Importações nacionais de gás natural norte-americano disparam 1.000%

Portugal comprou onze vezes mais gás natural liquefeito aos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2022, em comparação com o primeiro trimestre de 2021. Gás vindo da Rússia afundou.

As importações nacionais de gás natural liquefeito (GNL) com origem nos Estados Unidos dispararam 1.000% no primeiro trimestre deste ano. Em contrapartida, o gás natural liquefeito da Rússia tornou-se quase residual quando no mesmo período em 2021, antes da invasão russa na Ucrânia, era o segundo maior fornecedor de Portugal. Com a promessa de Joe Biden de aumentar o fornecimento de gás à União Europeia, os EUA tornaram-se o maior fornecedor de Portugal em termos de GNL, pelo menos neste arranque de 2022, superando a Nigéria.

Nas importações salienta-se também o acréscimo dos Estados Unidos (+188,6%), maioritariamente combustíveis e lubrificantes (gás natural liquefeito e óleos brutos de petróleo)“, destacava esta terça-feira o Instituto Nacional de Estatística (INE) nos dados divulgados sobre a evolução das exportações e as importações de bens no primeiro trimestre deste ano. Este número global das importações vindas dos EUA escondia um aumento ainda mais expressivo das importações de gás natural liquefeito.

Os números mais detalhados do INE enviados ao ECO mostram que as importações portuguesas de gás natural liquefeito com origem nos Estados Unidos passaram de 30,1 milhões de euros no primeiro trimestre de 2021 para 333 milhões de euros, uma subida de 1.000% (onze vezes mais). Assim, o peso dos EUA no total das importações deste produto subiu de 13,1% para 51,4%, passando a ser o maior fornecedor de gás natural liquefeito de Portugal.

Fonte: Instituto Nacional de Estatística (INE). Em euros.

É de notar que estes dados do INE não estão deflacionados, isto é, os números refletem não só o aumento da quantidade importada mas também a variação de preço. Este fator é ainda mais importante no contexto atual em que os preços do gás natural têm disparado, pelo menos no mercado europeu, fruto das consequências da invasão russa na Ucrânia iniciada a 24 de fevereiro.

Em contrapartida, as importações nacionais de gás natural liquefeito com origem na Rússia afundaram, passando de 81,8 milhões de euros no primeiro trimestre de 2021 para 39,4 milhões de euros no primeiro trimestre de 2022. O peso da Rússia caiu de 35,7% para apenas 6,1%, ficando como o quarto maior fornecedor de Portugal.

Anteriormente, a Nigéria era o maior fornecedor, mas perdeu essa posição, apesar de as importações de gás natural liquefeito nigeriano terem aumentado de 98,2 milhões de euros para 186,6 milhões de euros. O peso da Nigéria passou de 42,9% no primeiro trimestre de 2021 para 28,8%.

Segundo o Expresso, há quatro empresas em Portugal a importar gás natural: Galp (principalmente Nigéria), EDP (Trinidad e Tobago), Endesa e Naturgy. No caso da Galp, a origem é principalmente a Nigéria, mas a partir do próximo ano comprará também um milhão de toneladas por ano à norte-americana Venture Global LNG. No caso da EDP e da Endesa, também compram à norte-americana Cheniere. A Naturgy tem vários fornecedores, incluindo EUA e Rússia.

Aceleração da venda de GNL norte-americano à Europa já vinha de trás

Esta evolução das importações portuguesas de GNL norte-americano acontece num período em que Estados Unidos e União Europeia coordenaram-se para reforçar a oferta norte-americana de gás natural para a Europa, de forma a diminuir a dependência dos países europeus face ao gás natural da Rússia.

No final de março, o presidente norte-americano Joe Biden comprometeu-se a fornecer a Europa este ano com mais 15 mil milhões de metros cúbicos de GNL, com o objetivo de chegar aos 50 mil milhões até 2030.

Do lado da União Europeia, a Comissão Europeia comprometeu-se a coordenar com os Estados-membros a construção de mais infraestruturas para receber o GNL. Neste momento, um dos pontos de entrada do GNL norte-americano é o Porto de Sines, já desde 2016, mas como mostra o mapa do executivo comunitário há muitos outros com maior importância em termos de volume importado.

Em 2018, nas negociações com a administração Trump por causa da guerra comercial com a UE, o então presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, deu como moeda de troca uma maior importação de GNL norte-americano, nomeadamente através do Porto de Sines, para diminuir o défice comercial dos EUA face à UE.

Em 2021, a União Europeia importou 22 mil milhões de metros cúbicos de GNL norte-americano, num valor estimado de 12 mil milhões de euros. Em janeiro de 2022 atingiu um máximo mensal de 4,4 mil milhões de metros cúbicos.

Esta tendência de reforço acelerou-se com a decisão da Rússia de invadir a Ucrânia e as sanções que se seguiram, com o Ocidente a tentar isolar e penalizar o Kremlin.

A União Europeia importa quase a totalidade do gás que consome e a Rússia era até à invasão da Ucrânia o seu maior fornecedor (cerca de 45%).

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