ECO da Campanha. Novas falhas no socorro do INEM aquecem caravanas
Três casos de morte por atrasos no socorro do INEM contaminaram o quinto dia de campanha. Seguro e Gouveia e Melo chamariam Montenegro. Marques Mendes poupa ministra e culpa direção do SNS.
As três mortes em 24 horas de doentes à espera do socorro do INEM dominaram o quinto dia de campanha presidencial. Seguro e Gouveia e Melo chamariam Montenegro caso fossem eleitos, já Marques Mendes poupa a ministra da Saúde e atira culpas para a direção executiva do SNS.
Mas a manhã acordou com a caravana de Gouveia e Melo a fazer mira ao atual chefe de Estado. O candidato presidencial considerou esta quinta-feira que os afetos de Marcelo Rebelo de Sousa foram muito importantes no pós-troika, mas defendeu que Portugal precisa agora de um Presidente exigente com a governação.
“O atual Presidente da República fez muito por Portugal após termos saído da troika, altura em que os afetos eram muito necessários”, declarou o ex-chefe do Estado-Maior da Armada aos jornalistas enquanto tomava um café no Mercado Municipal de Mirandela.

No entanto, segundo Gouveia e Melo, o país tem agora pela frente “desafios completamente diferentes” e Portugal precisa de um Presidente da República que “dê confiança” e que seja “exigente com a governação”.
“Não é ser contra a governação. Pelo contrário, a exigência ajuda à governação”, sustentou, tendo ao seu lado o ex-secretário-geral do PSD José Silvano e o antigo vice-presidente da Assembleia da República social-democrata Adão Silva.
Tema quente
Falhas no socorro do INEM
Com vários candidatos presidenciais e pedirem a cabeça da ministra da Saúde, só Marques Mendes poupou Ana Paula Martins e preferiu responsabilizar a direção executiva do SNS que está “desaparecida em combate”.
Sem comentar os pedidos de demissão da ministra da Saúde por parte da oposição, o candidato apoiado por PSD e CDS-PP admitiu que também Ana Paula Martins, “se entender”, poderá dar “uma palavra de explicação” sobre estas mortes, que considerou “chocantes”.
Durante uma visita à Santa Casa da Misericórdia de Ferreira do Alentejo, no distrito de Beja, Marques Mendes foi questionado se não são “casos a mais”, depois de ser conhecida uma nova morte, na Quinta do Conde, alegadamente devido a atrasos no socorro.
“São, é tudo de facto bastante chocante (…) Eu espero e desejo que alguém de responsabilidade venha no mínimo explicar esta situação”, afirmou, apontando diretamente à direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
“Anda desaparecida em combate. Eu nunca fui favorável à criação da direção executiva do SNS, expliquei que não era propriamente uma grande ideia, há uns anos atrás. Mas ela foi constituída, e foi constituída para ter atividade, iniciativa, ação, mas ninguém a vê a abrir a boca, a dar uma explicação, a fornecer um esclarecimento”, disse.
Sobre Ana Paula Martins, o candidato apoiado por PSD e CDS-PP começou por dizer que “um Presidente da República não existe nem para avaliar ministros, nem para pedir a demissão em público de ministros”.
“A minha coerência disse sempre isso. Eu não vou andar a mudar de opinião. Agora, há responsabilidades, mas a primeira responsabilidade é dar uma explicação, é fornecer um esclarecimento. E eu insisto nisto, onde é que está a Comissão Executiva do SNS? Onde está?”, criticou.

Já o candidato presidencial António José Seguro manifestou-se revoltado e indignado com os casos na saúde “todos os dias”, exigindo resultados mas sem se intrometer na questão da governação, que deixa para os partidos.
“Com indignação e revolta. Quer dizer, agora é todos os dias? Em Portugal as pessoas sabem que um dia, mais cedo ou mais tarde, vai haver uma doença, mas precisam ter cuidados de saúde a tempo e horas. Agora começa a haver o medo de se adoecer, porque significa muitas dúvidas se pode haver socorro, se pode haver uma emergência”, disse Seguro.
Para o candidato apoiado pelo PS, a situação na saúde é “inaceitável” e “alguém tem que pôr cobro a isto”, reiterando que, como Presidente da República será “exigente” e esta será a sua causa, acrescentando que, “como candidato a Presidente da República”, exige “resultados”.
“Isso é um assunto dos partidos. Enquanto Presidente da República, tratarei diretamente desse assunto com o primeiro-ministro“, respondeu o candidato quando questionado se a atual ministra da Saúde, Ana Paula Martins, tem condições para resolver a situação.
O candidato presidencial João Cotrim Figueiredo afirmou que são precisas “respostas e esclarecimentos rápidos” por parte do Governo. “Acho que este é o género de situação que exige respostas e esclarecimentos rápidos e só há duas explicações possíveis para uma demora tão grande ou ainda há o apuramento de factos ou circunstâncias que possam justificar isto, que parece difícil de justificar, ou há um embaraço tão grande que estão a encontrar a melhor forma de politicamente gerar esta situação”, considerou o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal.
“Acho que não só as pessoas que dependem do serviço do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), como sobretudo estas famílias que ficaram enlutadas por causa destas tragédias, mereciam uma resposta um pouco mais rápida”, opinou.
No final de uma visita à fábrica de velas Manulena em Porto de Mós, no distrito de Leiria, o antigo líder da IL entendeu que caso se confirme que o Governo não reativou o reforço de ambulâncias para este inverno, apesar dos avisos técnicos e operacionais, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, não tem condições para continuar no cargo.
“Eu não gosto de pedir a cabeça de ninguém, já ontem o referi, e, neste caso, só acho que há falta de condições políticas se se confirmar que esta não renovação do contrato foi precedida de um aviso das entidades no terreno que isso poderia conduzir à falta de veículos de emergência”, vincou.

Em Vila de Rei, no distrito de Castelo Branco, o candidato presidencial apoiado pelo Chega tinha planeada uma arruada pela localidade, mas a chuva obrigou uma ligeira mudança de planos. André Ventura ficou-se assim por uma visita ao quartel dos Bombeiros Voluntários. E, no início da visita, voltou a atacar o Governo por segurar a ministra da Saúde.
Ventura comentou o debate quinzenal com o primeiro-ministro, que disse “não conseguir compreender o nível do falhanço do seu próprio Governo” e que deu “a entender” que as mortes por falta de atendimento foram “uma espécie de azar”. “São falhanços, são incompetência”, asseverou Ventura, acrescentando que “a consequência política” deve ser a saída da ministra da Saúde.
O candidato presidencial António Filipe classificou como “absolutamente dramático” o caso da morte de três pessoas alegadamente por atrasos na assistência médica, considerando ser um problema “suficientemente grave” para justificar a chamada excecional do primeiro-ministro a Belém.
“Começa a ser raro o dia em que isso não acontece. Isso é absolutamente dramático. Ou seja, eu acho que esses casos têm de ser investigados, tem de se perceber exatamente porque é que isso aconteceu e o que é que tem de ser alterado para que isso não aconteça”, afirmou António Filipe, que falava em Pedrógão Grande, após uma visita aos bombeiros voluntários.
Questionado sobre se se fosse eleito Presidente da República, chamaria o primeiro-ministro a Belém numa situação destas respondeu: “Mas isso parece-me evidente.”
Para António Filipe, a realidade revela uma “degradação acelerada” do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e defendeu que “isso tem de ser travado”, que o sistema de socorro tem de ser assegurado e que têm de ser assumidas responsabilidade políticas.

A candidata presidencial Catarina Martins apontou o primeiro-ministro, Luís Montenegro, como o “principal responsável” pela situação do Serviço Nacional de Saúde, considerando que o país vive uma “calamidade na Saúde” que já não pode ser atribuída apenas à ministra Ana Paula Martins.
“Já não estamos a falar de um erro ou de algo que correu mal. É um problema global do Governo, do qual o primeiro-ministro é o principal responsável”, afirmou, em declarações aos jornalistas, à margem de uma visita aos Bombeiros Voluntários da Moita, citada pela agência Lusa.
“Não é uma questão de a ministra ter ou não condições — que seguramente não tem. É uma questão da estratégia do Governo, que tem de ser travada”, afirmou, classificando a situação como “das mais graves” a que já assistiu no país. Na véspera, Catarina Martins já tinha acusado o Executivo de degradar deliberadamente o SNS e voltou a insistir que não acredita que a sucessão de falhas possa ser atribuída ao acaso ou à incompetência.
“Há duas hipóteses: ou o Governo é absolutamente incompetente, o que é assustador, ou há uma estratégia deliberada para destruir o SNS e entregá-lo ao negócio privado da doença. E isso também é assustador”, afirmou.
No plano político, Catarina Martins questionou se outros candidatos presidenciais ligados à direita, como Luís Marques Mendes ou João Cotrim Figueiredo, terão independência para travar o Governo. “Precisamos de uma Presidente da República que convoque toda a gente para salvar o acesso das pessoas à saúde em Portugal”, defendeu ainda de acordo com a Lusa.

Também o candidato presidencial Jorge Pinto defendeu que a ministra da Saúde “não tem condições para continuar” e disse estar “cansado de um país onde o primeiro-ministro anuncia a compra de novas ambulâncias” após mortes por falhas no socorro.
Em declarações aos jornalistas na associação Mobility Friends, em Barcelos, Jorge Pinto afirmou que a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, “já não tem condições para continuar no cargo” e referiu que está inquieto com as políticas do Governo para o setor.
O candidato a Belém apoiado pelo Livre considerou que está em causa “um falhanço em relação àquilo que o próprio Governo se tinha comprometido a fazer e um falhanço aos portugueses e àqueles que perderam as suas vidas por não terem visto, por parte do Governo, uma resposta tal como ela era necessária”, insistindo na crítica ao timing da compra de novas ambulâncias hoje anunciada pelo primeiro-ministro no Parlamento.
“Ouvi as suas promessas de compra de novas ambulâncias e só me pergunto: Porquê agora? Porquê na semana em que são notícia três mortes que nos deveriam envergonhar a todos que estamos na vida política portuguesa porque as ambulâncias tardaram a prestar socorro?”, perguntou.
O número
Três mortes em 24 horas à espera do INEM
Um homem de 68 anos morreu na quarta-feira em Tavira, depois de ter estado mais de uma hora a aguardar por meios de socorro, disse à Lusa fonte da família. Este caso acontece depois de, na terça-feira, um homem de 78 anos ter morrido no Seixal, após de ter estado quase três horas à espera de socorro e eleva para três o número de mortes em 24 horas após chamada para o INEM.
Esta quinta-feira de manhã, novamente no Seixal, uma mulher acabou por falecer, depois de ter estado 44 minutos a aguardar por uma equipa de socorro, acabando por ser acionada para o local uma ambulância dos Bombeiros de Carcavelos, a 35 quilómetros da ocorrência.
A frase
"Parece-me a ‘casa roubada trancas à porta’ depois de vários incidentes aparentemente relacionados com a falta de ambulâncias.”
Norte-Sul
No sexto dia de campanha rumo a Belém, as caravanas prosseguem de norte a sul do país. Luís Marques Mendes estará em Alcabideche, na Associação Social dos Idosos da Amoreira, para ter a tarde livre para o Conselho de Estado. À noite janta na Lousã, distrito de Coimbra.
André Ventura também terá uma agenda de campanha mais folgada, uma vez que só tem uma arruada em Sobral de Monte Agraço e segue igualmente para o Conselho de Estado.
Lisboa e Coimbra são as cidades onde estará António Filipe para um encontro com trabalhadores e agentes da Cultura, no Clube Estefânia, e mais tarde um comício na repartição regional do Instituto Português Da Juventude, passando por Aveiro.
Henrique Gouveia e Melo e a sua equipa aquecem os motores com uma visita ao mercado municipal e à feira semanal de Viana do Castelo, seguindo depois para o ‘berço’ de Portugal. Em Guimarães está prevista uma visita ao Paço dos Duques de Bragança e contacto com a população no centro histórico. De tarde há uma passagem por Braga e o dia termina em Aveiro, onde estará na Festa de São Gonçalinho e janta com apoiantes.
É também neste certame de São Gonçalinho que estará João Cotrim Figueiredo e quiçá se cruzem nos corredores, a julgar pelas horas previstas. Durante a manhã e início da tarde, visita a empresa Nelo Kayaks em Vila do Conde e, como tem sido habitual nos últimos dias, procura o eleitorado mais velho na Universidade Sénior da Senhora da Hora, em Matosinhos.
Catarina Martins escolheu a zona da capital para fazer a campanha de sexta-feira. A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda visita a escola básica Nuno Gonçalves, o Laboratório Mulheres e Saúde e termina o dia no Concerto Ano Novo Almada.
Jorge Pinto escolheu a região norte para o último dia útil da semana: Viana do Castelo e Miranda do Douro – onde estará na Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa – foram as escolhas que culminam num convívio transmontano. Mais a sul estará o candidato apoiado pelo PS, António José Seguro, que andará pela Figueira da Foz e termina o dia em Coimbra.

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