Construção não parou durante a Covid. Obras públicas ajudam

O abrandamento na procura no mercado imobiliário trava o setor da construção. Ainda assim, a área já está a estabilizar, numa altura em que cresce o número de obras lançadas a concurso.

A pandemia levou a paragens em muitas empresas, que fecharam portas temporariamente ou viram uma forte queda na procura pelos serviços. No entanto, em alguns setores este efeito não se sentiu tanto. Foi o caso da construção, onde as máquinas continuaram a funcionar. Mesmo assim, o setor ainda não regressou aos níveis “pré-Covid”, com o imobiliário a travar a recuperação.

Ao andar pelas ruas durante os meses mais críticos da pandemia, era comum ver as lojas desertas e poucas pessoas a ocupar os cafés, mas o que se mantinha igual eram as obras, um pouco por todo o lado. Na construção, muitos continuaram a trabalhar e nem chegaram a parar.

“O setor da Construção manteve-se sempre em atividade, procurando superar os condicionantes resultantes da crise sanitária, que implicaram, entre outros aspetos, restrições de deslocação, dificuldades de obtenção de materiais, redução da produtividade e acréscimo de custos operacionais”, explica o presidente da Associação de Empresas de Construção e Obras Publicas e Serviços (AECOPS) ao ECO.

Acrescenta anda assim, que o maior impacto é mesmo “ao nível da reposição de carteira de encomendas, que está a ser penalizada com as indecisões dos investidores privados, e deixa perspetivar uma redução da atividade, no final do ano”.

O setor chegou a registar uma quebra, apesar de não ser tão expressiva como noutras áreas. Em junho já se verificou uma “estabilização da atividade, mas não se pode falar, de todo, no regresso a níveis ‘pré-Covid’”, aponta o presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), ao ECO.

A queda na construção tem na sua base, para além das condicionantes referidas, o facto de, no mercado imobiliário, se assistir a um “abrandamento da procura que lhe é dirigida, em especial no segmento não residencial, que está ser mais penalizado pela atual situação pandémica que se vive e cuja quebra no número de licenças emitidas já é significativa”, diz o presidente da AECOPS.

De facto, nos primeiros cinco meses do ano foram licenciadas 8.902 obras pelas Câmaras Municipais, numa queda de 13,5% face ao mesmo período de 2019, segundo um relatório conjunto da AECOPS e AICCOPN. Esta resulta de “variações de -10,6% ao nível dos edifícios habitacionais e de -19,9% nos edifícios não residenciais”, explicam. Já no licenciamento de edifícios habitacionais, as quebras são “menos intensas” ao nível da construção nova do que na reabilitação urbana.

Por outro lado, o mercado das obras públicas “foi o que manteve o melhor desempenho, dado que, sendo já conhecidos os dados relativos ao mês de julho, se observa um forte aumento quer das obras lançadas a concurso, e que se espera que venham a ser concretizadas rapidamente, quer do número de contratos celebrados”, sinaliza Ricardo Pedrosa Gomes.

O presidente da AICCOPN também nota que, ao nível do investimento público, “existe um elevado volume de obras que foram objeto de concurso”, mas refere que “a contratação ainda não está a acompanhar essa evolução”. No primeiro semestre, “o total de concursos de obras públicas promovido foi de 2.671 milhões de euros”, mais 35% face ao mesmo período de 2019.

 

 

“No entanto, o volume de contratos de empreitadas no âmbito de concursos públicos, celebrados no primeiro semestre de 2020 e objeto de reporte no Portal Base foi de 795 milhões de euros, menos 22% face ao período homólogo de 2019, valores que contrastam significativamente com os apurados para os concursos promovidos”, contrapõe Manuel Reis Campos. Assim, “o investimento público ainda não está a dar o contributo que seria expectável e desejável, nesta altura”, conclui.

Vendas de cimento continuam a disparar

Ainda assim, as associações sublinham que, no primeiro semestre de 2020, “o consumo de cimento no mercado nacional aumentou 9,7%, em termos homólogos, totalizando cerca de 1,76 milhões de toneladas, o que vem confirmar que o setor da construção não só não parou durante os meses de confinamento como aumentou a utilização desta matéria-prima essencial aos vários segmentos de atividade”, no relatório.

As vendas do cimento são assim um indicador que ilustra o desemprenho desta atividade. Algo que já o antigo ministro das Finanças, Mário Centeno, tinha notado que tinha tido um comportamento atípico, aumentando 11,5% durante o mês de abril, “já no momento mais critico do confinamento”. Existem algumas razões para este aumento, mas a central será mesmo que o Estado de Emergência não decretou a suspensão das obras.

Este comportamento esteve também relacionado com outros fatores, como o dinamismo no setor da habitação, com as grandes obras de engenharia e mesmo do consumo em clientes domésticos, para projetos como pequenas obras de remodelação, segundo explicaram empresas de cimento ao ECO, em maio.

Já segundo o Banco de Portugal, o Índice de Vendas de Cimento, que contabiliza o volume das vendas de cimento das empresas nacionais para o mercado interno, excluindo as importações, tem vindo a registar subidas e, em junho, aumentou 27,1% face ao mesmo período do ano passado.

Olhando para a Semapa, as vendas de cimento ajudaram a travar a queda nos lucros no primeiro semestre do ano. “No segmento do cimento e outros materiais de construção, apesar do contexto de pandemia, destaque para o crescimento do volume de negócios do mercado interno em Portugal (+5,2%) e no Brasil (+13%, em moeda local)”, indicou a empresa, no final do mês passado.

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