Pedro Gomes Santos: “Tive vergonha de chegar a casa e dizer que tinha sido despedido”

  • ECO
  • 12 Janeiro 2026

Do propósito pessoal à liderança de uma empresa com mais de duas mil pessoas, Pedro Gomes Santos revisita as escolhas, quedas e aprendizagens que moldaram o seu percurso até à liderança da Inetum.

Seguidor do conceito japonês Ikigai, Pedro Gomes Santos, CEO da Inetum Portugal, acredita que o sentido da vida e da carreira nasce de um propósito claro. No seu caso, esse propósito nunca esteve nos cargos nem na tecnologia em si, mas nas pessoas. “O meu Ikigai são as pessoas. Essa tem sido a minha principal bússola profissional e pessoal desde pequeno.” Desde cedo, conta, criou o hábito de se relacionar com quem sabia e com quem tinha vivido mais. “Desde pequeno que tenho o hábito de me relacionar com pessoas mais velhas e de conversar muito com as pessoas”, diz. Essas conversas marcaram-no profundamente, como a de alguém que conheceu, em 2016, e que tinha estado preso com Nelson Mandela.

A curiosidade pelo outro e pelo mundo levou-o para fora de Portugal durante mais de uma década. Viveu 12 anos na América Latina, mas também passou pela Alemanha onde teve o seu primeiro choque cultural. “Eles seguem, de facto, o processo e são muito estritos naquilo que são as regras para cumprir”, conta. Mais tarde, regressou a Portugal com uma certeza clara: não queria ser programador, nem viver fechado num papel excessivamente técnico. “Eu já tinha bastante claro na minha cabeça que, primeiro, eu não era tão orientado a processos como a Siemens é. Depois, não queria ser programador.”

A tecnologia continuou a fazer parte do seu caminho, mas sempre mediada pela dimensão humana. Para Pedro Gomes Santos, o setor das tecnologias de informação vive essencialmente do conhecimento e das pessoas. “O setor informático depende essencialmente das pessoas, porque na prática o resultado, o output nasce do conhecimento das pessoas”, explica. Foi essa convicção que o levou, no final de 2009, a arriscar uma mudança para a consultoria, numa decisão que se revelou dura. “Tomei a decisão de sair da tecnologia e dedicar-me à consultoria.” O contexto era adverso: crise económica, cortes generalizados e pouca margem para erro.

O momento mais difícil chegou quando perdeu o emprego. Mais do que o impacto profissional, foi o peso emocional que o marcou. “Foi ter vergonha de chegar a casa e dizer que tinha sido despedido.” Durante meses não contou à filha sobre a sua situação. Hoje, considera que essa situação foi uma das maiores lições da sua vida profissional. “Acho que foi o mais importante que me aconteceu na vida para estar onde estou hoje”, diz.

A viragem voltou a acontecer quando um antigo chefe lhe fez um novo convite, desta vez para integrar operações na América Latina. O que seriam três meses no Peru transformaram-se em 12 anos de vida fora de Portugal. “Doze anos de uma transformação pessoal incrível e de uma aprendizagem incrível”, afirma. Nesse período, tornou-se empresário, comprou uma operação desse mesmo grupo e compreendeu, na prática, o peso da responsabilidade. “O empresário tem uma responsabilidade incrível. E aí foi onde eu descobri que, de facto, as pessoas são o mais importante que temos nas empresas”, conta.

A liderança, para Pedro Gomes Santos, está profundamente ligada à confiança. Uma ideia que associa a um conselho deixado pelo avô. “Nunca decepciones quem confia em ti.” Essa frase acompanha-o até hoje, mesmo sabendo que liderar implica decidir e, por vezes, desagradar. “O CEO toma decisões. Essa é a parte difícil”, diz. Ainda assim, assume que é essa exigência que o motiva. “As decisões exigem coragem e expõem as tuas próprias vulnerabilidades”, explica.

À frente da Inetum Portugal, onde lidera mais de 2200 pessoas, acredita que ninguém lidera sozinho. “Em primeiro lugar, tens de ter uma grande equipa contigo”, afirma. A confiança na equipa de direção e nas várias linhas de liderança é, para si, essencial. “Tenho a sorte de ter uma equipa em quem confio 100%.” A presença é outro pilar fundamental. “Um líder tem que estar ao lado das suas pessoas e tu não podes ser líder de quem não te identificas”, diz. Por isso, assume uma posição crítica em relação ao teletrabalho, por sentir que retira algo essencial. Diz detestar o modelo remoto porque lhe tirou uma das coisas que mais valoriza, a possibilidade de criar momentos com as pessoas.

De volta a Portugal e após tantos anos fora, admite que ainda não se reintegrou totalmente. Apesar de reconhecer muitas qualidades na cultura portuguesa, também aponta algumas fragilidades. “Acho que o português tem esta coisa de nunca estar contente, mas também de não fazer para estar melhor”, refere. Ainda assim reconhece a qualidade dos profissionais portugueses, que considera dos melhores com quem já trabalho a nível internacional.

O grande desafio para uma liderança, diz, é o talento. “O nosso setor atravessa uma fase difícil, primeiro, de captar e desenvolver esse talento à velocidade que a tecnologia nos está a exigir”, explica. Num contexto de mudança constante, acredita que a comunicação clara é uma das chaves da liderança. “Eu penso que é importante comunicar. Acho que a comunicação transparente é um dos principais motivos de sucesso de um líder”, acrescenta.

Fora do trabalho, encontra equilíbrio na pintura, no desporto e na convicção de que o tempo existe para aquilo que realmente importa. “Temos sempre tempo para tudo o que queremos fazer. Lá está, o tal Ikigai.” Para o futuro, imagina uma vida mais simples, mas igualmente centrada nas pessoas. “Gostava muito de me reformar cedo e ter o meu projeto de vida, o meu outro Ikigai, que é ter um hotel na praia e receber os meus hóspedes e pessoas com quem criar espaços de conversa.”

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e dos Vinhos de Setúbal.

Pode assistir ao episódio completo aqui:

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