Há 2,3 mil milhões de euros a separar o Governo e o Conselho das Finanças Públicas. Do que resultam?

Mais de dois terços da diferença resulta da previsão da despesa pública, que o CFP considera que as Finanças subestimam, com o restante a refletir a receita esperada pelo Governo.

O saldo orçamental previsto pelo Governo e pelo Conselho das Finanças Públicas (CFP), para 2026, apresenta uma diferença de 2.300 milhões de euros, que resulta sobretudo da despesa pública, com a instituição liderada por Nazaré da Costa Cabral a apontar para uma subestimação desta rubrica pelo Governo.

O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, vai esta sexta-feira ao Parlamento, para a audição que marca o arranque do debate sobre o Orçamento do Estado para 2026 (OE2026), e o cenário que vai apresentar para as contas públicas é muito mais otimista do que aquele que o CFP traça no seu parecer à proposta orçamental divulgado esta quinta-feira.

Primeiro, o Governo parte desde logo de um ponto de partida mais favorável do que o previsto pela instituição que segue as finanças públicas. O Ministério das Finanças espera um excedente orçamental de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, enquanto o CFP aponta para um saldo de 0,1%, um diferença explicada essencialmente pelo facto de o Terreiro do Paço estimar um montante de despesa pública inferior em quase mil milhões de euros ao esperado pela entidade liderada por Nazaré da Costa Cabral.

A análise evidencia uma potencial subestimação pelo Ministério das Finanças da despesa para o segundo semestre de 2025, uma leitura que é reforçada pela incoerência dos crescimentos projetados face à execução conhecida do ano“, pode ler-se na análise do CFP.

Partindo da expetativa desta subestimação em 2025, o CFP mostra-se crente que aumenta a probabilidade das previsões de encargos do próximo ano se revelarem igualmente suborçamentados.

Para 2026, o Ministério das Finanças prevê um excedente orçamental de 0,1% do PIB contra o défice de 0,6% do PIB projetado pelo CFP. Ou seja, são 0,7 pontos percentuais a separar os dois lados, num valor absoluto correspondente a 2.300 milhões de euros. Mais de dois terços deste montante são explicados por uma suborçamentação da despesa pelo Executivo (1.650 milhões de euros).

Mais de dois terços da diferença entre a previsão de saldo do Governo e a do CFP são explicados por uma suborçamentação da despesa pelo Ministério das Finanças.

Na despesa pública, as diferenças com maior magnitude concentram-se no investimento com financiamento nacional (1.134 milhões de euros) e no consumo intermédio (831 milhões de euros). No primeiro caso, o CFP mostra-se menos otimista do que o Governo quanto às receitas provenientes da alienação de imóveis públicos, e estranha a desaceleração do crescimento prevista para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – vulgo investimento – suportada por financiamento nacional, ou seja, que não sustentada em empréstimos do PRR.

Apesar de se desconhecer a sua calendarização, esta desaceleração é tanto mais significativa, quando estão em curso a contratualização de empréstimos BEI para as áreas da habitação e construção/requalificação de escolas“, assinala o CFP.

No que toca ao consumo intermédio, o CFP justifica a diferença com a redução prevista no OE2026 na aquisição de bens e serviços no programa da saúde, mas que “não se encontra devidamente fundamentada nem se conhece o impacto na despesa em contas
nacionais”.

Nazaré da Costa Cabral, presidente do Conselho das Finanças Públicas.Hugo Amaral/ECO

Em menor magnitude, verifica-se igualmente uma diferença na receita esperada (650 milhões de euros), que o CFP atribui a esperar quer uma evolução menos favorável da receita fiscal e contributiva, quer a um menor montante de dividendos (“por falta de detalhe que a corrobore”).

A ausência de explicação robusta para a evolução prevista de algumas rubricas da despesa e da receita apresentada na POE/2026 não pode deixar de merecer uma avaliação crítica das previsões orçamentais do Ministério das Finanças e dos seus pressupostos“, aponta a instituição de Nazaré da Costa Cabral.

Pelas contas do CFP, mesmo que se assumisse a alienação de imóveis nos montantes considerados pelo CFP e se excluísse a receita do dividendo adicional, o saldo previsto pelas Finanças seria de um défice de 0,2% do PIB.

“Incoerência” para este ano face à execução já conhecida

O parecer do CFP aponta também o dedo às previsões do Governo para este ano, sobretudo do segundo semestre de 2025, leitura, que argumenta, “é reforçada pela incoerência dos crescimentos projetados face à execução conhecida do ano”.

Para a instituição, esta subestimação é particularmente evidente nas seguintes rubricas:

  • Consumo intermédio: Face a um crescimento de 3,2% no primeiro semestre, seria necessária uma queda de 1,9% no segundo semestre para atingir a previsão de crescimento para o conjunto do ano do Governo (0,4%), diz. “A previsão do Ministério das Finanças não se afigura plausível, a não ser que o INE venha a rever em baixa significativamente os valores do primeiro semestre”, considera;
  • Investimento financiado por fundos nacionais: O CFP explica que no primeiro semestre registou-se um crescimento de 19,6% face ao mesmo período de 2024 e a previsão das Finanças para o conjunto do ano implica uma quebra homóloga de 4,1% nesta despesa;
  • prestações sociais em espécie: nestas despesas, que incluem as despesas de saúde, a equipa de Miranda Sarmento prevê uma redução homóloga de 4,4% no segundo semestre, que compara com um crescimento de 10,6% já registado nos primeiros seis meses do ano. Contudo, o CFP destaca que os dados conhecidos da execução financeira do SNS até agosto “continuam a evidenciar um crescimento significativo destas componentes (10,9%);
  • despesas com pessoal: a previsão anual do Ministério das Finanças implica uma “desaceleração acentuada” do crescimento desta componente – de 8% para 6,2% no segundo semestre –, o que o CFP considera “de difícil concretização, particularmente se for tida em conta, entre outras, o programa de recuperação da carreira dos professores iniciada em 2024”.

Perante este retrato, a CFP mostra-se crítica da estratégia orçamental do Governo, considerando que o excedente é em parte baseado em receitas de caráter extraordinário que concorrem com despesas permanentes. Para a instituição presidida por Nazaré da Costa Cabral, o cenário suscita dúvidas quanto à sustentabilidade das contas públicas.

A proposta orçamental para 2026 apresenta a previsão de um equilíbrio orçamental global, apoiada, em parte, por receitas de caráter extraordinário e em pressupostos que refletem, em alguns casos, alterações não fundamentadas à dinâmica normal da despesa“, refere a instituição.

Neste sentido, alerta que “embora esta estratégia permita projetar um resultado orçamental positivo e a continuação da redução do rácio da dívida pública, suscita dúvidas quanto à sua sustentabilidade, relembrando práticas que no passado limitaram a transparência e a credibilidade da política orçamental”.

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