Benfica quer menos ações na bolsa para valorizar acionistas e blindar a SAD
Benfica SAD planeia recomprar até 10% das ações em 18 meses com excessos de liquidez da operação, reforçando assim a estratégia de valor para os acionistas e proteção contra potenciais ofertas hostis.
A Benfica SAD anunciou na terça-feira um plano para recomprar até 10% das suas próprias ações num horizonte de 18 meses, numa jogada estratégica que visa maximizar o retorno para os acionistas, segundo Nuno Catarino, CFO da SAD encarnada, em declarações aos jornalistas na apresentação dos resultados financeiros da última época, na terça-feira.
A decisão, que será colocada para aprovação aos acionistas da SAD em assembleia-geral a 2 de outubro, surge num contexto favorável, com a SAD encarnada a apresentar o quarto melhor resultado da sua história — um lucro de 34,4 milhões de euros na época 2024/25 — e quebrar um jejum operacional de sete anos.
As ações da Benfica SAD responderam de imediato esta quarta-feira aos resultados, mas particularmente ao anúncio do programa de recompra de ações, disparando 17% em bolsa para os 7 euros. Esta valorização acentua uma tendência que já se desenha desde maio, quando a entrada do fundo americano Lenore Sports Partners no capital fez disparar o interesse dos investidores.
Nós cumprimos os critérios de solidez financeira necessários para ter um plano de compra de ações próprias, e perspetivamos no horizonte períodos com algum excesso de liquidez que nos permite ser ativos a nível do mercado.
Na terça-feira, quando as ações negociavam nos 5,62 euros, o administrador da Benfica SAD notou que a cotação não refletia o real valor do clube, pelo que, “como forma de também remunerar os acionistas, estamos dispostos a fazer operações de mercado para comprar ações próprias no limite daquilo que é o que a lei permite, que é um programa a 18 meses, que é o máximo possível, e até 10% do capital da própria SAD”.
Mas quando questionado sobre se o preço de 7,07 euros a que os americanos da Lenore Sports Partners (LSP) pagaram em maio para adquirir 753 mil ações (representativas de 3,28% do capital da Benfica SAD) que estavam penhoradas pelo Novobanco a Luís Filipe Vieira, Nuno Catarino não faz qualquer juízo de avaliação. Diz apenas que isso “depende da perspetiva da compra e do tipo de investidor que estamos a falar. Para alguns faz mais sentido do que para outros” pagar esse preço.
“Um acionista que tem 65% não tem que andar a comprar ações por valores muito superiores àquilo que está no mercado, enquanto um acionista que tem 2% e quer chegar a 5% ou quer chegar a 10% tem de fazer um esforço maior. Daí vem a questão do custo oportunidade”, diz.
Sobre o desígnio do plano de recompra de ações, Nuno Catarino justifica essa decisão como uma estratégia para melhorar o retorno de excessos de liquidez da operação. “Nós cumprimos os critérios de solidez financeira necessários para ter um plano de compra de ações próprias, e perspetivamos no horizonte períodos com algum excesso de liquidez que nos permite ser ativos a nível do mercado”. No entanto, há mais razões e condicionantes provocados por um programa de recompra de ações.
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Retorno de capital aos acionistas
A primeira grande razão de uma empresa avançar com um programa de recompra de ações próprias prende-se com a devolução de capital aos acionistas de forma eficiente. Com excedentes de liquidez identificados e poucas oportunidades de investimento que ofereçam retornos superiores ao custo de capital, a recompra de ações apresenta-se como uma alternativa mais atrativa que o pagamento de dividendos. Esta opção permite à empresa devolver valor aos acionistas sem criar expectativas recorrentes de pagamento, oferecendo maior flexibilidade na gestão financeira futura.
É também uma alternativa fiscalmente mais eficiente aos dividendos tradicionais para os pequenos investidores, especialmente para aqueles que tenham uma estratégia de investimento de longo prazo. Ao reduzir o número de ações em circulação, cada ação remanescente representa uma maior participação nos lucros futuros da empresa.
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Defesa contra ofertas hostis
O segundo aspeto estratégico relaciona-se com a proteção da estrutura acionista atual. Ao reduzir o free float (que já é bastante baixo) através da recompra de ações, a SAD encarnada consolida efetivamente o controlo do clube-mãe, que detém atualmente 63,66% do capital. Esta medida ganha particular relevância num contexto em que investidores estrangeiros, como a Lenore Sports Partners de Jean-Marc Chapus e Elliot Hayes, têm mostrado interesse crescente na sociedade, já detendo mais de 5% do capital.
A entrada destes novos acionistas, que são o terceiro maior acionista da SAD, pode ter influenciado a decisão de implementar um mecanismo defensivo que dificulta qualquer tentativa de aquisição hostil ou mudança no controlo da empresa. Contudo, Nuno Catarino, questionado sobre a possibilidade de o clube aumentar a sua participação na SAD, refere que não recebeu qualquer indicação do clube (que é o maior acionista da SAD) que aponte nessa direção. “Acho que estão confortáveis com a sua posição. Até que estatutariamente querem manter o controlo”.
Além disso, também refere que este programa não tem a intenção de retirar a SAD de bolsa, sendo esta uma diferença fundamental relativamente a outros programas de recompra: “Gostamos de ser uma sociedade cotada, gostamos do exercício que isso nos obriga”. Esta posição reforça que o programa visa a otimização da estrutura de capital e não uma eventual privatização.
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Flexibilidade comparada aos dividendos
A terceira vantagem estratégica reside na flexibilidade que os programas de recompra oferecem comparativamente à distribuição de dividendos, que a Benfica SAD nunca fez. Ao contrário dos dividendos, que criam expectativas de pagamento regular e comprometem fluxos de caixa futuros, as recompras de ações são discricionárias e podem ser ajustadas conforme as necessidades financeiras da empresa.
Esta flexibilidade é particularmente valiosa para uma SAD como a do Benfica, cujos resultados são naturalmente voláteis e dependem de fatores como performance desportiva, vendas de jogadores e participações em competições europeias.
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