OCDE corta previsões para a economia mundial e pede aos governos para fazerem mais

Os governos têm de fazer mais e tomar medidas ousadas para estimular as suas economias, diz a OCDE, que reviu as suas previsões e antecipa a manutenção do crescimento mais baixo desde a crise.

A economia mundial vai voltar a crescer menos do que o esperado em 2020, mantendo o pior ritmo de crescimento desde a crise financeira de 2009, antecipa a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Incerteza, guerra comercial, Brexit e outros fatores estruturais estão a pesar no crescimento, e a conjuntura pode piorar. Organização diz aos governos que é urgente tomarem medidas para estimular a economia.

A OCDE voltou a rever as suas previsões, que havia atualizado há apenas dois meses, e cortou a previsão de crescimento para 2020 de 3% para 2,9%. A dimensão da revisão não é significativa, mas coloca o crescimento esperado no mesmo nível de 2019, de si já um abrandamento significativo e o pior nível de crescimento da economia mundial desde a crise de 2009.

No Economic Outlook publicado esta quinta-feira, a organização liderada por José Ángel Gurría explica que o crescimento económico mundial e as perspetivas para o futuro têm vindo a “deteriorar-se constantemente” nos últimos dois anos, resultado da incerteza que se instalou e que levou a uma queda no comércio entre os países e nos fluxos de investimento.

Há um ano, a OCDE apontava para um crescimento na ordem dos 3,5% em 2020 e 2021. Desde então, a situação deteriorou-se de forma significativa e ainda pode ser pior.

“O crescimento [económico] pode ser mais baixo se os riscos negativos se materializarem ou interagirem, incluindo um aumento nas restrições ao comércio e ao investimento transfronteiriço, a continuação da incerteza relacionada com o Brexit, a incapacidade dos estímulos de evitarem um abrandamento mais pronunciado na China e o surgimento de vulnerabilidades financeiras das tensões entre o abrandamento do crescimento, a elevada dívida das empresas e a deterioração da qualidade do crédito”, explica a OCDE.

A organização alerta também para as consequências que um aumento persistente dos preços do petróleo e das tensões geopolíticas teriam no crescimento económico.

É urgente fazer mais para estimular a economia

A economia tem vindo a abrandar e o problema é generalizado. No próximo ano há algumas economias a recuperar, mas são sobretudo economias de mercados emergentes e mais por razões específicas de cada um dos países do que de um novo enquadramento positivo da economia mundial.

Por essa razão, a OCDE envia um recado muito claro aos decisores políticos das economias desenvolvidas: os bancos centrais fizeram o seu trabalho, está na altura de os governos agirem.

“Há margem e uma necessidade urgente de políticas muito mais ousadas para reanimar o crescimento. Reduzir a incerteza política, repensar a política fiscal, e agir de forma decisiva para responder aos desafios levantados pela digitalização e as alterações climáticas, todas [estas questões] têm o potencial para reverter a tendência de abrandamento atual e melhorar o crescimento futuro e as condições de vida”, escreve a organização.

Numa mensagem muito semelhante à que tem vindo a ser defendida pelo Fundo Monetário Internacional nos anos mais recentes, a OCDE pede aos países com margem orçamental para aproveitarem que têm as contas equilibradas e que as taxas de juro são baixas para investirem nas suas economias.

O recado – que na Zona Euro tem sido dirigido especialmente à Alemanha e à Holanda – surge com algumas recomendações. Para a OCDE, estas economias deveriam usar esta margem para apoiar investimentos com um retorno a mais longo prazo, e sugere mesmo a possibilidade de serem criados fundos de investimento nacionais, com o objetivo de analisar os investimentos que maiores benefícios trazem no futuro, em vez de os governos simplesmente gastarem dinheiro agora para terem alguns benefícios económicos no curto prazo.

“Os governos devem concentrar-se não apenas nos benefícios dos estímulos orçamentais no curto prazo, mas especialmente nos ganhos no longo prazo e para este fim deviam rever o enquadramento das suas políticas de investimento. A criação de fundos de investimento nacionais, concentrados em investir no futuro, poderia ajudar os governos a desenhar planos de investimento”, diz a OCDE.

Para já, ainda não é isso que os governos estão a fazer: “até ao momento, com exceção de alguns poucos países, a política orçamental tem estimulado [a economia] apenas marginalmente, e não especialmente o investimento”, diz a OCDE.

Países sem margem orçamental podem mudar estrutura de despesa

Para os países cuja dívida pública é ainda demasiado elevada – como é o caso de Portugal –, não há margem para um Orçamento expansionista, até porque há regras orçamentais para cumprir na Europa.

No entanto, a OCDE deixa algumas sugestões para que estes países possam promover políticas mais amigas do crescimento. Entre estas estão alterações à estrutura dos impostos, assim como a realocação de despesas em rubricas que possam promover uma aceleração da economia.

Nestes países, as autoridades ainda podem estimular a atividade económica mudando a estrutura da despesa e dos impostos para áreas que são mais favoráveis ao crescimento económico. Por exemplo, uma política orçamental equilibrada pode aumentar a despesa em componentes que aumentem o crescimento — como a educação e o investimento público em infraestruturas, saúde, e investigação e desenvolvimento — reduzindo ao mesmo tempo despesa que prejudique o investimento – como os subsídios a setores que limitam a concorrência”, dizem os técnicos.

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