Acordo com Índia abre mercado de “enorme dimensão e potencial” às empresas portuguesas
Empresas do setor do metal, automóvel ou vinho veem potencial para crescer, enquanto os têxteis alertam para um país que vai ser "mais concorrencial do que a China é neste momento".
- O acordo entre a União Europeia e a Índia foi celebrado com entusiasmo por empresários portugueses, que veem oportunidades de diversificação num mercado com 1,5 mil milhões de pessoas.
- A Índia, atualmente o 40.º destino das exportações portuguesas, representa um défice comercial de 889 milhões de euros, evidenciando o potencial de crescimento das exportações nacionais.
- Embora o acordo traga oportunidades significativas, setores como o têxtil temem a concorrência indiana, que pode impactar negativamente as empresas portuguesas no curto prazo.
Num mundo em que o comércio internacional enfrenta cada vez mais barreiras, o acordo entre a União Europeia e a Índia foi recebido com grande entusiasmo pelos representantes empresariais portugueses, que destacam as oportunidades de diversificação para entrar num mercado com “enorme dimensão e potencial”, com 1,5 mil milhões de pessoas. Indústrias como a metalurgia e metalomecânica, automóvel ou vinho veem potencial de crescimento, mas avisam que impacto não vai ser visível num futuro próximo. Já os têxteis falam num concorrente pior que a China, que pode roubar mercado às empresas portuguesas.
Uma semana depois de os Estados Unidos terem voltado a ameaçar países europeus com tarifas adicionais, desta vez ligadas à Gronelândia, a União Europeia fechou com a Índia a “mãe de todos os acordos comerciais”. O pacto marca mais um esforço do bloco para abrir oportunidades noutras regiões e criar “uma zona de livre comércio de dois mil milhões de pessoas“, conforme destacou Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia.
“Ao reduzir barreiras à entrada e aumentar a competitividade dos produtos nacionais num mercado de grande dimensão e elevado potencial de crescimento, este acordo apresenta-se, naturalmente, como uma oportunidade para a entrada de novas empresas portuguesas neste mercado”, destaca Luís Miguel Ribeiro. “Além disso, este acordo poderá permitir às empresas portuguesas que já exportam para a Índia, reforçar e consolidar a sua posição neste mercado”, acrescenta o presidente da AEP.
Ao reduzir barreiras à entrada e aumentar a competitividade dos produtos nacionais num mercado de grande dimensão e elevado potencial de crescimento, este acordo apresenta-se, naturalmente, como uma oportunidade para a entrada de novas empresas portuguesas neste mercado.
De acordo com dados do INE, a Índia foi, em 2024, o 40.º destino das exportações portuguesas de bens, com uma quota de 0,2% e o 16.º principal país de origem das importações, com uma quota de 1%. “A balança comercial de bens entre os dois países permanece desfavorável para Portugal, com um défice de 889 milhões de euros em 2024, o que evidencia um significativo potencial de crescimento das exportações portuguesas para este mercado”, explica Luís Miguel Ribeiro.
Para o responsável, “trata-se de um desenvolvimento particularmente relevante para Portugal enquanto economia aberta ao exterior que, num contexto internacional globalmente menos favorável, tem vindo a ver reduzida a sua quota de mercado”. “A incerteza associada à política comercial protecionista levada a cabo pelos Estados Unidos da América, principal destino extra-UE das exportações portuguesas, tem pesado sobre o comércio externo e sobre as decisões de investimento das empresas nacionais, reforçando a necessidade estratégica de diversificação de mercados”.
“O que se destaca, desde logo, é a dimensão do mercado indiano e das oportunidades que ele representa. Estamos a falar do país mais populoso do mundo, com cerca de 1,5 mil milhões de pessoas, que mais do que apenas bens de consumo, tem necessidades de know-how e tecnologia que podem ser exploradas pelas empresas nacionais”, aponta Nuno Botelho. Para o presidente da Associação Comercial do Porto, “essa é a grande oportunidade para a nossa economia, beneficiando de conhecimento especializado em áreas como as energias renováveis, a gestão de águas e resíduos, ou as próprias tecnologias de informação”, classificando o acordo como “bastante promissor para a economia europeia e para a portuguesa, em particular”.
Nuno Botelho refere que “este acordo oferece a possibilidade às empresas nacionais de participarem ativamente no esforço de modernização estrutural que a Índia tem vindo a promover, estabelecendo Portugal como uma interface logística e tecnológica de referência no contexto deste acordo”.
“Por outro lado, é a oportunidade de Portugal reforçar a sua presença num mercado de enormes dimensões e potencial como é a Índia, mas que, nesta altura, não está, sequer, nos 40 principais destinos de exportação para as empresas nacionais. As vantagens deste acordo, no caso português, superam largamente os riscos que podem resultar para a nossa economia”, antecipa.
É a oportunidade de Portugal reforçar a sua presença num mercado de enormes dimensões e potencial como é a Índia, mas que, nesta altura, não está, sequer, nos 40 principais destinos de exportação para as empresas nacionais. As vantagens deste acordo, no caso português, superam largamente os riscos que podem resultar para a nossa economia.
José Eduardo carvalho, presidente da AIP, reforça que “este tratado cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, abrangendo cerca de duas mil milhões de pessoas e aproximadamente 25% do PIB global”. “Portugal poderá beneficiar da redução drástica de tarifas em setores onde possui forte tradição exportadora e qualidade reconhecida“, aponta.
Quanto aos setores beneficiados destaca os vinhos, com uma redução de tarifas de 150% para 30% e o azeite, que passa de 45% para 0%. “As empresas portuguesas de moldes e engenharia de precisão podem encontrar um mercado vasto para fornecer componentes e tecnologia para as indústrias automóvel e aeroespacial indianas”, explica, notando ainda que “Portugal é uma referência em energias limpas” e o “acordo facilita a exportação de serviços e tecnologia em energia eólica e solar, além de abrir oportunidades para FinTechs portuguesas num mercado indiano altamente digitalizado”.

No setor automóvel e de componentes, lembra, ocorre também uma redução de tarifas de 110% para 10%, “beneficiando a cadeia de valor automóvel presente em Portugal”. Já na área farmacêutica de inovação indica “uma proteção reforçada de propriedade intelectual para medicamentos inovadores”.
“Para a indústria automóvel poderá ser um acontecimento importante nesta fase em que vivemos”, diz José Couto, presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), lembrando que está previsto que nos automóveis as taxas serão gradualmente reduzidas dos atuais 110% para até 10%, enquanto nas peças serão totalmente abolidas num período entre cinco e 10 anos.
O responsável destaca que “a Índia é o quarto maior produtor de automóveis do mundo. Tem um mercado potente que demonstra crescimento e é o país mais populoso do mundo”, reconhecendo “a possibilidade de a indústria automóvel europeia penetrar no mercado indiano”, enquanto “para as componentes, há a possibilidade de quem produz ter componentes europeias”. “É uma janela que se abre, uma oportunidade”.

“Nos próximos anos podemos aproveitar e entrar no mercado indiano. Vamos plear pelo mercado e que os nossos produtos sejam mais competitivos”, acrescenta. Para a indústria de componentes nacional, a oportunidade surge através dos clientes do setor automóvel. “Provavelmente poderemos ter mais espaço para vendermos a construtoras que estejam neste momento na Índia”, explica.
José Couto avisa, porém, que o impacto “não é visível nos próximos dois ou três anos. É uma coisa a ser feita com calma”. Ainda assim admite que esta é “uma ótima oportunidade e pode ter efeito positivo num momento em que o comércio internacional está a mudar”.
“As condições negociadas são de facto vantajosas para ambas as partes. São interessantes. É um mercado com uma dimensão enorme, muito interessante”, resume.
“É um mercado difícil”
Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), admite um interesse crescente naquele que “é um mercado muito interessante, mas com algumas dificuldades que podem ser esbatidas com este acordo”. O representante do campeão das exportações portuguesas, que aponta a um novo recorde em 2025, destaca que “as empresas já conhecem o mercado, até porque são clientes” na compra de matéria-prima, mas este “é um mercado difícil”.
“Se eventualmente o acordo passar pela não aplicação de tarifas sobre as matérias-primas poderá ser interessante”, destaca.

Também o setor do vinho olha para o acordo com otimismo, ainda que admita impacto limitado para as empresas portuguesas, notando que o setor vendeu apenas 300 mil euros para a Índia em 2024, num total de 964 milhões de exportações. “80% da população é hindu e não consome vinho, estima-se que haja 10 milhões de consumidores” no país, explica, acrescentando que a Índia “nunca será um grande mercado para os vinhos portugueses“.
“Não acredito que possa vir a ter impacto grande”, reconhece, apesar de enaltecer os esforços europeus para derrubar barreiras e abrir novos mercados.
Muitas empresas que não olhavam para a Índia como uma alternativa podem agora fazê-lo.
Altino Álvares, presidente executivo do Portugal India Business Hub (PIBHub), destaca que “muitas empresas que não olhavam para a Índia como uma alternativa podem agora fazê-lo“. “A importância é preparar-nos, porque o acordo até se colocar em prática ainda vai levar o seu tempo”, esclarece, notando que quem está disponível para arriscar, esta é a altura para “meter recursos para explorar este mercado”.
Em termos de oportunidades para as empresas nacionais destaca que “há muitos serviços para melhorar a qualidade dos produtos indianos, para ter certificações europeias, internacionais”. “Eu acho que nós temos empresas muito bem posicionadas em Portugal para o fazer”. E dá alguns exemplos. “Na parte dos drones estamos muito bem e podemos também fazer parcerias ou mesmo explorar o mercado indiano”, explica, acrescentando que, “na parte de IT será mais o inverso, portanto, receber da Índia para aqui para Portugal”.
O responsável considera que, no que diz respeito à agricultura, esta é uma área sensível. “Mesmo o acordo é sensível porque há uma proteção dos dois lados, mas isso não quer dizer que não possa haver acordos específicos em certas áreas e nós podermos aproveitar”.
Mas, como em qualquer acordo, há os dois lados da moeda: “há oportunidades de irem empresas portuguesas para a Índia, como receber em Portugal e fazer uma distribuição a partir de Portugal”.
Têxteis e calçado sofrem com concorrência indiana
O presidente da AIP identifica como “setores eventualmente prejudicados, temos o setor têxtil, vestuário e calçado, uma vez que a Índia é um dos maiores produtores mundiais com custos de mão-de-obra muito inferiores”. “Ainda, no setor Farmacêutico de Genéricos, derivado da maior concorrência de genéricos indianos (“farmácia do mundo”), podem ser pressionadas as margens dos produtores portugueses de genéricos”.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, dirigiu-se, aliás, diretamente aos “associados de cada setor, como os têxteis, pedras preciosas e joalharia, couro e calçado”, notando que “este acordo será muito benéfico para estes setores”.

Numa primeira reação ao pacto, Ricardo Silva, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), mostra-se “muito preocupado”, reconhecendo que esta abertura pode roubar mercado às empresas portuguesas e criar “disrupção” no curto prazo. “A Índia é um potente industrial no têxtil. É um mercado que compete pelo preço. Tenho receios grandes que [o acordo] possa ter um impacto negativo para o setor“, admite, destacando a concorrência indiana em três áreas: malha, fios e tecidos.
“Vai ser mais concorrencial do que a China é neste momento. Os custos de produção na China tem nível baixo mas concorremos com qualidade. A Índia ainda trabalha nos mercados de produção com custo mais baixo. Vai trazer apetite às empresas europeias de experimentar este mercado“, explica o representante do têxtil.
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