Portugal consegue pela primeira vez juro negativo em emissão de dívida a dez anos

Este é um marco histórico para o país que nunca se tinha financiado neste prazo com juros negativos. Em mercado secundário, este marco já tinha sido alcançado, com a ajuda da bazuca do BCE.

Portugal conseguiu pela primeira vez emitir dívida a dez anos com juros negativos. A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública – IGCP realizou esta quarta-feira a primeira colocação de Obrigações do Tesouro deste ano — tendo dispensado o sindicato de bancos e avançado com um leilão — e emitiu um total de 1.250 milhões de euros.

“O risco de Portugal, bem como dos países da periferia europeia, têm vindo a descer para mínimos, movimento que foi mais acentuado no último trimestre de 2020. Este movimento tornou possível voltar a baixar as taxas nas emissões realizadas”, explica Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa.

No caso das obrigações que atingem a maturidade a 18 de outubro de 2030, a agência liderada por Cristina Casalinho emitiu 500 milhões de euros, com uma taxa de juro de -0,012%. Este é um marco histórico para o país que nunca se tinha financiado nesta maturidade (que é o benchmark nacional) com juros negativos.

A última colocação desta linha aconteceu em setembro do ano passado e, na altura, os investidores pediram um juro de 0,329% para emprestar dinheiro a Portugal a dez anos. No mercado secundário, este marco já tinha sido alcançado no início de dezembro, com a yield nacional a saltar entre terreno positivo e negativo deste então, beneficiando da bazuca do Banco Central Europeu (BCE). Esta quarta-feira esta taxa negoceia em 0,021%.

“A Covid-19 fez com que os Bancos Centrais tivessem de aprovar planos de estímulos sem precedentes para suportar cada uma das diferentes economias. Na Europa o pacote aprovado de cerca de 1,8 biliões de euros explica bem este movimento, os países, empresas e famílias, necessitam de suporte o que significa que para já iremos continuar a ter taxas baixas, pois um movimento inverso poderia deitar por terra a recuperação desejada“, acrescenta Filipe Silva.

Apetite dos investidores quase triplicou oferta

Além dos títulos a dez anos, Portugal emitiu também obrigações a 15 anos. Nestes títulos com prazo em 12 de outubro de 2035, a colocação foi de 750 milhões de euros com um juro de 0,319%, o mais baixo de sempre para esta maturidade. A última vez que Portugal se tinha financiado a 15 anos foi antes da pandemia, em fevereiro do ano passado, e obteve na altura um juro de 0,555%.

Em ambos os prazos, os investidores continuaram a revelar um forte apetite pela dívida portuguesa. Nas OT a dez anos, a procura foi 3,02 vezes superior à oferta (2,19 vezes na última operação comparável). Já nas OT a 15 anos, a procura ficou 2,55 vezes acima do valor oferecido (1,49 vezes em fevereiro do ano passado). Em conjunto, a procura quase triplicou a oferta.

Na estratégia para o ano, o IGCP prevê emitir 15 mil milhões de euros em Obrigações do Tesouro. Esse dinheiro irá servir não só para contribuir para as necessidades de financiamento do Estado (que totalizam 14 mil milhões de euros em 2021) como para reembolsar os investidores que têm títulos que atingem as maturidades em 2021: há 8.727 milhões de euros a devolver já em abril.

A agência liderada por Cristina Casalinho conta igualmente com 2,9 mil milhões de euros vindos da União Europeia e irá também tirar 6,7 mil milhões de euros que estão nos depósitos do Estado. As emissões de Bilhetes do Tesouro (BT) servirão apenas para reembolsar investidores de títulos antigos que atinjam as maturidades. Estes montantes poderão, no entanto, ter de ser ajustados devido à evolução da pandemia.

(Notícia atualizada às 11h30)

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