Empresários conformados com acordo “possível” nas tarifas. 15% são “geríveis” e melhor que 30%

Acordo fechado com os EUA é o "possível" e não beneficia nenhum setor na Europa (nem os que ficam isentos), mas quebra ciclo de incerteza que estava a originar uma quebra nas encomendas.

O acordo comercial fechado este domingo entre a União Europeia e os Estados Unidos é o acordo “possível” — longe de ser o desejável — e traz um alívio relativo após meses de incerteza e resulta num desfecho “gerível”, assumem as associações que representam os setores mais expostos aos EUA. Com os clientes norte-americanos a fazerem um compasso de espera nas encomendas para perceber o rumo das negociações, os empresários aplaudem este “cessar-fogo económico”, que traz visibilidade e previsibilidade às relações económicas entre as duas economias. Ainda assim, admitem que passar de uma taxa de 10% para 15% tem um impacto muito negativo.

Depois de meses marcados por negociações duras, a União Europeia anunciou, este domingo, um acordo com os EUA que fixa um teto máximo de 15% nas taxas aduaneiras norte-americanas sobre a maioria dos bens europeus e isenções tarifárias para determinados produtos. Bruxelas comprometeu-se ainda com a compra de energia norte-americana no valor de 750 mil milhões de dólares, bem como um investimento adicional de 600 mil milhões nos EUA. “Tendo em conta o cenário alternativo de não acordo, que desencadearia uma agudização incontrolável de retaliações e contraretaliações, com consequências desastrosas para a economia europeia, é com relativo alívio que acolhemos este desfecho”, realça Rafael Alves Rocha.

Tendo em conta o cenário alternativo de não acordo, que desencadearia uma agudização incontrolável de retaliações e contrarretaliações, com consequências desastrosas para a economia europeia, é com relativo alívio que acolhemos este desfecho.

Rafael Alves Rocha

Diretor-geral da CIP

O diretor-geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal assume que este é “resultado possível” que põe fim a meses de “incerteza, ambiguidade e instabilidade nas relações comerciais entre os dois blocos económicos”. “Para as empresas portuguesas esta ‘previsibilidade’ é relevantíssima. Evitou-se uma nova escalada“, destaca o mesmo responsável.

Dito isto, Rafael Alves Rocha admite que “um impacto deste nível de 15% das tarifas face aos 10% impostos – desde abril – sobre a generalidade dos produtos, será obviamente muito negativo” e “o impacto direto será tanto maior quanto maior for a dependência relativamente ao mercado norte-americano”.

“Apesar deste acordo proporcionar estabilidade e previsibilidade para os agentes económicos – assim como referido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen -, importa realçar que a tarifa definida para a União Europeia, embora igual à aplicada ao Japão, é superior à concedida ao Reino Unido, o que reforça a ideia de que este acordo é o possível, mas longe de ser o desejável“, atira o presidente da AEP, Luís Miguel Ribeiro, manifestando a sua “preocupação” em relação a este acordo.

Apesar deste acordo proporcionar estabilidade e previsibilidade para os agentes económicos – assim como referido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen -, importa realçar que a tarifa definida para a União Europeia, embora igual à aplicada ao Japão, é superior à concedida ao Reino Unido. O que reforça a ideia de que este acordo é o possível, mas longe de ser o desejável.

Luís Miguel Ribeiro

Presidente da AEP

Para o responsável, “este novo paradigma comercial, aliado a outros fatores relevantes, como a apreciação do euro face ao dólar americano, coloca enormes desafios à competitividade das exportações portuguesas de bens neste mercado”. Luís Miguel Ribeiro destaca ainda a importância do mercado norte-americano, que representa cerca de 6,7% das exportações portuguesas de bens e é o quarto principal cliente de bens e o primeiro não europeu.

“Relativamente aos impactos destas medidas, estes tenderão a ser maiores nos setores com maior grau de exposição aos EUA, destacando-se vários setores de elevada especialização produtiva da economia portuguesa, como os bens alimentares, os têxteis e o calçado, bem como os produtos das indústrias química, metalomecânica e de equipamentos, entre muitos outros”, detalha o presidente da AEP.

Quanto aos impactos indiretos, “uma vez que esta tarifa se aplica aos restantes 26 países da União Europeia – destino de mais de 70% das exportações portuguesas de bens”, Luís Miguel Ribeiro alerta que caso as exportações desses países para os EUA se deteriorem, “é expectável que importem menos bens de Portugal. O setor automóvel poderá ser um dos setores mais afetados de forma indireta, assim como o têxtil“.

Filipe Botton, chairman da Logoplaste, avisa que o “único drama é, desconhecendo a irracionalidade de quem está à frente dos EUA, saber quanto tempo irá durar” o acordo.
“O único drama é, desconhecendo a irracionalidade de quem está à frente dos EUA, saber quanto tempo irá durar”

Filipe de Botton, chairman da Logoplaste, que tem várias fábricas instaladas nos Estados Unidos, reconhece que “o mais importante em termos de gestão é a chamada previsibilidade. Desde o chamado Liberation Day temos vindo a sofrer todos”, atira. O empresário nota que esta situação resulta numa “incapacidade de tomar decisões”. “Não digo que mais vale um mau acordo do que uma boa contenda, mas temos que saber as regras com o que se pode seguir”. “O único drama é, desconhecendo a irracionalidade de quem está à frente dos EUA, saber quanto tempo irá durar” este acordo, avisa.

Apesar de o acordo estar longe de ser o desejável, os setores mais expostos ao mercado dos EUA assumem que taxas aduaneiras de 15% são “geríveis”. “Quando se pensava em 30%, um aumento de 10% para 15% parece gerível e pode ser repercutido”, admite Rafael Campos Pereira, vice-presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP).

Segundo adianta o mesmo responsável, “a dúvida está no alumínio e no aço, que mantêm os 50%, e saber se é só sobre a matéria-prima ou não”, uma questão relevante avaliar o impacto das tarifas no setor. Dependendo se as taxas sobre o aço vão incluir produtos manufaturados ou semi-manufaturados, o setor poderá estar sujeito “a taxas muito agravadas”.

Quando se pensava em 30%, um aumento de 10% para 15% parece gerível e pode ser repercutido [para os clientes].

Rafael Campos Pereira

Vice-presidente da AIMMAP

Com exportações de mil milhões de euros para os Estados Unidos, a metalurgia e a metalomecânica é um dos setores mais expostos às tarifas e tem estado a sentir o impacto das ameaças de taxas mais elevadas. No acumulado dos primeiros cinco meses do ano, as exportações do setor que tiveram como destino os EUA recuaram mais de 14%, passando de 320 para 274 milhões de euros até maio. Apesar de Rafael Campos Pereira dizer que no setor “ninguém é beneficiado”, a “boa notícia é a clarificação”. “A confirmar-se a taxa de 15% é pior que tínhamos, mas é melhor do que todos prevíamos”.

Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da APICCAPS, diz que taxas de 15% é um cenário melhor do que se previa.

No calçado, onde as vendas para os EUA cresceram 25% nos últimos três anos para dois milhões de pares, ou 97 milhões de euros, e são atualmente o sexto maior mercado da indústria, a solução anunciada de tarifas de 15% apresenta-se como “uma solução adequada”. “Garante previsibilidade e estabilidade”, destaca Paulo Gonçalves, porta-voz da APICCAPS, a associação que representa o setor.

“A instabilidade é altamente penalizadora para os negócios. O setor vinha a crescer 5% até maio e o único mercado onde não cresce é nos EUA“, refere. “A confirmar-se a taxa de 15% é pior que tínhamos, mas é melhor do que todos prevíamos”, aponta. Paulo Gonçalves lembra que este é mais um passo na normalização do comércio internacional, mas “agora é importante ver que outros acordos são concluídos com outros players“, nomeadamente com a China.

Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, diz que “haver uma previsibilidade já é bastante bom. Há bastantes meses que estávamos nesta incerteza e isso traz muito distúrbio e quebra de encomendas“. O representante do setor dos vinhos, que vende 102 milhões de euros para os EUA, com uma quota de exportação de 10,58%, ainda está confiante que o setor consiga fugir às tarifas. “O que gostaríamos era ter taxa 0% em vinhos”, afirma, mostrando-se confiante que o vinho ainda seja incluído na lista de produtos que vão ser excluídos das tarifas.

Não conseguindo, os 15% podem ser perigosos porque com 15%, as margens levam a aumentos superiores a 20%, porque o mercado americano está organizado em três níveis: exportador, distribuidor e retalhista e todos levam a sua margem. O consumidor vai ter um aumento superior a 20%. É um aumento grande”, alerta.

Segundo o presidente da ViniPortugal, “um impacto de 10% levou a quebras de 12% nas vendas na Europa e mais de 9% em Portugal. Passando as taxas de 10 para 15%, vamos perder se calhar 20% do mercado“, calcula. Até agora, as empresas do setor têm lidado com as tarifas de três formas: “algumas adiantaram vendas de seis meses, outras absorveram 10% e outras 5%”. “Reduzir ou baixar os preços para 15% dificilmente as empresas portuguesas conseguem. O impacto de 15% vai ser muito maior do que os 10%“, atira.

“A principal virtude do acordo alcançado reside na previsibilidade que devolve à economia internacional, após um período marcado por incerteza tarifária associada a uma política comercial errática protagonizada pelo atual executivo norte-americano, liderado pelo Presidente Trump, que vinha a comprometer seriamente o ambiente de confiança para o investimento e para as exportações europeias”, comenta Aurélio Caldeira, diretor-geral da ANIMEE, a associação que representa empresas do setor elétrico e eletrónico.

À luz do que este executivo norte-americano nos habituou nos últimos meses, este acordo deve ser lido como um cessar-fogo económico, e não como um tratado de paz duradouro. No entanto, a previsibilidade que proporciona é valiosa.

Aurélio Caldeira

Diretor-geral da ANIMEE

O responsável destaca que “à luz do que este executivo norte-americano nos habituou nos últimos meses, este acordo deve ser lido como um cessar-fogo económico, e não como um tratado de paz duradouro. No entanto, a previsibilidade que proporciona é valiosa”.

É um mau acordo, mas é o possível, porque a Europa não estava em condições de suportar uma guerra comercial com os EUA”, atira Mário Machado, presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, à RTP3. Com exportações de 500 milhões de euros para os EUA, o equivalente a 10% das exportações do têxtil e vestuário, os EUA são atualmente o quarto maior mercado do setor têxtil. Num momento em que o setor enfrenta crescente concorrência sobretudo da China, as tarifas nos EUA vêm aumentar a lista de desafios que o setor enfrenta.

No automóvel, a AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, também destaca que o acordo, no mínimo, “traz estabilidade ao comércio”. “Contudo havendo ainda incerteza quanto ao texto final a Indústria de Componentes Europeia está preocupada quanto há aplicabilidade, em virtude de não ser conhecido se os fornecedores de componentes automóveis estão englobados nas tarifas, previstas na Secção 232, isto é, se os componentes e peças automóveis estão incluídas”, explica. “Se se verificar a exclusão poderá verificar-se tarifas mais elevadas para os fornecedores de componentes automóveis do que para os construtores de automóveis (OEM)”, alerta a AFIA.

Sobre a aplicação de um teto tarifário único e abrangente de 15% para setores-chave, como automóveis, semicondutores e outros, a associação diz que este cenário “oferece a clareza necessária para o planeamento industrial a longo prazo“.

Ramiro Brito, presidente da Associação Empresarial do Minho, critica “cedência da Europa aos devaneios” de Trump.Nuno Sampaio

Ramiro Brito, presidente da AEMinho também faz uma leitura negativa do pacto com os EUA: “Este acordo não me parece ser um bom sinal a médio/longo prazo. Ele acaba por ser a cedência da Europa aos devaneios de um líder da maior potência do mundo que não tem visão estratégica de cooperação”.

Para o representante dos patrões do Minho, com o acordo “ganham os setores da defesa norte americanos, ganha a economia americana a curto prazo, a médio logo veremos. Do nosso lado ninguém ganha, alguns perdem menos, que é uma perspetiva diferente”. “As tarifas de 30 passam a 15 (os 30 eram claramente bluff para ganhar posição negocial), há setores que não serão tarifados mas que acabarão por ser também afetados pela conjuntura. Não vejo nenhuma perspetiva positiva”, remata.

Para José Eduardo Carvalho, presidente da AIP, “a tarifa acordada agora de 15% é sempre positiva face aos 30% anunciados por Trump recentemente. Mas é pior do que a tarifa zero almejada pela União Europeia (EU) – a EU propôs uma reciprocidade “zero por zero” para um regime não tarifário sobre mercadorias e, inclusive, ofereceu-se para comprar energia, tecnologia e produtos agrícolas dos EUA para pôr fim à guerra comercial lançada pelos EUA em meados de março”.

O mesmo responsável acrescenta que, para já, é cedo para tirar conclusões sobre o real impacto das tarifas para os vários setores. Quanto a investimentos no país, diz que “algumas empresas com maior exposição ao mercado norte-americano estão a considerar estratégias de investimento direto nos EUA como forma de contornar as barreiras tarifárias, embora estas decisões exijam uma análise cuidadosa e ponderada”.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Empresários conformados com acordo “possível” nas tarifas. 15% são “geríveis” e melhor que 30%

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião