Diretor-geral da Bolt Portugal admite que os tempos de espera têm aumentado, devido a uma subida da procura que supera a da oferta. Mas garante que serviço em Portugal continua a ser dos mais rápidos.
O último ano e meio ficou marcado por um aperto na imigração em Portugal, mas o diretor-geral da Bolt garante, em entrevista ao ECO, que não sente um impacto no setor TVDE. Mário de Morais explica que mais de metade dos motoristas são portugueses e adianta que, cada vez mais, o crescimento será feito com quem já está no país.
Sobre as condições oferecidas aos motoristas, o responsável, citando um inquérito levado a cabo pelo Centro de Estudos Aplicados da Católica-Lisbon, destaca que um terço ganha mais do que 1.500 euros, sendo que 60% ganham mais do que mil euros ao fim do mês. “É acima do ordenado mínimo, e uma boa parte é acima do ordenado médio nacional”, afirma.
Por isso, o diretor-geral da Bolt não parece ter pressa para seguir o exemplo da Uber e fechar um acordo com os sindicatos — diz que ainda está a avaliar esse memorando –, assegurando que já hoje os motoristas recebem mais do que a retribuição mínima nacional, se cumprirem 40 horas semanais.
Por outro lado, reconhece que os tempos de espera têm aumentado, devido a um desajuste entre a oferta e a procura, mas garante que continuam baixos (abaixo dos cinco minutos) em Portugal e um dos mais rápidos entre vários países onde a Bolt está presente.
Esta é uma de duas partes da entrevista de Mário de Morais ao ECO. Na outra parte (que pode ler e ver aqui), o responsável anuncia que a Bolt Portugal revela que novidades estão à espreita em 2026.
Um terço dos motoristas ganha mais do que 1.500 euros, sendo que 60% ganham mais do que mil euros líquidos dos custos ao fim do mês. É acima do ordenado mínimo, e uma boa parte é acima do ordenado médio nacional.
Ainda persiste a ideia – descrita por algumas vozes do setor – de que os motoristas não ganham o suficiente para garantir um nível de vida decente. Julgo que consideram essa ideia um mito. Que outros mitos persistem ligados ao setor TVDE?
O grande mito que se identifica logo é, precisamente, que os motoristas não ganham o suficiente. Um estudo [da Universidade Católica] confirmou aquilo que os nossos dados diziam: um terço dos motoristas ganha mais do que 1.500 euros, sendo que 60% ganham mais do que mil euros líquidos dos custos ao fim do mês. É acima do ordenado mínimo, e uma boa parte é acima do ordenado médio nacional. Além disso, ainda leva um carro para casa, porque o modelo de negócio que existe é: há a plataforma, a Bolt, há um operador TVDE que tem os carros, e há um motorista que aluga o carro. Estes rendimentos são calculados já considerando o pagamento do aluguer. O segundo mito é relativo ao perfil dos motoristas.
O que é que dizem os dados recolhidos pela Bolt sobre o motorista típico?
Uma grande percentagem dos motoristas tem educação secundária ou superior. A maior parte dos motoristas são portugueses ou são vindos de PALOP. Ou seja, 75% dos motoristas são portugueses e brasileiros. Os próprios confessaram no estudo que sentem que, às vezes, são menosprezados enquanto classe. É um dos mitos que temos de quebrar, porque há pessoas muito válidas e competentes que vieram para este setor. E esse é outro mito.
A motivação para entrar neste setor?
Por que razão as pessoas vêm para um setor como o TVDE? Vêm porque querem flexibilidade. Este foi outro mito que quebrámos. Por fim, um quarto mito é: então, e o que é que estes motoristas fazem com os rendimentos? Mais de um quarto diz que paga educação, há quem pague despesas de saúde, e cerca de 10% até compraram casa com os rendimentos do TVDE.

Em relação aos rendimentos, foi celebrado um acordo por um sindicato da UGT com a Uber, que prevê a garantia de, pelo menos, o salário mínimo. Admite que a Bolt também faça um memorando nessa linha?
Vamos sempre apoiar e achamos sempre que é bem-vinda qualquer iniciativa que beneficie o setor e os motoristas. Ainda é muito cedo. Teremos de analisar o acordo e perceber em que é que se baseia para nos pronunciarmos. Contudo, continuamos semanalmente a reunir com todas as associações do setor e, portanto, estamos muito próximos aos motoristas.
Não teme que o facto de a Uber ter um acordo e a Bolt não prejudique a vossa atratividade junto dos motoristas?
Não há motoristas da Bolt, não há motoristas da Uber. Os dados do IMT provam isto: 99% dos motoristas trabalham com ambas. São motoristas do setor e, depois, escolhem a plataforma que querem escolher. Faz parte das dinâmicas e os motoristas apreciam a sua independência. Não vai prejudicar [a atratividade].
Mas, por exemplo, este acordo prevê o salário mínimo como o mínimo por hora de condução. Na Bolt, qual é, em média, o mínimo por hora?
Estamos bastante acima do salário mínimo. O salário mínimo, na nossa visão, é um objetivo pouco ambicioso. Apontamos para o salário médio, e é isto que queremos que os motoristas tenham. Nesse ponto, o que posso dizer é, neste momento, um motorista que faça 40 horas e que esteja, efetivamente, a trabalhar e a aceitar viagens, já ganha mais que o salário mínimo. [O acordo da UGT com a Uber] não muda nada na dinâmica do próprio setor.
Em média, os tempos de espera continuam relativamente baixos e, olhando para uma perspetiva europeia e mundial, Portugal é dos países onde o serviço é mais rápido.
Portanto, a perspetiva é a de que se vão manter competitivos na atração de talento, apesar de haver uma plataforma que tem este acordo. Segundo o estudo que já referiu da Católica, a grande maioria dos motoristas que prestam serviço à Bolt, conduzem a tempo inteiro. Neste momento, quantos motoristas têm no ativo?
São 39 mil motoristas, segundo os dados do IMT último, e 99% estão connosco. Temos motoristas em todos os distritos do país, inclusive no interior e litoral, norte e sul.
Esse número tem crescido? Nos últimos seis meses chegaram vários relatos ao ECO de pessoas com dificuldade a encontrar um motorista quando fazem o pedido. Reconhece essa dificuldade? Tem que ver com o crescimento ou não do número de motoristas no ativo?
Tem havido um crescimento. Os primeiros dados oficiais do IMT falavam em 35 mil motoristas. Portanto, há um aumento. Contudo, é insuficiente. Se pensarmos, por exemplo, em Lisboa, que acomoda uma parte significativa destes motoristas, temos 300 mil carros a entrar na cidade. Ou seja, 25 mil motoristas continuam a ser poucos para servir esta mudança que acho que as pessoas estão a abraçar cada vez mais. Quando há este desencontro entre a procura e a oferta, pode haver tempos de espera um bocado superiores. Mas, em média, os tempos de espera continuam relativamente baixos e, olhando para uma perspetiva europeia e mundial, Portugal é dos países onde o serviço é mais rápido. Era mesmo muito rápido no passado, e sofremos um ajuste por comparação.
Qual é o tempo de espera médio hoje, e qual era há um ano?
Em média, hoje é abaixo dos 5 minutos. Não temos nenhum mês e nenhuma região onde o tempo de espera médio seja acima de 5 minutos. Há um ano era provavelmente um minuto menos.
Esse minuto extra está ligado a um desajuste entre a procura e a oferta, é esse o seu argumento?
Temos a procura a crescer cada vez mais e a oferta a crescer, mas com um ritmo mais lento do que aquilo que queríamos. O setor também se está a ajustar a todas as alterações que têm vindo a existir, como os centros de exame do IMT, que foi uma das medidas que apoiámos muito – tal como o protocolo de partilha de dados –, mas efetivamente há aqui uma dor de crescimento.

E o aperto na imigração que este Governo tem feito também se tem refletido nesse crescimento menos acelerado?
Até agora, não vejo o impacto do lado da Bolt e do lado das plataformas. Mais de 50% dos motoristas são portugueses. Há uma grande percentagem de brasileiros que já estavam em Portugal e com a sua situação regularizada. A plataforma exige um conjunto de documentos: carta de condução, passaporte ou o cartão de identidade, registo criminal. Todos estes documentos obrigam a que a pessoa já esteja, pelo menos, estabelecida ou com condições de se estabelecer. Para nós, não é esse o maior problema. Poderá vir a ser num futuro muito longínquo, mas penso que estamos a acomodar bem e parece-me que cada vez mais o crescimento também é feito com mais portugueses e mais pessoas que já estão no país que se mudam para esta atividade.
A ideia de que sem a imigração este é um setor que pára é exagerada?
É exagerada. A imigração faz parte e, se contarmos com os PALOP, já estamos a falar de uma percentagem maior dos motoristas. Contudo, a grande base de motoristas que está hoje no TVDE já cá está estabelecida, com todos os documentos legais. O crescimento poderá não ser tão rápido, mas faz parte da adaptação do setor.
Sobre a questão da imigração, acha que os utilizadores deveriam poder escolher ser conduzidos por um motorista que fale especificamente português? É uma das propostas que chegou a ser falada no último ano.
O que queremos numa aplicação de mobilidade é que nos levem em segurança e em condições do ponto A ao ponto B. Não digo que falar português seja o maior requisito para prestar esse serviço. Contudo, mais uma vez, dada a evolução do setor, hoje os exames são todos em português. O que eu tenho visto a acontecer é que quem tinha mais dificuldades ou falava menos adaptou-se. A Bolt está disponível para fazer parcerias com escolas de línguas que ajudem nesse ponto.
Veja a entrevista na íntegra abaixo:
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Ideia de que setor TVDE pára sem imigração “é exagerada”
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