradores

Em relação ao empréstimo à Fundação Berardo, “sabia-se que era para comprar ações do BCP e para refinanciar dívida do BCP”, disse o antigo diretor de grandes empresas. No final, aprovou-se a operação, “não nas condições pedidas por Joe Berardo”, mas antes no “meio-termo” com as condicionantes expostas pelo parecer de risco.

Outra questão que trouxe Cabral dos Santos de novo ao Parlamento: afinal, quem apresentava as propostas no conselho de crédito também as defendia simultaneamente? Os deputados queriam saber quem tinha defendido o crédito a Berardo. Em outras audições foi dito que sim, quem apresentava estava a fazer a defesa da proposta, o que divergiu da opinião do antigo diretor.

Cabral dos Santos insistiu na sua visão, reafirmando que a sua tarefa era apenas de “levar as propostas ao conselho (de crédito) para o conselho decidir“. Só que além da proposta, também seguiam o parecer de risco e as condições exigidas pelo cliente. E “chega-se a uma altura em que não há defesa da proposta: ou se aceita as condições do cliente ou não”, referiu.

Neste ponto, deixou críticas aos antigos administradores que o responsabilizaram pela aprovação dos créditos. “Eu também fui administrador da Caixa — e eu nunca diria que aprovei uma operação de crédito porque fui influenciado por um diretor”, disse, ressalvando que é uma questão dos seus “princípios”. Francisco Bandeira foi um dos antigos administradores que manifestou surpresa com a declaração de Cabral dos Santos, notou o deputado do PCP Duarte Alves.

“Eu, como administrador num conselho alargado de crédito, era com os outros colegas presentes os responsáveis pela aprovação da operação”, disse Cabral dos Santos mais tarde. “Estamos a falar de uma operação de 350 milhões de euros. Quando se tem de decidir se se faz ou não se faz, não pode ser só porque um diretor diz. O conselho é que tem de ver se a operação se faz ou não. Não estamos a falar de 35 milhões ou de 3,5 milhões. Estamos a falar de 350 milhões“, completou.

(Notícia atualizada às 18h17)

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