Deterioração das condições de trabalho já é maior causa de sobre-endividamento

  • Lusa
  • 30 Outubro 2019

Natália Nunes sublinha a necessidade de se “voltar a repensar os comportamentos adotados na época mais complicada da crise”, em termos de recurso ao crédito.

O Gabinete de Proteção Financeira da Deco já recebeu este ano 26.200 pedidos de ajuda de famílias sobre-endividadas e a principal causa já não é o desemprego, mas a deterioração das condições de trabalho, com 21% dos casos.

A mudança no principal motivo para as pessoas recorrerem ao Gabinete de Proteção Financeira (GPF) da Deco está a ser acompanhada por um aumento do número de pedidos o que leva a coordenadora deste Gabinete, Natália Nunes, a sublinhar a necessidade de se “voltar a repensar os comportamentos adotados na época mais complicada da crise”, em termos de recurso ao crédito.

A pretexto do Dia Mundial da Poupança, que se assinala na quinta-feira, o Gabinete de Proteção Financeira fez um balanço dos pedidos que lhe chegaram desde o início do ano e o resultado mostra que os 26.200 entrados até outubro ultrapassam os contabilizados em igual período de 2017 e 2018 e que foram 26.080 e 26.180, respetivamente.

Os dados revelaram ainda que, em 2018, a deterioração das condições de trabalho esteve na origem de 19% das situações de rutura, mas o seu peso aumentou este ano para os 21%, ultrapassando pela primeira vez o desemprego (20%).

“Há 19 anos que prestamos apoio aos consumidores em situação de sobre-endividamento e, ao longo destes anos, a principal causa tem sido sempre o desemprego. Este continua a ser uma causa importante, mas ocupa agora o segundo lugar porque o primeiro tem a ver com a deterioração das condições laborais”, referiu à Lusa Natália Nunes.

Em causa estão, sublinhou a coordenadora do GPF, pessoas que têm emprego, mas com rendimentos relativamente baixos e muitas vezes com contratos a prazo, o que acaba por criar “instabilidade” nos orçamentos familiares.

Em média, cada uma das pessoas que pediu apoio ao GPF tinha cinco créditos, número que se tem mantido estável desde 2015, mas que tem por trás uma subida do valor médio em dívida e dos encargos mensais com prestações.

Segundo o GPF, o valor médio do crédito pessoal dos que pediram ajuda aumentou de 16 mil euros em 2018 para 20.100 euros este ano. Por sua vez, o valor médio do crédito à habitação subiu, no mesmo período, de 79 mil para 83.300 euros, e o montante em dívida médio dos cartões de crédito avançou dos 7.500 para os 8.500 euros.

Tudo somado, o valor total das prestações de crédito aumentou de 798 euros em 2018 para 870 euros em 2019, enquanto no mesmo período o valor médio do rendimento líquido mensal avançou de 1.150 euros para 1.200 euros.

Ressalvando que “as famílias continuam com taxas de esforço muito elevadas”, acima dos 70% e excedendo largamente os 35% aconselhados pela Deco, Natália Nunes acrescenta que, entre os que recorrem à ajuda do GPF para renegociarem créditos, há situações de créditos contratados recentemente.

Temos situações de pedidos de ajuda para renegociar créditos à habitação contratados já este ano ou em 2018”, precisou aquela responsável.

Todo este contexto leva Natália Nunes a considerar que as medidas que foram tomadas no ano passado pelo Banco de Portugal para limitar a concessão de crédito para compra de casa não são suficientes.

Na habitação existe algum rigor na concessão do crédito, no que concerne nomeadamente em relação à avaliação da solvabilidade, mas a situação dos consumidores não passa única e exclusivamente pelo crédito à habitação”, precisou Natália Nunes para ressalvar que “se poder prevenir situações de endividamento excessivo” deveriam ter-se em conta todos os créditos, nomeadamente os pessoais e os cartões de crédito.

Acentuando que o atual contexto de baixas taxas de juro tem evitado uma maior subida dos casos de sobre-endividamento, a coordenadora do GPF sublinha, contudo, a necessidade de as pessoas voltarem a adotar alguns dos cuidados na gestão do dinheiro que adotaram durante a crise.

“Temos de voltar a repensar os comportamentos que adotámos na época mais complicada da crise em que os consumidores eram muito mais responsáveis na forma como lidavam com as questões do dinheiro e tomavam as suas decisões de crédito precisamente para acautelar possíveis complicações que possam surgir”, precisou, defendendo ao mesmo tempo um reforço da poupança.

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