Depois da semana de 4 dias para a sede, Desigual prepara alternativas para trabalhadores nas lojas

Mais de um fim de semana de folga por mês, antecipar as férias e melhorar os turnos são algumas das medidas analisadas pela marca de moda. Para já, os planos não envolvem os trabalhadores de Portugal.

A Desigual avançou com a semana de trabalho de quatro dias para os trabalhadores da sede, em Barcelona. Para os colaboradores das vendas e operações, a companhia de moda planeia implementar alternativas. Adicionar um fim de semana por mês e folga e melhorar turnos são algumas das medidas em análise. O plano está “em andamento”, mas apenas em Espanha. Em Portugal, ainda não se aplica, sabe a Pessoas.

“Esta iniciativa faz parte de um plano mais amplo para fornecer modelos inovadores de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Como parte dessa visão, queremos implementar melhorias para todos os colaboradores, inclusive para os grupos que, devido às exigências específicas das suas funções, não puderam aproveitar esse horário”, começa por explicar Coral Alcaraz, people director da Desigual.

“Estamos confiantes que a implementação do sistema 3+1 na sede foi o primeiro passo no caminho para os modelos de trabalho do futuro. Agora, planeamos implementar alternativas para que todos os colaboradores das lojas, bem como as equipas de vendas e operações, também possam beneficiar desse equilíbrio entre vida profissional e pessoal”, avança a gestora de pessoas.

Para as lojas, a empresa está a considerar iniciativas como “ter mais de um fim de semana de folga por mês“, “antecipar as férias” e “melhorar os turnos“. Este plano, que Coral Alcaraz diz ser a médio prazo, está, “para já, em andamento apenas em Espanha”. Não se aplica aos 74 colaboradores da marca em Portugal.

“Esta iniciativa representa uma mudança no modelo de trabalho do setor de retalho para proporcionar um equilíbrio entre vida profissional e pessoal”, defende a people director.

Planeamos implementar alternativas para que todos os colaboradores das lojas, bem como as equipas de vendas e operações, também possam beneficiar desse equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Coral Alcaraz

People director da Desigual

Para os colaboradores da sede, em outubro, depois de uma votação que envolveu os cerca de 500 empregados nos escritórios de Barcelona e que ditou o “sim” à semana de trabalho reduzida, com mais de 86% dos colaboradores a aprovarem a medida, a Desigual encolheu a semana laboral para quatro dias, de segunda a quinta-feira.

As novas regras trouxeram algumas alterações aos termos dos contratos dos colaboradores, que passaram a trabalhar 34 horas por semana, em vez de 39.5 horas. Mas também o salário viu uma redução, associada ao ajustamento das horas (13%). Ainda assim, a empresa propôs partilhar essa redução, assumindo 50% da diferença, “o que significa que os empregados verão apenas uma diminuição de 6,5% nos seus salários”, esclarecia na altura a cadeia de moda espanhola.

Juan Carlos Pastor, consultor na áreas de leadership development, coaching e change management, e professor de liderança na IE Business School, considera que a solução “não é oferecer a todos os empregados os mesmos benefícios, pois cada função têm as suas próprias necessidades”. Contudo, defende que a semana de trabalho de quatro dias pode fazer parte de um plano mais geral de flexibilidade no trabalho, tal como está a pensá-la a empresa sediada em Barcelona.

Envolver colaboradores para reduzir sentimento de desigualdade

“A semana de quatro dias pode aplicar-se a todos os postos de trabalho nos quais seja possível manter o mesmo nível de produtividade. No entanto, nos postos de trabalho em que a presença física é necessária, pode optar-se por flexibilizar, dando a oportunidade ao trabalhador de gerir o seu tempo de outra forma”, sugere o especialista em liderança, coaching e mudança organizacional.

Às medidas avançadas pela Desigual, Juan Carlos Pastor acrescenta os horários de entrada e saída flexíveis, a rotação com colegas dentro das equipas e a partilha do trabalho com outro empregado.

“Os trabalhadores entendem perfeitamente as necessidades dos seus trabalhos e aceitam que nem todas as funções possam organizar-se da mesma maneira. O importante é que seja visível um esforço por parte da empresa em ajudá-los a gerirem melhor o seu tempo, mantendo os mesmos níveis de produtividade.”

Depois de ter ajudado várias empresas a gerirem uma mudança organizacional, o especialista em liderança diz que, muitas vezes, “o processo é mais importante do que o resultado final”. Quer isto dizer que as empresas devem dar mais atenção a todo o caminho que fazem, envolvendo os seus empregados na mudança que pretendem concretizar para a organização.

“Desta forma, conseguiriam reduzir os sentimentos de desigualdade e aumentar o compromisso com o novo sistema”, acredita Juan Carlos Pastor.

Depois do piloto, Telefónica analisa “possíveis ajustes”

Em Espanha, este tem sido um tema bastante debatido. Antes da Desigual, já algumas companhias tinham anunciado avançar com projetos-piloto para testar uma jornada laboral mais reduzida. A Telefónica foi uma das primeiras a dar esse passo.

Contactada pela Pessoas, a companhia explicou que pôs em marcha, no passado outono, a semana de quatro dias laborais, através de um projeto-piloto que envolveu 150 colaboradores e que “serviu para testar o interesse dos profissionais nesta fórmula”.

“Estamos a avaliar os possíveis ajustes da operativa habitual e a eficácia das equipas”, adianta fonte oficial à Pessoas, sem mais detalhes.

Há pouco mais de um mês, o ministério da Indústria, Comércio e Turismo espanhol anunciou que vai lançar, ainda antes do final do primeiro semestre do ano, um programa de ajudas financeiras para as empresas que decidam implementar a jornada laboral de quatro dias, passando de 40 horas semanais a 32 horas.

O orçamento destinado a financiar o projeto-piloto acordado entre o Governo espanhol e o Más País — que pretende reduzir a semana laboral sem impacto ao nível da remuneração dos trabalhadores — é de dez milhões de euros.

De acordo com os cálculos do Más País, cerca de 160 companhias poderão beneficiar dos incentivos, o que significará mais de 3.000 funcionários abrangidos pela primeira edição do programa, cujo um dos principais objetivos é avaliar as necessidades do tecido empresarial, quer a nível de recursos humanos, de serviços de consultoria ou de planificação de atividades e tarefas.

Um tema que divide opiniões

A decisão do Governo não agradou, contudo, a todos. Juan Carlos Martínez Lázaro, professor de economia na IE Business School, é um deles. “Parece-me um erro absoluto, e uma nova prova da cultura de subvenção de que este Governo tanto gosta”, critica.

“Não faz sentido destinar dinheiro público a este tipo de políticas. Se é preciso fazê-lo é porque elas supõem um aumento de custos para as empresas que é preciso tapar com o dinheiro de todos os contribuintes”, defende.

E propõe: “Seria muito mais interessante dedicar estes fundos a políticas efetivas de inserção ou capacitação dos trabalhadores desempregados, para que possam incorporar-se no mercado de trabalho. Um país que tem mais de três milhões de desempregados e uma dívida pública perto dos 120% do PIB devia concentrar os seus esforços em reduzir a taxa de desemprego e não em subvencionar experiências que só beneficiam alguns trabalhadores.”

Por outro lado, uma medida semelhante à que foi proposta pela Bélgica — que reduz a semana de trabalho, mas, em vez de apostar numa semana de 32 horas, opta por dividir as 40 horas por apenas quatro dias — já seria mais viável no país vizinho, considera o especialista em economia.

“Este tipo de medida, para determinada tipologia de empresa e posto de trabalho, pode ter sentido”, admite. Mas, ao fim ao cabo, “continuamos a medir o rendimento dos trabalhadores através do número de horas trabalhadas e não pela produtividade, ou seja, continua a reinar uma cultura presencial”.

Um país que tem mais de três milhões de desempregados e uma dívida pública perto dos 120% do PIB devia concentrar os seus esforços em reduzir a taxa de desemprego e não em subvencionar experiências que só beneficiam alguns trabalhadores.

Juan Carlos Martínez Lázaro

Professor de economia na IE Business School

“A pandemia fez com que descobríssemos o teletrabalho, que pode ser igualmente ou mais produtivo, sobretudo para determinadas tarefas. Por isso, a proposta de condensar a semana de trabalho em quatro dias não me parece mal para determinados trabalhos ou empresas que possam organizar-se dessa forma, mas é preciso desenvolver métricas que permitam medir adequadamente a produtividade desses trabalhadores”, detalha o professor na escola de negócios espanhola.

Embora também encare o tema diretamente ligado à produtividade, Juan Carlos Pastor mostra menos reservas. “Os inquéritos sobre este tema em Espanha são, normalmente, muito positivos. Um estudo recente da Hays mostrava que 71% dos espanhóis são favoráveis à semana laboral de quatro dias”, diz.

Mas há receios envolvidos. Da parte dos empregadores são, sobretudo, relacionados com a produtividade: “Muitas empresas têm medo de baixar a produtividade. Este é um medo real.” Já do lado dos trabalhadores, o receio prende-se, especialmente, com a “intensidade e stress durante os dias de trabalho”.

“Os espanhóis vêm de trabalhar muitas horas nas empresas. Há anos que estávamos entre os países da Europa com mais horas presenciais no trabalho. Os últimos dados do Eurostat mostram que, agora, estamos na média europeia e que uma grande maioria dos trabalhadores querem trabalha a partir de casa, pelo menos um dia por semana. Toda a mudança envolve incerteza. Mudar a semana laboral implicar mudar o estilo de vida”, refere Juan Carlos Pastor.

O mais importante, defende o docente de liderança, é “começar de forma gradual e ir aprendendo com aos acertos e erros cometidos”.

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