Renováveis tombaram em bolsa, mas estão a fazer ‘reset’ e podem ter “valorização sustentada”
Analistas creem que o pior já passou e esperam uma "valorização sustentada" do setor das renováveis, que pode mesmo tornar-se "um dos setores de maior crescimento em bolsa até 2030".
As empresas do setor das energias renováveis têm vindo a desvalorizar em bolsa desde 2021. Esta tendência parece estar a inverter-se este ano, e os analistas ouvidos pelo ECO/Capital Verde apontam boas perspetivas para o futuro.
“O desempenho tende a ser positivo, embora com alguma volatilidade no curto prazo, sobretudo devido à política energética da administração Trump“, sumariza Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, quando questionado sobre a evolução que espera para o setor renovável em bolsa. O mesmo deteta que, sob a atual administração norte-americana, os critérios ESG têm vindo a perder terreno, em particular nos mercados norte-americanos, contribuindo para alguma cautela dos investidores.
“No entanto, a cinco anos, as perspetivas continuam a ser de valorização sustentada, suportadas pela forte expansão global da capacidade instalada em energias renováveis, pela redução contínua dos custos tecnológicos e pelas metas vinculativas da União Europeia”, prevê o economista sénior do Banco Carregosa. Rosa acredita que “as energias renováveis deverão consolidar-se como um dos setores de maior crescimento em bolsa até 2030“.
“É expectável que a aposta aumente ao longo dos anos, uma vez que as fontes de energia fósseis são limitadas”, corrobora Henrique Tomé, analista na XTB.
Thomas Dowling Næss, analista da SB1 Markets, assinala, com base no índice Virtue (constituído por empresas do setor como a Orsted, Vestas, Powercell e Climeon) que, depois de uma ascensão a pique até 2020, as empresas de renováveis têm feito o caminho inverso em bolsa, no sentido descendente. “Penso que é justo dizer que vivemos uma bolha completamente normal“, afirmou, num webinar, dia 9 de setembro, a propósito da semana da Sustentabilidade, organizada pela Euronext. “O reset já começou”, considera.
Desde o início de 2025 até ao momento, o S&P Clean Energy Index está a subir mais de 30%, sendo que no acumulado dos últimos três anos desvalorizou quase 12%. “As renováveis estão a ter desempenhos um pouco acima do mercado, no geral, a nível global“, observa.
Renováveis ligeiramente acima do geral do mercado em 2025

Por cá, a EDP Renováveis confirma a tendência. Se desde 2021 tem terminado o ano em terreno negativo, com o expoente dessa descida a verificar-se no final do ano passado, quando contabilizou uma quebra anual de 46%, este ano e até ao momento apresenta, pela primeira vez desde 2020, uma valorização, apesar de muito ligeira: 1,5%. Em 2020 o salto havia sido de 117%, acumulando com subidas sempre na ordem dos dois dígitos, nos três anos anteriores.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
Dowling Næss, da SB1 assinala que anteriormente o número de cotadas de renováveis era muito limitado enquanto a vontade de investir era elevada, o que terá feito levantar os preços. A isto seguiu-se a entrada no mercado de novas empresas do setor, assim como aumentos de capital por aquelas que já estavam cotadas. “E acabámos com demasiadas“, avalia. Hoje, acredita, a situação está normalizada.
Olhando aos últimos 10 anos, Paulo Rosa afirma que os altos e baixos das renováveis estão ligados ao preço dos hidrocarbonetos, sobretudo do petróleo e às políticas ambientais. “Sempre que o petróleo sobe, a competitividade relativa das renováveis aumenta e as cotações acompanham“, observa. No entanto, quando há excesso de oferta e os preços do crude caem, a pressão sobre a energia solar, hídrica e eólica é maior.
Financiamento e licenciamento assombram
Como riscos para a futura evolução do setor, Paulo Rosa aponta o custo do financiamento, atrasos nos licenciamentos e a pressões nas cadeias de abastecimento. Para Henrique Tomé, a evolução está também muito dependente da inovação do setor, já que “a eficiência das renováveis tem levantado alguns entraves à sua utilização mais geral”.

Em paralelo, o facto de outras economias não estarem a assumir o mesmo compromisso que a Europa no que diz respeito as renováveis “poderá estar a contribuir para estes momentos de maior volatilidade que vemos no mercado”, acrescenta o analista da XTB.
Bolha como a das dotcom? Há diferenças relevantes
Thomas Dowling Næss aponta que as flutuações que o setor das renováveis protagonizou nos últimos anos tem semelhanças, em termos das oscilações verificadas — a subida a pique, seguida de uma quebra —, com a conhecida bolha das dotcom, que marcou os anos 2000: o setor tecnológico disparou, antes de afundar com estrondo.
Contudo, a XTB considera que a evolução do setor das renováveis em bolsa não é semelhante à das dotcom, uma vez que as avaliações atuais das empresas de energias renováveis “não se comparam ao que se observou na bolha das dotcom“. “No caso das renováveis, as avaliações são relativamente contidas, sobretudo quando colocadas lado a lado com as de algumas empresas tecnológicas“, remata Henrique Tomé.
Paulo Rosa reconhece semelhanças entre os movimentos bolsistas das renováveis e o das dotcom, mas também não considera as duas realidades comparáveis. Ambos os setores correspondem a necessidades estruturais da sociedade, contudo, as dotcom assentavam em modelos intangíveis e de baixo custo marginal, e muitas empresas “não tinham modelos de negócio viáveis nem receitas satisfatórias”.
Já as renováveis baseiam-se em ativos físicos, como parques solares e eólicos, os quais exigem investimentos elevados e um grande consumo de matérias-primas. “Isso torna o setor mais tangível e gera cashflows bem visíveis“, nota Paulo Rosa, embora também exponha o setor a riscos de custos crescentes e de escassez de recursos. “Assim, pode haver correções de valorização, mas não se trata, para já, de uma bolha semelhante à das dotcom“, conclui.
Lucro e tecnologias separam as cotadas
Existem, ainda, diferenças relevantes dentro do próprio setor. A energia solar fotovoltaica tem liderado em valorização, beneficiando da rápida queda dos custos de instalação, dos preços dos painéis e inversores e da forte procura global, salienta o economista do Banco Carregosa.
A energia eólica também apresenta bom desempenho, mas enfrenta maiores desafios regulatórios e de licenciamento, o que se reflete em maior volatilidade. Em paralelo, empresas verticalmente integradas ou com contratos de longo prazo têm mostrado um comportamento mais consistente face a players mais pequenos e expostos apenas ao mercado spot, observa a mesma casa de investimento.

Henrique Tomé destaca dois casos antagónicos: a Constellation Energy Corporation, que este ano está a valorizar mais de 40%, enquanto as ações da Fluence Energy já afundaram cerca de 50%. A Constellation Energy produz energia nuclear, hídrica, eólica e solar e afirma que a sua geração pesa 10% no volume de energia limpa que circula na rede elétrica dos Estados Unidos. A Fluence Energy está focada em fornecer equipamentos de armazenamento.
“O desempenho distinto das ações da Constellation Energy Corporation (CEG) e da Fluence Energy, Inc. (FLNC) pode ser atribuído a diferenças fundamentais nos seus modelos de negócio, estratégias de crescimento e perceções do mercado“, justifica.
Para Thomas Dowling , outro fator de distinção dentro do setor das renováveis é a capacidade de gerar lucro: aquelas que a têm mostram subidas, ainda que moderadas, enquanto as que não estão a conseguir lucrar apresentam quebras de até 75%. “O lucro é o critério de seleção número um“, entende o analista da SB1, afirmando que o retorno sobre o investimento é o que tem guiado os investidores nas suas opções quanto ao setor, inclusivamente aqueles com mandatos ESG.
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