BCE prepara-se para manter pé no travão e não mexer nas taxas de juro

O Banco Central Europeu deverá voltar a congelar as taxas de juro, mas a aparente calma pode ruir com a crise política em França e com a Fed a preparar-se para se mexer no tabuleiro global.

O Banco Central Europeu (BCE) encontra-se numa posição aparentemente confortável, mas essa tranquilidade pode ser mais frágil do que parece. Com 66 dos 69 economistas consultados pela Reuters num inquérito realizado há poucos dias a preverem que as taxas de juro se mantenham inalteradas nos 2% na reunião desta quinta-feira, a instituição liderada por Christine Lagarde parece decidida a fazer mais uma pausa no ciclo de cortes que iniciou em junho de 2024.

No entanto, por detrás deste consenso aparente esconde-se um debate interno mais aceso do que os mercados antecipam, numa altura em que França enfrenta nova turbulência política e os riscos económicos globais persistem.

Os últimos meses foram marcados por uma mudança significativa de sentimento entre os economistas. Se em julho quase 60% esperavam um novo corte de 25 pontos base nas taxas de juro, agora a esmagadora maioria prevê que o BCE permaneça em modo de espera.

Nem todos no Conselho do BCE partilham este otimismo. As atas da reunião de julho revelaram que alguns membros — descritos como o grupo “dovish” — manifestaram preocupações sobre um possível incumprimento da meta inflacionista por defeito.

Este movimento deve-se sobretudo ao acordo comercial entre os EUA e a União Europeia, alcançado no final de julho, que atenuou os receios de uma escalada tarifária, como refere Tuan Huynh, estratega-chefe de investimentos para a Alemanha, Áustria, Suíça e Europa de Leste do BlackRock Investment Institute, citado pela Morningstar.

Carsten Brzeski, diretor global de macro do ING, reconhece esta nova realidade, mas mantém reservas. “O BCE atualmente não parece disposto a deixar o seu ‘bom lugar’, embora um corte das taxas mais tarde este ano ainda não deva ser totalmente descartado”, refere o analista numa nota publicada no site do banco neerlandês a 3 de setembro.

O analista do ING identifica vários fatores que reforçaram a posição dos defensores da manutenção das taxas, como a postura “de esperar para ver”, o facto de o acordo comercial entre os EUA e a União Europeia “poder ter sido pior”, e ainda “uma leitura decente do crescimento do PIB do segundo trimestre e indicadores de sentimento empresarial melhores do que o esperado.”

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A inflação na Zona Euro situou-se em 2,1% em agosto, ligeiramente acima da meta de 2% do BCE, mas ainda dentro de um intervalo considerado aceitável. Simultaneamente, o desemprego mantém-se em mínimos históricos e a economia demonstra sinais de resiliência que surpreenderam positivamente.

Contudo, nem todos no Conselho do BCE partilham este otimismo. As atas da reunião de julho revelaram que alguns membros — descritos como o grupo “dovish” — manifestaram preocupações sobre um possível incumprimento da meta inflacionista por defeito. Esta corrente, liderada por figuras como Olli Rehn, governador do Banco da Finlândia, mantém-se atenta aos riscos deflacionistas.

Carsten Brzeski sublinha que “existem várias boas razões para estas preocupações”, destacando três fatores fundamentais:

  • uma crescente consciencialização entre os decisores políticos da Zona Euro em geral de que o acordo-quadro comercial entre os EUA e a União Europeia está longe de estar gravado em pedra;
  • o facto de as novas ronda de projeções do BCE trazerem “uma ligeira revisão em baixa da inflação e do crescimento para 2026″;
  • e ainda que o início de uma série agressiva de cortes das taxas de juro por parte da Reserva Federal norte-americana (Fed) “possa levar a um maior fortalecimento do euro e, portanto, aos riscos de uma inflação abaixo da meta”.

Michael Krautzberger, diretor de investimento global de mercados públicos da Allianz Global Investors, oferece uma perspetiva mais equilibrada. “O nosso cenário aponta para um período prolongado de taxas de juro estáveis na Zona Euro. Ainda assim, a curto prazo, é mais provável um corte do que um aumento”, refere o especialista numa nota enviada aos clientes da sociedade gestora alemã.

O analista da Allianz destaca que, apesar do acordo comercial EUA-União Europeia ter reduzido a incerteza, “o seu efeito sobre a procura de exportações europeias e o desvio de comércio (especialmente para parceiros mais expostos, como a China) mantém-se incerto”.

França como fator de risco adicional

A reunião desta quinta-feira ocorre numa altura particularmente sensível para França, após a queda do governo na segunda-feira, no seguimento do chumbo de uma moção de confiança ao governo de François Bayrou no Parlamento, nesse mesmo dia.

Esta situação acrescenta um elemento de instabilidade que pode influenciar as decisões do BCE, não tanto ao nível das taxas de juro, mas relativamente a eventuais intervenções no mercado obrigacionista, dado que as últimas semanas têm sido marcadas por uma subida generalizada das yields das obrigações francesas para níveis que já não se viam há muito tempo.

Carsten Brzeski antecipa que “a conferência de imprensa do BCE pode ser mais delicada do que o habitual, pois a presidente Christine Lagarde precisa de evitar repetir o seu erro de 2020 de lançar dúvidas sobre as suas ambições de ‘fazer o que for preciso’, ao mesmo tempo que enfatiza que o apoio do BCE não pode ser tido como garantido”.

O analista do ING refere que Lagarde terá de sublinhar que o Instrumento de Proteção da Transmissão (TPI) “só pode ser ativado para países que efetivamente cumpram as regras fiscais europeias ou que pelo menos sigam os caminhos de ajustamento dados – uma condição que França atualmente não cumpre”.

Embora a decisão desta quinta-feira pareça clara, as perspetivas para o resto do ano permanecem incertas. Os mercados de swaps implicam uma taxa de depósitos de cerca de 1,8% para dezembro.

Os investidores e analistas estarão também particularmente atentos à publicação das novas projeções macroeconómicas do BCE esta quinta-feira, com o mercado a antecipar um ligeiro otimismo dos dados. Michael Krautzberger espera inclusive “uma ligeira revisão em alta nas previsões de crescimento a curto prazo, refletindo dados do primeiro semestre que são melhores do que o esperado e a recente resiliência do sentimento económico”.

No plano da inflação, a Allianz Global Investors prevê que o BCE eleve em 0,1 pontos percentuais a sua previsão de inflação geral para 2026, para 1,7%, mantendo inalteradas as previsões para 2027 (2%). Esta ligeira revisão em alta resulta de fatores como os preços do petróleo para 2026 e 2027 estarem 3% a 5% acima do previsto, compensados parcialmente pela apreciação do euro de 3% desde junho, refere Michael Krautzberger numa nota enviada aos clientes da sociedade gestora.

Embora a decisão desta quinta-feira pareça clara, as perspetivas para o resto do ano permanecem incertas. Os mercados de swaps implicam uma taxa de depósitos de cerca de 1,8% para dezembro, sugerindo elevada probabilidade de um corte até final do ano. Contudo, os economistas estão divididos: 40 dos 69 consultados pela Reuters preveem que as taxas se mantenham inalteradas durante o resto do ano.

Claus Vistesen, economista-chefe para a Zona Euro da Pantheon Macroeconomics, é categórico, afirmando que “o BCE terminou agora e vai simplesmente ficar aqui durante algum tempo… simplesmente não há pressão para aliviar neste momento”. Por outro lado, Julie Ioffe, economista para o mercado europeu e estratega macro da TD Securities, mantém-se otimista sobre as perspetivas regionais, notando que “não há atualmente algo importante a pairar sobre a cabeça da Europa que a possa derrubar”, sublinhando ainda que “a região tem realmente uma boa oportunidade de continuar a crescer até 2026 e além”.

A reunião desta quinta-feira promete, assim, confirmar a pausa nas taxas, mas as palavras de Christine Lagarde na conferência de imprensa serão escrutinadas ao pormenor, procurando sinais sobre a direção futura da política monetária numa altura

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