Governador do BdP ao ECO: É preciso carregar na habitação e nova vaga de reformas estruturais
Num artigo de antevisão sobre 2026, Álvaro Santos Pereira elogia o caminho feito pela economia portuguesa, mas salienta o que há por fazer: reformas, desendividamento e habitação são pontos-chave.
- A economia portuguesa apresenta um desempenho robusto, mas o governador do Banco de Portugal alerta para a necessidade de reformas estruturais contínuas, num artigo de opinião para o ECO.
- O artigo destaca a correção dos desequilíbrios macroeconómicos e a melhoria da saúde financeira, mas também menciona riscos internos, como a subida dos preços das casas.
- A manutenção da disciplina orçamental e o desendividamento são cruciais para enfrentar desafios futuros e garantir um crescimento sustentável.
“Na última década e meia, a economia nacional mudou muito e para melhor”, mas não podemos ser complacentes e achar que está tudo feito. Esta é a mensagem central do artigo de outlook escrito por Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, para o ECO, intitulado exatamente “Economia está robusta, é preciso preparar o futuro”.
O responsável começa por salientar todo o caminho feito pelo País, já que “Portugal fez um ajustamento notável, com uma significativa correção dos desequilíbrios macroeconómicos internos e externos, bem como com um importante desendividamento de todos os agentes económicos e uma melhoria assinalável na saúde do sistema financeiro”. Porém, alerta, “este desempenho não nos deve tornar complacentes. É imperioso evitar os erros do passado, resistindo ao endividamento e promovendo reformas estruturais que permitam acelerar o crescimento, o empreendedorismo e a inovação“.
No capítulo dos riscos, lembra a situação internacional e “a evolução dos mercados financeiros internacionais, bem como com a elevada dívida pública de países com diferentes níveis de desenvolvimento”. Mas é ao nível interno que o Governador dá mais atenção, focando-se em áreas que, no seu entender, exigem atenção e políticas públicas próprias.
Exportações a caírem preocupam
“Internamente, os riscos mais prementes estão no mercado imobiliário e na significativa subida dos preços das casas na última década”, afirma. “Como mostra o nosso último Boletim Económico, nos últimos anos, a procura de casas tem sido substancialmente superior à oferta, colocando uma enorme pressão sobre os preços da habitação. Nos próximos anos, é vital dar prioridade ao aumento da oferta de casas. Para tal, é essencial avançar com medidas que combatam a excessiva morosidade dos licenciamentos, aliviem restrições de mão-de-obra e investir significativamente no nosso muito reduzido parque habitacional público”, acrescenta.
E lembra que há alguns fatores específicos que já sabemos que vão pressionar a nossa economia, entre eles o fim do PRR, e a previsível retração do investimento, e “fluxos migratórios menos intensos também irão afetar a evolução do emprego e, consequentemente, o rendimento disponível e o consumo“.
Por outro lado, lembra Álvaro Santos Pereira, “mais preocupante é a evolução das nossas exportações, que abrandaram em 2025, com quebras nas quotas de mercado, principalmente na União Europeia. Esta tendência deve ser monitorizada com atenção nos próximos tempos”, porque a internacionalização da economia “tem de continuar a ser uma prioridade para todos”.
Reconhecendo e aplaudindo o facto de a economia portuguesa ter crescido acima da média europeia, neste contexto “é imperioso evitar os erros do passado, resistindo ao endividamento e promovendo reformas estruturais que permitam acelerar o crescimento, o empreendedorismo e a inovação”.
E, claro, o processo de redução da dívida face ao produto é para continuar: “embora se projete uma redução do rácio da dívida prevista (menos de 90% do PIB em 2025 e abaixo dos 80% do PIB em 2028), o endividamento do Estado permanece demasiado elevado. Por isso, é fundamental manter o rigor orçamental e a redução da dívida pública nos próximos anos, não só para continuarmos a beneficiar de spreads e de juros mais baixos, mas também para termos margem de manobra face a eventuais choques adversos no futuro”.
Olhando mais para o médio e longo prazo, o Governador chama a atenção para temas “incluindo a longevidade e o envelhecimento da população, a transição climática e energética, bem como o desenvolvimento e a utilização das novas tecnologias digitais, incluindo a inteligência artificial”.
E conclui: “Em suma, na última década e meia, a economia nacional mudou muito e para melhor. Fizemos reformas, crescemos e exportamos mais, temos menos dívida e o sistema financeiro está muito mais robusto. Todavia, perante os enormes desafios de curto e de longo prazo, é essencial manter a disciplina orçamental e o desendividamento do Estado, das empresas e das famílias. É também imperioso levar a cabo uma nova onda de reformas estruturais que nos permitam crescer mais e elevar os níveis de vida dos portugueses. Espero que 2026 nos traga boas notícias nesse sentido”.
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