Chaminés poluentes da EDP em Setúbal vieram finalmente abaixo. Veja as imagens

"Tal como as árvores, também as chaminés morrem de pé. Mas morrem por uma boa causa. Deixaram de fazer sentido num mundo que luta por se preservar", disse a presidente da Câmara de Setúbal.

Adiado já por várias vezes, por se tratar de uma operação complexa, o derrube das chaminés da antiga Central Termoelétrica de Setúbal aconteceu finalmente este domingo, 29 de março, por volta da uma da tarde.

“Com este desmantelamento, estamos a criar as condições no terreno para viabilizar um espaço que possa receber um projeto sustentável no futuro, um projeto que faça parte da transição energética. Não temos ainda um projeto definido, mas gostaríamos muito que pudesse ser, por exemplo, um parque solar”, disse Rui Teixeira, presidente da EDP Produção.

A nova data da operação foi escolhida em articulação com as entidades públicas e forças de segurança, sob coordenação da Proteção Civil. “A decisão de avançar com a operação de derrube nesta fase procura garantir as condições de segurança da operação já preparada e das equipas técnicas envolvidas”, informou a EDP em comunicado.

Tendo em conta as recomendações do Governo e das autoridades de saúde no atual período de estado de emergência, devido à pandemia de Covid-19, a majestosa queda das chaminés com 200 metros de altura aconteceu sem direito a aglomerado de espetadores na península da Mitrena. Com a exceção, claro está, dos vizinhos da freguesia de Praias do Sado, que sempre tiveram vista privilegiada para as velhinhas chaminés, desativadas já desde 2013.

Há 22 dias, a 7 de março, algumas centenas de pessoas juntaram-se no campo de futebol local, e nas colinas à volta, para assistir ao derrube, mas um “problema técnico” inesperado obrigou ao adiamento da operação planeada pela EDP.

Nesse dia, Setúbal parou, literalmente, para assistir à mega operação de derrube das duas chaminés da antiga central termoelétrica da EDP na cidade. Mas após mais de uma hora de espera sem que nada acontecesse, e com o trânsito cortado pela PSP e pela GNR em pelo menos sete pontos estratégicos da cidade, a EDP decidiu suspender a operação, por razões de segurança, e adiá-la para nova data.

Na base de cada chaminé estavam instalados cerca de 150 a 200 kg de explosivos, inseridos numa espécie de “cunha” cortada para forçar as estruturas verticais a tombar, à semelhança de uma árvore quando é abatida. Somavam-se ainda várias piscinas em volta das duas estruturas, com mais 60 kg de explosivos, para criar um efeito de “cortina de água” no momento da detonação para conter as poeiras e detritos resultantes da mesma. Tudo isto para mitigar o impacto da explosão do ponto de vista ambiental.

A um quilómetro de distância da base das chaminés, no posto de observação montado no campo de futebol da freguesia de Praias do Sado, ainda foram ouvidas duas explosões, alegadamente não planeadas, mas as duas estruturas — cada uma com 11.000 toneladas de betão e 200 metros de altura, o equivalente a um prédio de cerca de 60 andares — mantiveram-se de pé por mais três semanas, tal como têm estado nos últimos 42 anos, desde 1978, quando o primeiro grupo da central a fuelóleo entrou em funcionamento.

Planeado ao longo do último ano e meio, “o derrube das chaminés da antiga é uma operação complexa e delicada. São duas obras de engenharia complexas”, reconheceu Rui Teixeira, presidente da EDP Distribuição.

A operação de desmantelamento da central poluente (já encerrada já desde 2013, ao fim de 35 anos de funcionamento) teve início em 2016, com a conclusão dos trabalhos prevista até final de 2020. Para o próximo ano está prevista a requalificação ambiental dos enormes terrenos da central, para os quais estão previstos novos projetos para a produção de energia a partir de fontes renováveis, já a pensar nos novos leilões de energia solar e eólica agendados pelo Governo para este ano.

Rui Teixeira, presidente EDP DistribuiçãoHugo Amaral/ECO

Depois destes trabalhos de demolição, que Rui Teixeira avalia em 18 milhões de euros, no total, a EDP pretende que os terrenos da antiga central termoelétrica de Setúbal possam vir a acolher um “projeto sustentável, que faça parte da transição energética” em curso.

Nos seus tempos de glória a velhinha central da EDP consumia cerca de 5.280 toneladas de fuelóleo por dia, e durante vários anos foi fundamental para o abastecimento de energia elétrica ao país. “Teve uma contribuição muito importante para a atividade económica da região e para o abastecimento de eletricidade ao país. Chegou em alguns momentos a abastecer 25% do consumo nacional”, frisou Rui Teixeira.

Até à abertura da central a carvão em Sines, em 1985, era mesmo o maior centro produtor de energia a nível nacional: 1GW de potência instalada, com quatro grupos geradores. No pico de atividade, trabalharam lá cerca de 250 pessoas, lembra a EDP.

Num discurso feito antes da decisão de suspender e adiar o derrube das chaminés, Manuel Véstias, presidente da Junta de Freguesia das Prais do Sado, confirmou que a central “foi sempre acarinhada” por ser um projeto importante na região, com a península da Mitrena a registar a maior densidade de empresas do concelho de Setúbal. Lamentou com “mágoa” a destruição dos postos de trabalho com o encerramento da central, há oito anos, mas reconheceu o efeito colateral positivo de terem ficado sem uma das maiores fontes de poluição para os habitantes da zona.

Já Maria das Dores Meira, presidente da Câmara de Setúbal, sublinhou que as chaminés da EDP em Setúbal marcaram o “quotidiano industrial e visual” da região. “Foram desenhadas para cumprir função precisa. Deixaram de ser vistas como símbolos de progresso e desenvolvimento, de riqueza, para passarem a simbolizar a degradação ambiental que importa conter. Tal como as árvores, também as chaminés morrem de pé. Mas morrem por uma boa causa. Deixaram de fazer sentido num mundo que luta por se preservar. Saudamos a decisão do fim de vida da central de Setúbal, em prol de outras soluções energéticas mais limpas. Nos terrenos da central, que já deverão estar mais arejados no próximo ano, possam surgir novos empreendimentos que favoreçam o desenvolvimento ambientalmente sustentável. Este espaço destina-se apenas a atividades industriais”, frisou a autarca.

Em entrevista ao ECO/Capital Verde, Rui Teixeira, presidente EDP Produção, revelou que na linha da frente para o futuro dos terrenos da EDP em Setúbal estão projetos de energias renováveis, com destaque para a tecnologia solar fotovoltaica e/ou eólica, dependendo “do leilão que for promovido pelo Governo português”. Mas estes “não são os únicos projetos sustentáveis que podem vir a ser desenvolvidos e que vão ser analisados”, sublinha o responsável. Na mira para Setúbal poderá estar mais um polo de produção de hidrogénio verde da EDP, além de Sines e do Ribatejo. “Não posso excluir esse cenário à cabeça. Mantemos todas as opções em aberto”, disse Rui Teixeira.

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