Estes 5 indicadores económicos já superaram a pré-pandemia

A economia portuguesa está em recuperação e já há indicadores económicos a mostrar crescimentos face a 2019. Mas ainda há muito por recuperar: o PIB deverá voltar ao nível pré-pandemia apenas em 2022.

Está em curso uma “recuperação significativa da atividade económica” em Portugal. Quem o diz é o Instituto Nacional de Estatística (INE) com base nos indicadores já disponíveis para abril, ressalvando que, no global, a economia ainda está longe dos níveis de 2019. Porém, há exceções: como o impacto da pandemia não é homogéneo, há partes da economia que já superaram o pré-pandemia, mas é cedo para conclusões.

A maioria dos indicadores económicos está a registar fortes subidas homólogas no final de março e em abril por causa da base de comparação em 2020, período em que a pandemia chegou a Portugal, ser muito baixa. Veja-se o exemplo extremo das vendas de automóveis ligeiros de passageiros, que subiram 440,8% em abril, ou o montante envolvido nas operações de multibanco que cresceram 53,1%. São variações que raramente se veem em “normalidade”.

Para perceber em que estado está a economia é mais útil comparar com o nível de 2019, tal como fez recentemente o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, quando antecipou que o indicador diário de atividade económica (DEI) já registava valores acima de 2019. O DEI regista crescimentos de dois dígitos face a 2020, mas também apresenta variações positivas face a 2019, surpreendendo pela positiva.

Fonte: Banco de Portugal.

O indicador de atividade económica do INE, que sintetiza um conjunto de indicadores quantitativos que refletem a evolução da economia, também aumentou significativamente em março e atingiu o valor mais elevado desde abril de 2019. Porém, o tracker da OCDE, o qual “traduz” a atividade económica através das pesquisas feitas no Google, ainda não chegou a esse nível, de acordo com os dados disponíveis até ao final de abril.

Fonte: Instituto Nacional de Estatística.

No geral, de acordo com o INE, os indicadores da economia portuguesa “ainda não atingiram os níveis do período homólogo de 2019”. Contudo, há exceções, a começar pelas vendas do cimento. O índice seguido pelo Banco de Portugal, com base em informação da Cimpor e da Secil, mostra um grande salto em março para o nível mais elevado desde 2011. Em abril, o índice desceu, mas manteve-se em níveis superiores aos de 2019, o que mostra o dinamismo do setor da construção — o único setor que cresceu em 2020 — e do investimento, apesar da pandemia.

Outro indicador positivo para o investimento na economia portuguesa é a importação de máquinas. Ao contrário do que aconteceu durante 2020, o investimento em máquinas está a dar um contributo positivo para a formação bruta de capital fixo em Portugal, o que sinaliza um crescimento expressivo desta componente do PIB no segundo trimestre. “Espero, em geral, um bom comportamento do investimento no segundo trimestre deste ano se não houver recuos no processo de desconfinamento“, confirma o economista João Borges de Assunção ao ECO.

“Alertaria apenas, no caso do cimento, para o facto de este indicador ter resistido muito bem aos sucessivos confinamentos, já que ao contrário de outros países, o setor da construção trabalhou de forma quase normal ao longo dos últimos 14 meses”, acrescenta, antecipando que as vendas em 2021, após uma subida de 10% em 2020, beneficiem de “algum efeito das eleições autárquicas, mas ainda sem os efeitos do PRR”.

Vendas de cimento acima de 2019

Fonte: Banco de Portugal. Índice de vendas de cimento (1990=100).

António Ascensão da Costa, economista do ISEG, antecipa que o investimento em construção, o qual representa cerca de 50% do total do investimento em Portugal, “deverá continuar a crescer”, o que representa uma “surpresa muito positiva” que marca esta crise pandémica. “Atualmente o setor estará a ser puxado pelo segmento das obras de engenharia, e provavelmente público, que cresce mais do que a construção de edifícios e o investimento privado”, descreve. No caso das importações de máquinas, avisa que “nessa área é mais difícil tirar conclusões diretas e também é mais volátil”.

Do lado das exportações de bens, ainda não há dados para abril mas no primeiro trimestre de 2021 as vendas de bens ao exterior já estavam a registar subidas face a 2019. Nessa ótica, as exportações de bens apresentam um crescimento de 3%, o que representa cerca de 500 milhões de euros em bens exportados a mais durante o primeiro trimestre de 2021, num total de 15,4 mil milhões de euros, face ao primeiro trimestre de 2019 (14,9 mil milhões de euros).

Algumas subidas podem ser temporárias e outros indicadores ainda estão aquém de 2019

Estas são as exceções à regra: a maioria dos indicadores ainda não está acima de 2019. E mesmo os que estão, como é o caso do índice de volume de negócios na indústria, que disparou em março, tal pode dever-se a efeitos não estruturais. “Caso o volume de negócios na indústria exceda os patamares de 2019 isso deverá ser um fenómeno temporário“, considera João Borges de Assunção. O mesmo efeito está a verificar-se na Zona Euro.

O economista explica que “os indicadores mensais como o volume de negócios na indústria ou as exportações nominais de bens vão ter oscilações superiores à média nos próximos meses pelo que não devem ser sobre-interpretados. Para Borges de Assunção só quando houver uma “sucessão de meses com dados normais e estáveis e próximos dos níveis do ano de 2019” é que se pode tirar conclusões sobre a evolução da economia e dos setores.

No caso das operações com cartões, de acordo com os dados da SIBS compilados pelo INE, o volume de compras físicas ainda não está acima de 2019, mas desagregando os valores entre cartões nacionais e cartões estrangeiros (turistas) é possível concluir que no caso dos consumidores nacionais o valor superou em abril de 2021 o de abril de 2019.

Compras em terminais com cartões nacionais superam valor de 2019

Fonte: Dados da SIBS compilados pelo INE. Em euros.

Porém, é de notar que pode haver o efeito de algum “consumo adiado” pelo segundo confinamento entre janeiro e março, sendo necessário também mais meses para confirmar a tendência. Por outro lado, este volume não inclui as compras online, um segmento que aumentou significativamente durante a pandemia e que pode ter “substituído” algumas compras físicas.

E há muitos outros indicadores em que definitivamente a economia está aquém de 2019, como é o caso do indicador de clima económico, o índice de produção industrial, o índice de volume de negócios no comércio a retalho ou o caso mais expressivo que é a queda de 78% do número de passageiros nos aeroportos nacionais em março de 2021, face a março de 2020, mês que já foi parcialmente condicionado pela pandemia. De acordo com os cálculos do ECO, o PIB estava no primeiro trimestre deste ano 9% abaixo do nível pré-pandemia.

A expectativa do ISEG é que o PIB possa crescer até 15% em termos homólogos e a da Comissão Europeia é de um crescimento de 13,5%. Este salto expressivo do PIB deve-se não só à retoma com o desconfinamento, mas também à base de comparação ser baixa pelo que as variações positivas deverão moderar-se nos próximos trimestres. A previsão do Governo e da Comissão Europeia é que só no próximo ano a recuperação esteja completa com o PIB a acabar 2022 cerca de 1% acima do nível de 2019.

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