Vinhos e espirituosas ainda acreditam num acordo para baixar tarifas dos EUA. Mercosul é “urgente”
Associações empresariais ainda têm fé de que “a médio prazo” Bruxelas consiga negociar com a Casa Branca e pedem “urgente” ratificação do acordo com a Mercosul para compensar eventuais quebras.
Desapontadas e apreensivas. É como estão as empresas de vinhos e bebidas espirituosas por terem ficado de fora das isenções das tarifas no acordo entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos. Apesar de ainda não darem a batalha como perdida, neste momento a fé da indústria das bebidas alcoólicas em Portugal é o acordo com a Mercosul e a “economia da saudade”, que leva os emigrantes na Europa a comprarem mais ginjinha e aguardente.
“Estamos desapontados com o facto de o vinho não constar da lista do zero for zero. Em todo o caso, temos esperança e estamos na expectativa de que, pelo menos a médio prazo, o vinho possa vir a ter um regime mais favorável”, disse ao ECO a diretora-geral da Associação de Vinhos e Espirituosas de PortugaL (ACIBEV), Ana Isabel Alves.
O secretário-geral da Associação Nacional de Empresas de Bebidas Espirituosas (ANEBE) diz que “o impacto nas bebidas espirituosas europeias é brutal”, embora em Portugal seja mais “diminuto” pelos baixos níveis de exportação, sobretudo para os Estados Unidos. Mais importante é a “economia da saudade” que leva a diáspora europeia a comprar mais ginjinha, aguardente ou brandy.
“Estávamos a aguardar com muita esperança e fizemos os nossos esforços ao nível europeu. Pedimos o zero-zero desde que se iniciou esta loucura das tarifas”, garante João Vargas, que também é vice-presidente da Comissão de Assuntos Económicos e Fiscais da Spirits Europe, uma associação comercial com sede em Bruxelas que representa os interesses dos produtores de bebidas espirituosas a nível da UE.
“A Comissão Europeia é que cria esta instabilidade”
O líder da ANABE e representante nacional da Spirits Europe explica que o trabalho desenvolvido em Bruxelas serve para evitar “o receio” que se vive constantemente no setor. “Em 2017, também com a administração Trump, o setor das bebidas espirituosas foi logo um dos visados como contramedida. A Comissão Europeia é que também cria esta instabilidade, porque normalmente coloca o whiskey bourbon dos americanos nas contramedidas”, recorda João Vargas.
“The door is not closed” (“A porta ainda não está fechada”) foi uma das frases que a ACIBEV captou da conferência de imprensa do comissário europeu Maroš Šefčovič e deu azo a alguma esperança. “Disse que as negociações ainda vão continuar, que o vinho é muito importante para os interesses da UE e que está dentro das prioridades a par com as bebidas espirituosas, aço e alumínio”, recorda Ana Isabel Alves. O secretário-geral da ANEBE e membro da Spirits Europe tem a mesma visão: “Ainda não perdemos a esperança”.
Em 2024, as exportações de vinhos portugueses cresceram 4,5% para 965,8 milhões de euros, mas o preço médio por litro baixou 3,88% para 2,78 euros. França foi o principal mercado de destino (mantendo-se estável em relação ao ano anterior com 103,4 milhões de euros) e logo a seguir os Estados Unidos, para onde as vendas aumentaram 2% para 102,1 milhões de euros.
No entanto, a representante das empresas de bebidas alcoólicas alerta que as exportações de vinho para os Estados Unidos estão a diminuir, devido ao ambiente de imprevisibilidade que se viveu este ano e travou negócios, e o próprio consumo interno dos norte-americanos também. Dois fatores que, a juntar à desvalorização do dólar, trazem “algum medo e apreensão”.
“Os importadores não quiseram [nos últimos meses] arriscar, porque entre o vinho sair de Portugal e chegar aos Estados Unidos são, em média, três semanas. Em cima disso, o dólar desvalorizou 15%. Há ainda outro fator, que não tem sido muito falado, mas está documentado: houve uma diminuição do consumo do vinho nos Estados Unidos na ordem dos 6%. Este conjunto faz-nos ter algum medo e apreensão”, explica a diretora-geral da ACIBEV.
Fé na Mercosul para “equilibrar” e compensar quebras nos EUA
É mais abaixo no mapa, na América Latina, que está a esperança das empresas para os próximos tempos. A ratificação do acordo com os países do Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – vai ser “muito importante” para os vinhos e poderá compensar as eventuais quebras no mercado norte-americano, defende a diretora-geral da ACIBEV.
“É um objetivo ao mesmo nível que os EUA e absolutamente urgente para o vinho, inclusive português. Vamos ressentir-nos destes problemas com os Estados Unidos, quer com a diminuição do consumo quer com a hipótese de outros países (como a Argentina, Chile ou Austrália por terem tarifas a 10%) ganharem quota de mercado, portanto é fundamental abrirmos o mercado do Mercosul”, argumenta Ana Isabel Alves. O desfecho ideal seria as condições do vinho português serem as mesmas do que para o Chile.
Já o secretário-geral da ANEBE prepara-se mesmo para fazer as malas e rumar ao Brasil em missão com a Comissão Europeia para promover a indústria no âmbito do Mercosul. João Vargas vai acompanhar o comissário europeu da Agricultura, Christophe Hansen, e lutar para que as empresas de espirituosas cresçam naquele mercado. Ao ECO, afirma que vê o acordo com o Mercosul como um mecanismo para “equilibrar” os efeitos nefastos das tarifas dos EUA.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Vinhos e espirituosas ainda acreditam num acordo para baixar tarifas dos EUA. Mercosul é “urgente”
{{ noCommentsLabel }}