Teletrabalho veio para ficar? Presente é 100% remoto, mas futuro é híbrido

Há quem esteja desejoso de voltar aos escritórios e há quem prefira manter os colaboradores em teletrabalho. Apesar de poucas certezas sobre o futuro, modelos híbridos são os que reúnem mais adeptos.

Teletrabalho ou escritório?

O ano de 2020 abriu portas a um futuro mais flexível, em que o teletrabalho passou a ser algo comum (e necessário) para a maioria das empresas. Se, para algumas, foi uma autêntica novidade, para outras foi apenas uma forma de acelerar processos que já estavam em andamento. Este ano, os planos das organizações passam, para já, por manter o teletrabalho. Há quem esteja à espera da luz verde do Governo para voltar aos escritórios e há quem, mesmo podendo regressar, prefira manter os colaboradores a trabalharem remotamente por mais alguns meses. Sem grandes certezas sobre o amanhã, há apenas um consenso: o futuro do trabalho é híbrido.

“Após o regresso aos escritórios, a nossa política de flexibilidade irá ser mantida. Os colaboradores poderão trabalhar duas vezes por semana a partir de casa”, assegura Clara Trindade, diretora de recursos humanos da L’Oréal, à Pessoas. Antes da pandemia, a multinacional francesa permitia um dia por semana de home office, medida que foi alargada para dois dias ainda em 2020 e que veio para ficar.

“É uma política independente da pandemia”, afirma a responsável, o que significa que manter-se-á mesmo num contexto pós-pandémico. “Acreditamos que vem ao encontro do novo normal que os colaboradores ambicionam, de forma a equilibrar melhor a vida profissional e pessoal e, ao mesmo tempo, mantendo viva a nossa cultura empresarial”, acrescenta.

Também o El Corte Inglés pretende manter alguma flexibilidade no regime de trabalho e isso passa por colocar as equipas “em espelho”, alternando entre teletrabalho e trabalho presencial no escritório. “Queremos manter um sistema híbrido, onde as equipas estejam de forma alternada, de maneira a reduzir ao mínimo o número de colaboradores presentes nos nossos escritórios”, diz a cadeia espanhola.

Já a New Work Portugal quer ir mais longe. Para o grupo do qual faz parte a rede social alemã XING, o teletrabalho não era totalmente desconhecido. Aliás, antes mesmo da pandemia da Covid-19, esteve em curso uma iniciativa que pretendia oferecer aos colaboradores a possibilidade de trabalharem fora do escritório até 50% do tempo.

Acreditamos que dar esta flexibilidade e liberdade ajuda no equilíbrio da vida pessoal e profissional e, no limite, beneficia largamente ambas.

Miguel Garcia

General manager da New Work Portugal

Agora, a empresa pretende que sejam os colaboradores a decidir quando (e se) querem ir trabalhar para o escritório. “Acreditamos que dar esta flexibilidade e liberdade ajuda no equilíbrio da vida pessoal e profissional e, no limite, beneficia largamente ambas”, refere Miguel Garcia, general manager da New Work Portugal, acrescentando que é importante que as pessoas encontrem o seu “sweet spot“, um local onde se mantêm calmas, seguras, focadas e produtiva.

Trabalho remoto? “Não só é possível, como traz mais-valias”

A produtividade é, precisamente, algo que parece não ter saído afetado desta crise sanitária que obrigou os colaboradores a levarem o escritório para as suas casas, de forma indeterminada. “Há empresas que viram a sua produtividade, inclusive, aumentar, como é o caso do Facebook, Twitter ou Spotify. E estamos a falar de empresas que empregam dezenas de milhares de pessoas e agora se renderam-se trabalho remoto”, afirma Marcelo Lebre, chief technology officer (CTO) e cofundador da Remote, que tem como missão simplificar o trabalho remoto e ajudar as organizações nesse processo.

Este último ano foi um catalisador para o trabalho remoto, demonstrando a trabalhadores e empresas que, não só é possível, como traz várias mais-valias“, refere, salientando a flexibilidade do horário de trabalho, a redução do tempo despendido em deslocações entre trabalho e casa, a redução da poluição, o aumento de felicidade dos trabalhadores, o aumento da produtividade e a redução de custos associados a manutenção de espaços de escritório como os principais benefícios.

Em janeiro, contava Maurício Marques, diretor de recursos humanos da Natixis em Portugal, à Pessoas, que a boa experiência remota dos últimos meses fez com que a empresa — que tem os 1.000 colaboradores a trabalharem a partir de casa desde março de 2020 — estivesse a ponderar manter ou até mesmo alargar a política de work from home.

“2020 ficará registado na história como o ano em que muitos modelos e soluções, que até então estavam na gaveta por serem muito arrojados, foram colocados em prática por não existirem outras alternativas. Em inúmeras situações acabaram por se revelar boas opções de longo prazo para as empresas, colaboradores e famílias, e irão fazer agora parte do nosso dia-a-dia”, dizia na altura.

Uma opção até em setores onde, à partida, seria mais complicado

A trabalhar num setor onde, à partida, é mais difícil encontrar funções compatíveis com o trabalho à distância, o InterContinetal Lisbon admite que, se o teletrabalho funcionar, não há razão para não manter esta prática, ainda que muito nova para a empresa.

Nos nossos hotéis, o regime de teletrabalho não era uma prática. Flexibilização, investimento no engagement, foco na comunicação e saúde mental e investimento em tecnologias passaram a ser prioridades e a gestão remota dos colaboradores passou a ser uma das tendências que está para ficar”, afirma Vítor Silva, diretor de recursos humanos do InterContinental Lisbon.

No setor da saúde, a CUF, com cerca de 600 colaboradores em teletrabalho, já tem em curso a construção de uma política de teletrabalho do grupo. “É um modelo sobre o qual já refletíamos antes da pandemia e que acabou por ser impulsionado, o que nos permitiu uma reflexão profunda sobre o mesmo. Ainda não fechámos totalmente o modelo que iremos adotar, mas estamos a trabalhar para que este possa ser adaptável tendo em contas as diferentes características das equipas e a diversidade de funções”, dizia José Luís Carvalho, diretor de recursos humanos da CUF, à Pessoas no início do ano.

A chave para o futuro do trabalho parece estar em levar para o futuro algumas das políticas de flexibilidade que a pandemia obrigou as empresas a adotarem e que revelaram funcionar. Oferecer possibilidade de trabalhar a partir de casa, alternando com o trabalho no escritório, é a medida que reúne mais adeptos. Quase 70% dos responsáveis de recursos prevê mesmo que a sua empresa venha a adotar um modelo de trabalho híbrido no pós-pandemia, com dois ou mais dias de trabalho remoto por semana, revela o Barómetro RH 2020/21, do Kaizen Institute, que inquiriu 150 diretores de recursos humanos de grandes e médias empresas nacionais.

Neste momento, “é impossível ter uma boa experiência de trabalho remoto”

Ainda que o atual contexto tenha servido — e continue a servir — para impulsionar, de certa forma, o teletrabalho, Marcelo Lebre recorda que há diferenças importantes entre o teletrabalho “forçado”, num cenário pandémico, e o teletrabalho num contexto mais normal. “O momento que atravessamos traz, uma pressão acrescida, tanto pela própria pandemia, como pelo facto de muitas pessoas terem de tomar conta dos seus familiares (filhos ou pais)”, ao mesmo tempo e no mesmo espaço em que trabalham, considera.

Henrique Paranhos, fundador da WEbrand Agency, acredita mesmo que “é impossível ter um boa experiência de trabalho remoto”, tendo em conta o atual contexto. “Se, por um lado, fiquei animado que muita gente tenha tido, em 2020, o primeiro contacto com o teletrabalho e que possa agora ser visto como uma possibilidade, por outro lado estou certo de que o desconhecimento e a forma forçada e apressada como foi implementado, bem como o seu caráter excecional, tenha resultado num ainda maior desconforto com o teletrabalho”, considera.

Henrique Paranhos é o fundador da WEbrand Agency.Hugo Amaral/ECO

Teletrabalho não é estar em casa confinado por imposição devido a haver uma pandemia a assolar o mundo. Não é estar a trabalhar de casa, muitas vezes sem condições logísticas, com falta de equipamento apropriado, sem conhecimento das ferramentas, com os filhos para cuidar, com todo o agregado familiar a tentar reunir virtualmente ou a ter aulas em simultâneo e com uma enorme incerteza sobre o futuro e receio constante de contágio pelo vírus”, continua o fundador da agência 100% remota.

Em dezembro, no último dia do Web Summit, Jason Fried, CEO da Basecamp, falava precisamente sobre este assunto, apelando à urgência de relações de confiança, ao respeito do tempo e a uma comunicação fluida na gestão das equipas remotas. “As empresas que estão a recriar os escritórios remotamente vão esgotar as pessoas. É mais difícil, desta forma, fazer o que fazíamos no escritório”, disse, durante a sua intervenção. “Isto não é trabalho remoto. É trabalho pandémico. É muito importante que as pessoas reconheçam isso. A maioria das razões é porque as pessoas estão sob extrema pressão e stress”, acrescentou.

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