Da bricolage às conservas. Estas empresas cresceram em tempos de pandemia

2020 foi um ano particularmente difícil para grande parte do tecido industrial português, mas existem exceções. Da Cimpor à Ramirez, conheça exemplos de empresas que cresceram em tempos de crise.

A pandemia afetou a economia a uma escala global, mas nem todas as indústrias foram afetadas da mesma forma. Alguns setores de atividade viram a sua procura aumentar significativamente e tiveram mesmo de intensificar a produção para responder à procura desenfreada por determinado produto. É o caso de setores como a construção, bricolage, mobiliário, conservas e energia.

O ECO falou com a Cimpor, Barbot, Ramirez, Lavoro, Paulo Antunes, Sun Energy e Arquiconsult. Todas as empresas cresceram em tempos de pandemia e algumas até contrataram mais recursos humanos para responder à procura.

O confinamento e o teletrabalho levaram os consumidores a alterar hábitos de consumo, a reformular espaços e tornar a casa mais confortável, pensando em soluções energéticas mais amigas do ambiente. Com todas estas alterações, várias indústrias sentiram um impacto positivo e assistiram a um aumento do número de encomendas.

A construção, a par com a indústria agroalimentar, foram setores que resistiram ao impacto da pandemia. No que respeita à construção, os materiais registaram uma forte procura, à semelhança dos bens alimentares. A Cimpor apesar de ter crescido em tempos de pandemia, viu as exportações caírem 30%. A fábrica de cimento mais antiga do país, que exporta principalmente para África, América Latina e Europa, encontrou oscilações entre os mercados.

“Enquanto no mercado interno a Cimpor registou uma evolução positiva face a 2019 — o volume de vendas cresceu cerca de 10% — os resultados com as exportações baixaram cerca de 30%”, explica ao ECO o presidente executivo da Cimpor Portugal e Cabo Verde, Luís Fernandes.

Nos primeiros dez meses do ano, o consumo de cimento cresceu 9,3% e atingiu valor anual médio mais alto desde 2011. Para o CEO da Cimpor Portugal e Cabo Verde, este crescimento deve-se a duas razoes: “O facto de o setor da construção em geral não ter parado, ou seja, as obras em curso continuaram e as que já estavam adjudicadas iniciaram-se” e registou-se “um crescimento da pequena obra, pensamos que associada ao facto de, devido ao confinamento, as pessoas estando em casa aproveitaram para executar obras “adiadas”, o que se traduziu num aumento do consumo de cimento ensacado”, enumera o responsável.

À semelhança da construção, a bricolage foi um dos setores que mostrou resiliência. O presidente da Barbot, Carlos Barbot, confirma a tendência de crescimento e corrobora a ideia de Luís Fernandes. “A construção civil continuou a trabalhar normalmente e a bricolage aumentou”, explica o empresário. Acrescenta ainda que a “procura foi homogénea em todo o catálogo com um foco especial nas tintas de cor para o interior”.

Para o presidente da Barbot, com o confinamento e todas as medidas de restrição adjacentes ao estado de emergência, “os portugueses dedicaram mais tempo e dinheiro à casa”. Já no primeiro trimestre do ano, a Barbot fez correr muita tinta e assistiu a um aumento de 5% nas vendas. O gestor da empresa já tinha dito ao ECO, no primeiro confinamento, que as pessoas aproveitaram o facto de estarem em casa para fazer uns retoques. Noves meses depois, Carlos Barbot, confirma que a Barbot cresceu 12% a nível global e 15% no mercado interno. A empresa faturou mais de 50 milhões a nível global, contra os cerca de 46 milhões faturados em 2019.

Para além da construção a procura por bens alimentares disparou. A Ramirez viu a procura por conservas disparar no primeiro confinamento. Já no primeiro trimestre o presidente da empresa, Manuel Ramirez antecipava ao ECO um ano de crescimento. A expectativa passou a realidade e a Ramirez, que conta com 168 anos de história, fechou o ano de 2020 com um crescimento global de 30% no volume de negócios. “Registou-se um aumento de consumo desse tipo de produtos quer no mercado interno, quer no mercado externo”, conta Luís Avides Moreira, adjunto da administração das Conservas Ramirez.

O adjunto da administração das Conservas Ramirez, explica ao ECO o porquê desta procura: as conservas “são um produto que, por norma, funcionam em contraciclo. Quando existem crises que abalam a economia as conservas são um produto que tende a ter uma performance bastante boa nessas conjunturas”. Do atum às sardinhas, o crescimento foi homogéneo em todas as referências do grupo. Mesmo em cenário de pandemia, o administrador da Ramirez lembra que “há uma preocupação por consumir produtos mais saudáveis”.

Também o setor do mobiliário viu a sua procura aumentar. Com as pessoas fechadas em casa, o lar passou a ter várias funções em simultâneo, entre elas o teletrabalho e a telescola. Devido ao confinamento as pessoas passaram mais tempo em casa, tiveram necessidade de adaptar os espaços e tornar o lar mais confortável. Face a esta tendência, em alguns casos a procura por móveis aumentou como é o caso da empresa de mobiliário Paulo Antunes, que registou o melhor ano de sempre em 2020, com um crescimento de 20% em termos homólogos.

Para o administrador da empresa sediada em Amares, “as pessoas passaram a dar mais prioridade à casa e ao conforto”. Sofás, móveis e cadeirões foram alguns dos produtos com mais saída. Paulo Antunes confessa que, a partir de abril, “o telefone não parava de tocar com pedidos de novas encomendas” e que “nunca tiveram tanto trabalho”. Face a esta procura a empresa contratou meia dúzia de colaboradores no ano de 2020.

A empresa, que exporta 85% da produção principalmente para a Rússia, Reino Unido e Alemanha, diz só ter disponibilidade para aceitar novas encomendas a partir de abril face à procura desenfreada por móveis. Para além de ter sido o melhor ano de sempre, o responsável diz ter consciência que quando as vacinas entrarem efetivamente em ação e quando isto tudo passar, o fenómeno será invertido. “As pessoas vão esquecer a casa e canalizar o ser orçamento para viajar e jantar fora”, alerta.

Empresas reinventam-se em tempos de pandemia

Contrariamente à bricolage e ao mobiliário, o setor do calçado foi brutalmente prejudicado pela pandemia. Com fábricas em lay-off, lojas de venda ao público fechadas e a moda a ficar para segundo plano, o calçado viu as suas exportações cair a pique. Todavia, mesmo neste setor existem casos de empresas que conseguiram reinventar-se em tempos de pandemia e aumentar o volume de negócios. É o caso da Lavoro. A empresa especializada em calçado de segurança viu nesta crise uma oportunidade de negócio e adaptou as linhas de produção para começar a produzir viseiras, máscaras certificadas pelo Citeve e, posteriormente, calçado especializado para os profissionais de saúde.

O negócio das máscaras e das viseiras permitiu à empresa com 35 anos de história registar um crescimento homólogo de cerca de 5% no volume de negócios. “Parte deste crescimento deve-se às mascaras e às viseiras, no caso do calçado ficou ligeiramente abaixo. No conjunto global crescemos 6%”, conta o presidente do conselho de administração da Lavoro. Teófilo Leite acrescenta ainda que, “o ano passado, o objetivo era faturar 20 milhões de euros”. Fecharam o ano com 18 milhões. “Já ficamos bastante contentes e satisfeitos (…) no final do ano atingiram o objetivo: a produção três mil pares de sapatos por dia. Fizemos o que estava previsto para 2020”, frisa.

Teófilo Leite explica ao ECO que através do negócio das viseiras e das máscaras “abriram a porta a mais clientes da área dos equipamentos de proteção individual”. Fruto deste crescimento, a Lavoro empregou mais 40 colaboradores em 2020, no total são 240.

Procura por energias mais limpas também aumentou

A procura por energias limpas também se destacou em tempos de pandemia e quem o diz é o CEO da Sun Energy. Raul Santos refere que o volume de negócio da Sun Energy aumentou 60% em 2020. “Apesar de todas as contrariedades de 2020, o setor da energia solar continuou a dar sinais de grande resiliência. Na senda do que vinha a acontecer nos anos anteriores, sentimos que os portugueses apostaram, cada vez mais, em soluções sustentáveis e que, ao mesmo tempo, permitem uma redução significativa a nível económico”, afirma o responsável.

Fruto do aumento da procuram, em 2020, a SunEnergy abriu duas novas delegações, nas Caldas da Rainha e na Marinha Grande. De norte a sul, a empresa conta com dez delegações, empregando mais de 50 pessoas. Ao longo do ano de 2020, a Sun Energy, sediada em Coimbra, instalou 15.000 painéis solares fotovoltaicos para a produção de energia elétrica a partir do sol, o que corresponde a 5 MW de potência instalada. Ao todo, estes projetos vão permitir a poupança acumulada de 800 mil euros por ano aos seus clientes, evitando também a emissão de 3.000 toneladas de CO2 anualmente.

Outra das empresas que cresceu em 2020 foi a Arquiconsult. A empresa portuguesa de consultoria especializada na implementação de sistemas de informação de gestão cresceu 12% e fechou o ano passado com um volume de negócios superior a 14 milhões. O administrador Rui Santos considera que a procura por este tipo de serviços é muito semelhante ao ano transato e que o crescimento se deve ao ao facto de terem fechado alguns projetos internacionais. A Arquiconsult trabalha a nível nacional com empresas como o Gato Preto e a Farfetch.

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