Preço “atrativo” será chave do sucesso para o aumento de capital da EDP

Elétrica pede aos acionistas reforço de mil milhões de euros para comprar a espanhola Viesgo. Analistas esperam interesse pela operação, que servirá também para "validar" Stilwell d'Andrade como CEO.

O aumento de capital da EDP já está, oficialmente, em curso. O período de subscrição de novas ações começa esta quinta-feira, bem como a negociação dos direitos em bolsa. O preço atrativo deverá levar os investidores a reforçarem posições na elétrica, enquanto a razão para a operação — a compra da espanhola Viesgo — é também um ponto a favor. Mas o processo judicial em que está envolvida ofusca o brilho da empresa.

O preço é atrativo, tanto o das ações já existentes, em que vemos um fair value de 5,00 euros, como dos direitos para as novas ações que têm um desconto de 23%“, diz Lawson Steele, analista sénior de utilities do Berenberg. O banco de investimento vê potencial de ganhos tanto na EDP como na EDP Renováveis, mas a casa-mãe tem maior liquidez e merece, por isso, maior otimismo.

O desconto a que se refere é a diferença entre o preço a que cada nova ação da EDP poderá ser subscrita: 3,30 euros. Este valor é 23% inferior ao preço de fecho dos títulos antes do anúncio de que iria lançar um aumento de capital, no qual vai emitir 1.020 milhões de euros. Serão vendidas até um máximo de 309.143.297 novas ações, representativas de 8,45% do capital social da elétrica.

A operação é exclusiva a acionistas ou investidores com direitos de subscrição, o que significa que quem tiver atualmente ações, vai receber direitos. Pode usá-los para comprar novas ações (especificamente 11,75 direitos por conseguir um novo título) ou vender os direitos em bolsa. “Dado o preço-alvo, penso que é melhor comprar novas ações”, diz Steele.

"O preço é atrativo, tanto o das ações já existentes, em que vemos um fair value de 5,00 euros, como dos direitos para as novas ações que têm um desconto de 23%.”

Lawson Steele

Analista sénior de utilities do Berenberg

A posição do analista do Berenberg não é, no entanto, consensual. Miguel Gomes da Silva, head of treasury & trading do Montepio, considera que a questão tem de ser vista de duas óticas. “Primeiro, depende da expectativa que um acionista possui em relação ao valor futuro da empresa e se acredita que este projeto aportará mais valor ao negócio. Neste caso, valerá a pena acompanhar o aumento de capital e não vender os direitos, caso possua liquidez disponível para tal. Em segundo lugar, dependerá do preço em mercado dos direitos”, diz.

Desequilíbrios entre ação e direitos dá lugar a arbitragem

Depois de destacados da cotação da elétrica, levando a um ajuste do preço dos títulos da empresa liderada interinamente por Miguel Stilwell d’Andrade para 4,573 euros, os direitos de subscrição começam a ser transacionados esta quinta-feira. Apresentaram, no momento do destaque, um valor teórico de 10,5 cêntimos, mas com a valorização das ações da EDP (passaram de um valor ajustado de 4,537 para 4,548 euros na sessão de quarta-feira), entram avaliados em 10,61 cêntimos.

Como em todas ao operações do género, poderão surgir momentos de arbitragem que decorrem do desequilíbrio entre a oferta e a procura, má informação ou falta de liquidez dos direitos em bolsa. “Em equilíbrio e em teoria, o preço dos direitos em bolsa deveria ser absolutamente equivalente ao seu valor teórico face ao efeito de diluição, evoluindo conforme a cotação em mercado da ação da EDP“, aponta Gomes da Silva.

"Em equilíbrio e em teoria, o preço dos direitos em bolsa deveria ser absolutamente equivalente ao seu valor teórico face ao efeito de diluição, evoluindo conforme a cotação em mercado da ação da EDP.”

Miguel Gomes da Silva

Head of treasury & trading do Montepio

No entanto, nem sempre é o caso. Se os direitos estiverem abaixo do valor teórico, surge a oportunidade de ir ao aumento de capital com melhores condições financeiras do que as dos acionistas originais. Pelo contrário, o preço acima do valor teórico, poderá tornar a venda dos direitos financeiramente mais vantajosa.

EDP em alta após anúncio do aumento de capital

“Os direitos são ações em estado embrionário, portanto deverão estar ligeiramente abaixo das ações”, antecipa o economista sénior do Banco Carregosa. Paulo Rosa acrescenta que a negociação dos direitos terá outra função: vai ser um barómetro. “Se houver pressão sobre os direitos, então é porque não há interesse”, aponta.

Apesar de considerar que “o prémio é atrativo para os investidores”, o economista sublinha que “num aumento de capital não olho muito para o preço”, mas sim para o objetivo da operação. E neste caso, o mercado já está a sinalizar a avaliação que faz aos planos da EDP de reforçar a posição nas renováveis através da aquisição, a começar pela reação das ações em bolsa. Os títulos valorizaram nas sessões seguintes ao anúncio e, com a ajuda da recuperação das bolsas, já subiram 50% desde os mínimos da pandemia tocados em março.

A primeira prova a Stilwell (na sombra do processo judicial de Mexia)

“É uma operação que faz todo o sentido. A causa para o aumento de capital — isto é, a aquisição da Viesgo — faz todo sentido e financiar esta aquisição com um aumento de capital revela visão de longo prazo da empresa e da gestão, que poderia ter aumentado dívida e decidiu não o fazer. É uma oportunidade de o mercado validar a empresa e muito particularmente a nova gestão”, considera Miguel Azevedo, head of investment banking do Citi.

"Num mundo em que há grandes necessidades de investir em renováveis, ter uma estrutura de capital menos agressiva permite à EDP olhar para oportunidades que possam surgir, o que é positivo.”

Miguel Azevedo

Head of investment banking do Citi

A dívida é o calcanhar de Aquiles da EDP, que assumiu como um dos compromissos para os próximos anos a redução da alavancagem, a par da venda de ativos para reforçar a aposta nas renováveis e o aumento da remuneração acionista. O CEO interino Miguel Stilwell d’Andrade garantiu que o aumento de capital permitia continuar a diminuição da dívida.

“Num mundo em que há grandes necessidades de investir em renováveis, ter uma estrutura de capital menos agressiva permite à EDP olhar para oportunidades que possam surgir, o que é positivo”, sublinha Azevedo, que diz estar “plenamente convencido que, se por alguma razão, algum dos principais acionistas não for ao aumento de capital não será obstáculo ao sucesso do mesmo”.

Os vários analistas consultados pelo ECO concordam na expectativa que os principais acionistas, com a China Three Gorges a encabeçar o grupo com 21,47% do capital, vão reforçar posições. Por um lado, a pandemia poderá influenciar a disponibilidade de capital. Por outro, o facto de a EDP ter pago 695 milhões de euros (70% do valor bruto da operação) aos acionistas há três meses pode ajudar.

Esta será também a primeira grande validação de Miguel Stilwell d’Andrade à frente da EDP. O CFO passou a CEO interino com a suspensão judicial de António Mexia, mas não é expectável que o processo (em que a EDP também é arguida) tenha influência no aumento de capital. Azevedo está convencido que os investidores “confiam plenamente” nesta equipa de gestão “para o futuro” e que esta operação será uma “confirmação absoluta e definitiva disso”.

"O problema do processo litigioso que envolve as rendas excessivas é o maior risco, mas foi mitigado com a chegada do novo CEO. Fica a dúvida no ar sobre se a imagem não fica beliscada.”

Paulo Rosa

Economista sénior do Banco Carregosa

Aliás, pode mesmo ser a oportunidade de Stilwell d’Andrade ganhar o apoio público dos acionistas. “O problema do processo litigioso que envolve as rendas excessivas é o maior risco, mas foi mitigado com a chegada do novo CEO. Fica a dúvida no ar sobre se a imagem não fica beliscada. Se Stilwell conseguir consolidar a sua imagem, pode ofuscar Mexia e talvez Mexia não tenha mais capacidade de voltar“, acrescenta Paulo Rosa.

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