Crise nos bancos regionais dos EUA contagia bolsas mundiais
O medo de novas falências bancárias nos EUA fez tremer os mercados globais esta manhã, arrastando o setor financeiro europeu para fortes quedas e revivendo memórias do colapso de 2023.
O receio em torno da qualidade do crédito nos bancos regionais norte-americanos espalhou-se como um rastilho pelos mercados financeiros de todo o mundo esta sexta-feira, arrastando o setor bancário para perdas acentuadas e revivendo memórias da crise de confiança que abalou o sistema há pouco mais de dois anos com a falência do Silicon Valley Bank.
O índice pan-europeu Stoxx 600 Europe chegou a cair 1,9% durante a manhã sob forte pressão do setor financeiro, que recuou mais de 3,3%. Em Portugal, o BCP negociou com uma queda de 3,26% durante a sessão matinal, com as ações a transacionarem nos 73,68 cêntimos. Na Europa, os principais bancos foram severamente penalizados, com destaque para as quedas de 7,4% do Deutsche Bank, 6,8% do Barclays e 5,9% do Société Générale recuou 4,6%.
O pânico que contagiou a Europa arrancou do outro lado do Atlântico, à boleia de uma queda de 6,3% do índice KBW Regional Banking dos EUA na quinta-feira – a maior descida diária em seis meses. O Zions Bancorp desvalorizou 13% e o Western Alliance perdeu cerca de 11%. A vaga vendedora estendeu-se também à Ásia, onde bancos e seguradoras japonesas registaram quedas significativas.
Na origem desta turbulência estiveram revelações feitas pelos bancos regionais norte-americanos Zions Bancorp e Western Alliance Bancorp:
- O Zions Bancorp, que conta com 70 anos de existência, anunciou que iria registar uma imparidade de 50 milhões de dólares no terceiro trimestre relacionada com dois empréstimos comerciais e industriais concedidos pela sua divisão na Califórnia.
- O Western Alliance Bancorp, que conta com ativos superiores a 85 mil milhões de dólares, revelou ter movido uma ação judicial contra um cliente, alegando fraude por não ter fornecido garantias sobre empréstimos.
Embora isoladamente estas perdas não sejam de grande dimensão, o contexto em que surgiram amplificou dramaticamente o seu impacto. As revelações surgiram apenas dias depois das falências de duas empresas ligadas ao setor automóvel nos EUA: a First Brands Group, um fabricante de peças automóveis que devia mais de 10 mil milhões de dólares, e a Tricolor Holdings, um credor subprime de automóveis que entrou em colapso em meio a alegações de fraude.
O colapso dos bancos regionais norte-americanos First Brands Group e Tricolor Holdings levantou questões profundas sobre os padrões de concessão de crédito num mercado de empréstimos alavancados de 2 biliões de dólares.
O caso da First Brands é particularmente preocupante, porque a empresa cresceu rapidamente por aquisições financiadas por uma combinação complexa de dívida privada, financiamento bancário sindicado e outros arranjos não convencionais.
Quando a empresa entrou em falência no final de setembro, os investidores descobriram que mais de 80 CLO (collateralized loan obligations – veículos de investimento que compram fatias de centenas de empréstimos corporativos individuais) detinham exposição aos seus empréstimos, incluindo veículos geridos por gestores de ativos como PGIM, Franklin Templeton, Blackstone, CIFC, Oaktree e Wellington. Os empréstimos passaram a ser transacionados a cêntimos por dólar, com perdas implícitas superiores a 4 mil milhões de dólares.
A Tricolor, por sua vez, operava como credor subprime e retalhista de automóveis usados, oferecendo financiamento direto a clientes com crédito baixo ou sem histórico de crédito. O alegado esquema envolvia o chamado “double pledging“ – usar as mesmas carteiras de empréstimos automóveis como garantia para linhas de crédito separadas com diferentes bancos, sem que estes soubessem que outros credores tinham reivindicações sobre os mesmos ativos.
O colapso destes casos levantou questões profundas sobre os padrões de concessão de crédito num mercado de empréstimos alavancados de 2 biliões de dólares que cresceu rapidamente nos últimos anos.
Primeiro um susto e depois a normalidade
À medida que o dia foi avançando, o sentimento nos mercados começou a melhorar e os investidores recuperaram o apetite pelo risco. O índice Stoxx 600 Europe reduziu substancialmente as perdas iniciais, encontrando-se ainda a negociar com perdas, mas com uma desvalorização inferior a 1%.
Em Portugal, depois do susto que atirou o BCP para uma queda de 3,26%, os títulos negoceiam atualmente com uma perda de 1,8%, com os títulos a transacionarem perto da barreira dos 75 cêntimos.
Alguns especialistas consideram que as preocupações em torno dos bancos regionais americanos estão longe de serem sinais de algo mais sistémico. “Vemos as perdas como idiossincráticas e os credores terão de apertar os processos, mas não há evidências de que isto seja algo mais”, afirmou Nick Brind, gestor de fundos da Polar Capital Global Financials Trust, citado pela Bloomberg.
“Os bancos regionais hoje permanecem bem reservados para potenciais perdas, e aumentaram os níveis de capital desde 2023”, referiu ainda Jon Arfstrom, analista da RBC Capital Markets.
Após a forte reação inicial, os índices acionistas reduziram as perdas, demonstrando uma estabilização do sentimento. Contudo, o acompanhamento das situações nos bancos regionais dos EUA e nas carteiras de crédito continuará no centro das atenções dos investidores durante a sessão desta sexta-feira e seguintes.
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