Consumo mais sustentável? Como tornar a Black Friday numa Green Friday

Com a Black Friday a estender-se ao longo de novembro, o impacto ambiental desta época de consumo tende a aumentar. Mas há forma de mitigar esse efeito.

Pare, pense e decida se precisa mesmo de comprar aquele produto com a promoção irresistível se pretende que esta Black Friday possa ser um pouco mais sustentável. Adquirir produtos em segunda mão ou com certificação ambiental são opções que podem transformar este momento de elevado consumo numa Green Friday.

“Um produto não se torna necessário porque está em promoção, por muito tentadora que esta seja. Refletir muito bem é o primeiro passo”, começa por dizer Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, ao ECO. Resistir à tentação da ‘mega promoção imperdível’ pode ter, efetivamente, impacto no ambiente. “Não temos dados sobre o impacto ambiental deste boom de consumismo, mas dado que tudo o que compramos e usamos tem sempre impacto ambiental (quer na fase de produção, quer na fase de uso e de fim de vida) quanto mais comprarmos, maior será o nosso impacto no ambiente, onde, entre outros impactos, estaremos a contribuir para agudizar o problema das alterações climáticas”, refere.

Não são conhecidos dados específicos para o mercado português, mas o aumento de vendas nesta época do ano, para mais que a Black Friday tem vindo a estender-se ao longo de todo o mês de novembro colando até ao Natal, é reconhecido pelos comerciantes e transportadores de encomendas. Só os CTT — o maior operador postal do país — admitia recentemente ao ECO que o dia da Black Friday representava um “acréscimo na ordem dos 55% face a uma sexta-feira ‘normal’ de novembro” no transporte de encomendas. O resultado é muitas compras de produtos e encomendas a circular com efeitos nas emissões de carbono.

Um produto não se torna necessário porque está em promoção, por muito tentadora que esta seja. Refletir muito bem é o primeiro passo.

Susana Fonseca

Zero

A nível global, na Black Friday de 2021 estima-se que sejam efetuadas, só online, 104.957.338 transações, resultando em 386.243 toneladas de emissões de carbono para a atmosfera (-11% do que no ano anterior), segundo estimativas da Money no relatório The Dirty Delivery 2021. Ou seja, o equivalente a mais de 215 mil voos entre Londres e Sydney em apenas 24 horas.

“Estamos a consumir demasiados recursos do planeta, e a esgotá-los. Cada compra conta, e substituir itens só porque saiu um modelo mais recente gera um desperdício gigante. É essencial que antes de comprar algo novo consideremos se o anterior está efetivamente estragado e sem possibilidade de reparação”, aconselha Ângela Morgado, diretora executiva da ANP|WWF, em declarações ao ECO.

Os números são claros. “A extensão do tempo de vida por apenas mais um ano dos smartphones que existem na União Europeia permitiria evitar a emissão de 2,1 milhões de toneladas de gases com efeito de estufa (GEE) por ano, em 2030, o que equivale a retirar da estrada cerca de 1 milhão de veículos“, diz Susana Fonseca, da Zero, citando estudos realizados no âmbito da campanha Cool Products.

Esticar por mais um ano a vida do portáteis existentes equivale a retirar da estrada cerca de 870 mil automóveis e, “no que diz respeito às máquinas de lavar roupa, estaríamos a falar de poupanças equivalentes a retirar 130 mil carros da estrada por ano, em 2030”, destaca ainda a ambientalista. “E neste estudo apenas se teve em linha de conta os aspetos ligados às emissões de GEE. Os benefícios serão ainda muito maiores se entrarmos em linha de conta com todos os recursos que deixam de ser explorados para responder à procura por novos equipamentos”, alerta Susana Fonseca.

Dar segunda vida aos produtos

Mas, se tem mesmo de adquirir um produto, porque não comprar em segunda mão? “Existem cada vez mais alternativas para comprarmos produtos em segunda mão e algumas plataformas de venda de produtos em segunda mão também estão a fazer campanhas de desconto, com o intuito de aumentar a atratividade deste novo estilo de vida”, refere Susana Fonseca, da Zero.

E, com consumidores cada vez mais conscientes da sua pegada carbónica, parecem mais abertos a dar uma segunda vida aos produtos. Um inquérito da CashConverters — empresa de compra e venda de bens em segunda mão –, junto de uma amostra de mais de 100 pessoas, aponta que 80% dos consumidores admitia comprar um produto em segunda mão nesta Black Friday, cerca de 54% acredita que esta época tem consequências negativas para o meio ambiente e que 61% está consciente de que, devido à superprodução de novos produtos, as emissões de CO2 podem ser multiplicadas por seis durante este período. Cerca de 46% da amostra acredita ainda que esta data pode causar problemas de resíduos.

Estamos a consumir demasiados recursos do planeta, e a esgotá-los. Cada compra conta, e substituir itens só porque saiu um modelo mais recente gera um desperdício gigante. É essencial que antes de comprar algo novo consideremos se o anterior está efetivamente estragado e sem possibilidade de reparação.

Ângela Morgado

Diretora executiva da ANP|WWF

“Esta é uma oportunidade para os retalhistas de produtos em segunda mão oferecerem aos consumidores a oportunidade de adotarem um estilo de consumo mais consciente e inteligente, que lhes permita poupar o ambiente e a carteira”, recomendava Paulo Freitas, porta-voz da Cash Converters em Portugal, citado em nota de imprensa.

E há marcas que já o estão a fazer. É o caso da Ikea. Nos centros comerciais do grupo sueco — os MAR Shopping de Matosinhos e Algarve — decorre, até 5 de dezembro, a ação “Love Your Stuff For Longer” [Desfrute das suas coisas por mais tempo], que passa pela realização de um mercado de compra de roupa, calçado e acessórios em segunda mão com peças dos closets de influencers, bem como pela recolha de roupa, calçado e acessórios em bom estado que, depois da triagem e separados, serão doados a instituições.

E, pelo segundo ano consecutivo, a cadeia volta a realizar a #BuyBuckFriday convidando os clientes a trazer os seus móveis usados em troca de um voucher de compra. No ano passado, entre 24 de novembro e 3 de dezembro, receberam em Portugal “cerca de 5.000 produtos para revenda” e conseguiram dar “a conhecer a mais pessoas o serviço de Segunda Vida”, disponível as lojas da cadeia desde o início do ano fiscal de 2018. Globalmente, o Grupo Ingka recebeu e deu uma segunda vida a 42,3 milhões de produtos recuperados, reembalando e revendendo produtos nas lojas da cadeia sueca, que tem como meta tornar-se uma empresa “totalmente circular” até 2030.

A marca não adianta objetivos para a campanha deste ano, mas está otimista. “A #BuyBackFriday vem incentivar as pessoas a olharem para os produtos que têm casa e a dar uma segunda vida e uma nova casa aos que já não lhes são úteis, mas que ainda estão em bom estado para serem usados. Sabemos que há cada vez mais pessoas com preocupações ambientais e, portanto, estamos confiantes que este ano, tal como em 2020, a iniciativa vai ser um sucesso”, diz Ana Barbosa, responsável de sustentabilidade da Ikea Portugal, ao ECO.

Esta é uma das iniciativas “interessantes” referidas pela Zero, que deixa, no entanto, uma ressalva. “O valor da venda (do produto usado) tem de ser gasto nas lojas, voltando a estimular mais consumo. Assim, ainda que a mensagem seja diferente, o estímulo ao consumo constante mantém-se presente, uma cadeia que é cada vez mais urgente interromper”, refere Susana Fonseca.

Se tem mesmo de comprar um produto novo, a Zero aconselha que procure produtos com certificações, como o rótulo ecológico europeu, “que lhe garantam que foram produzidos procurando reduzir os impactos em diferentes dimensões da sustentabilidade” ou adquirir “produtos locais, menos complexos (que não misturem diferentes materiais) e que duráveis e reutilizáveis”.

“Em alternativa, podem aderir à Giving Tuesday, um movimento que surgiu para usar esta vontade das pessoas “gastarem” dinheiro em benefício de causas”, sugere Ângela Morgado, diretora executiva da ANP|WWF.

Recomendações para uma Black Friday mais Green

  • Pare, reflita e decida se precisa mesmo de comprar o produto em “mega promoção”;
  • Estenda, se possível, a vida dos seus produtos ou dando-lhe uma segunda vida;
  • Compre em segunda mão;
  • Fique atento aos certificados dos produtos e opte por certificações mais amigas do ambiente;
  • Compre produtos produzidos mais próximo da sua residência;
  • Troque a compra de produtos por causas e pondere aderir à Giving Tuesday.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história e às newsletters ECO Insider e Novo Normal.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Consumo mais sustentável? Como tornar a Black Friday numa Green Friday

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião