Europa arrisca perder mercado de 93 mil milhões das tecnologias quânticas

A União Europeia tem aumentado o número de empresas e inovações relacionadas com tecnologia quântica, mas ainda falha na comercialização, alertam a OCDE e a Organização Europeia de Patentes.

ECO Fast
  • O investimento europeu em tecnologias quânticas está a aumentar, mas a região enfrenta dificuldades na comercialização, arriscando perder um mercado de 93 mil milhões de euros.
  • A Organização Europeia de Patentes e a OCDE destacam a fragilidade da União Europeia em transformar investimento e conhecimento em empresas escaláveis, em contraste com os Estados Unidos.
  • A Europa necessita urgentemente de estratégias que convertam o dinamismo científico em liderança de mercado, dado o potencial transformador das tecnologias quânticas.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O investimento da Europa nas tecnologias quânticas, com desenvolvimento científico e criação de empresas inovadoras, está a aumentar, mas o Velho Continente continua a falhar na corrida à comercialização e arrisca perder um mercado que deverá valer 93 mil milhões de euros a nível global na próxima década.

A Organização Europeia de Patentes (OEP) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), no estudo Mapping the global quantum ecosystem (“Mapear o ecossistema quântico global”), identificaram uma fragilidade estrutural na União Europeia (UE): a dificuldade em transformar investimento público, conhecimento científico e propriedade intelectual em empresas escaláveis, produtos comerciais e retorno económico.

“Apesar do rápido progresso, a área continua focada no desenvolvimento tecnológico em detrimento da comercialização, e a crescente dependência de alguns fornecedores estratégicos está a agravar as vulnerabilidades sistémicas. As políticas públicas têm-se centrado, até à data, principalmente no apoio à investigação e ao desenvolvimento, mas os futuros esforços necessitarão de ir além disso para sustentar o progresso da Europa na área da computação quântica”, lê-se no relatório divulgado esta quarta-feira.

A fraqueza em passar do laboratório para as vendas é especialmente notória quando se compara com os Estados Unidos. “As tecnologias quânticas têm um enorme potencial, mas ainda estão nas fases iniciais de desenvolvimento. Como este estudo e o relatório de Draghi realçam, a União Europeia tem margem para reforçar o seu investimento em quântica, especialmente quando comparada com países líderes como os Estados Unidos. O financiamento privado é agora essencial para comercializar a investigação de base e os governos devem priorizar esta necessidade”, afirma o presidente da OEP, António Campinos.

Patentes quintuplicaram. Portugal tem apenas quatro

Apesar destes desafios, denota-se interesse na proteção da inovação. O número de famílias de patentes internacionais (conjunto de pedidos de patente apresentados em vários países para a mesma invenção) no domínio quântico quintuplicou nos últimos dez anos.

Entre 2015 e 2024, foram apresentados apenas quatro pedidos de famílias de patentes internacionais a partir de Portugal relacionados com tecnologias quânticas, avançou ao ECO o conselheiro principal na direção de Investigação e Políticas de Patentes da OPE, Telmo Vilela.

“O registo revela um envolvimento lento, mas persistente, refletindo tanto a natureza ainda emergente da tecnologia como uma abordagem seletiva por parte do país no recurso ao sistema de patentes. Nos primeiros anos, os pedidos foram escassos: um em 2015 e outro em 2016, sinalizando passos exploratórios iniciais. Após um período de menor atividade, em 2022 registaram-se dois pedidos, o que sugere um renovado interesse ou a maturação de esforços de investigação anteriores”, esclarece Telmo Vilela.

A consultora McKinsey, através do Quantum Technology Monitor 2025, estima que as tecnologias quânticas valham 93 mil milhões de euros até 2035.

Segundo a OCDE e a OEP, as tecnologias quânticas têm potencial para transformar a forma como se processa informação, comunica e mede o pulso à economia, tendo aplicações em áreas como ambiente, defesa ou saúde, nomeadamente a imagiologia médica. Logo, há a “necessidade urgente” de estratégias de escala que permitam à Europa transformar o seu dinamismo científico em liderança de mercado.

Os governos de todo o mundo reconheceram o potencial das tecnologias quânticas para remodelar as indústrias e impulsionar os avanços científicos. Mais de 30 países formularam políticas específicas para apoiar o desenvolvimento e a adoção responsáveis ​​de tecnologias quânticas, incluindo 18 países da OCDE que têm estratégias quânticas nacionais abrangentes.

Mathias Corman.

Secretário-geral da OCDE

Portugal tem um Instituto Português Quântico (PQI – Portuguese Quantum Institute) e incorpora esta tecnologia na (futura) Estratégia Nacional para as Tecnologias Emergentes, embora não tenha uma individual.

O relatório enumera três subsetores: comunicação quântica, computação quântica (incluindo simulação) e sensores quânticos. A comunicação quântica verificou o maior número de famílias de patentes até 2022, enquanto a computação quântica teve o maior crescimento destas patentes nesse período (quase mais 60 vezes desde 2005) e deverá tornar-se o maior campo do ecossistema quântico.

Entre 2005 e 2024, foram geradas cerca de 9.740 famílias de patentes internacionais relacionadas com a quântica. Os Estados Unidos lideram, seguidos pela Europa, Japão, China e República da Coreia. Na Europa, os três principais países em número de patentes quânticas são Alemanha, Reino Unido e França.

Como está o ecossistema quântico?

  • Mais de 4.500 empresas, das quais menos de mil (cerca de 20%) são core (focadas exclusivamente em tecnologias quânticas). Logo, são tipicamente startups que dependem de investimento inicial e financiamento público.
  • Empresas que não têm a quântica como atividade principal (80%) são as que representam a maioria das patentes e da criação de emprego relacionados com quântica e estão mais bem posicionadas para a comercialização.
  • Os cinco principais requerentes de famílias de patentes internacionais entre 2005 e 2024 foram IBM, LG, Toshiba, Intel e Microsoft. Na Europa destacam-se a IQM Finland e a Robert Bosch.
  • As cinco universidades com mais IPFs quânticas são todas dos Estados Unidos, lideradas pelo MIT e Harvard. O CNRS – Centre National de la Recherche Scientifique é a única instituição pública europeia entre os 20 maiores requerentes.
  • Desde 2014, as famílias de patentes internacionais quânticas expandiram-se a uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 20%, mais do que os 2% das outras tecnologias.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Europa arrisca perder mercado de 93 mil milhões das tecnologias quânticas

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião