“Não basta mobilizar investimento sustentável. É preciso ter impacto”

Em entrevista conjunta ao ECO, Jorge Moreira da Silva (da OCDE) e Isabel Ucha (da Euronext Lisbon) falam da forte emergência do investimento sustentável, mas alertam que ainda há entraves.

O mercado de capitais e a banca estão prontos para financiar a transição para um mundo mais sustentável, mas ainda há muito trabalho a fazer para garantir que os fundos são encaminhados, segundo Jorge Moreira da Silva, diretor da cooperação para o desenvolvimento da OCDE, e Isabel Ucha, presidente da Euronext Lisbon.

Em entrevista conjunta, a partir da conferência anual Via Bolsa (organizada pela Euronext em parceria com o ECO), os dois responsáveis consideram que as finanças sustentáveis estão no centro das preocupações dos mercados financeiros. No entanto, sublinham que é necessário criar formas de evitar o greenwashing, bem como condições políticas e regulatórias para que os fundos sejam alocados com impacto.

A Euronext Lisbon tem falado numa revolução no financiamento sustentável, mas o ministro do Ambiente diz que ainda não viu nada. Como responde ao ministro?

Isabel Ucha (IU): De facto, partilho a opinião do Ministro. Penso que olhámos para o tema de forma diferente, mas partilho integralmente a opinião de que a economia real tem uma enorme transição pela frente, em termos mudança de comportamentos, investimentos a realizar, de alterações tecnológicas e dos hábitos das pessoas em geral. Penso que o mundo financeiro está a dar passos muito significativos — e foi nesse sentido que falei de uma grande transformação — para apoiar essa transformação.

De facto, quando os grandes investidores institucionais começam a integrar efetivamente nas suas estratégias de investimento estes critérios de sustentabilidade, a votar nas assembleias gerais das empresas no sentido de as incentivar ativamente a mudar comportamentos e a fazerem investimentos mais sustentáveis, quando há toda mobilização de vontades à volta deste tema, temos razões para pensar que o mundo financeiro vai ajudar nesta trajetória.

As finanças sustentáveis poderão ser o caminho para relançar o dinamismo do mercado de capitais português?

IU: O tema das finanças sustentáveis está no centro das preocupações dos vários agentes de mercado. Penso que isso tem sido evidente das intervenções que têm sido feitas a vários níveis e, necessariamente, vai passar por uma componente de financiamento, designadamente financiamento por dívida. Já vimos vários exemplos de empresas portuguesas, e não só, que têm feito emissões de green bonds, por exemplo. Estes financiamentos irão certamente contribuir para esta transição que é absolutamente necessária.

As green bonds — que são apenas um primeiro instrumento mais divulgado neste momento — estão a crescer a um ritmo muito intenso. Para vos dar uma ideia, no ano 2019, emitiram-se cerca de 250 mil milhões de euros globalmente de green bonds. Isto representou um crescimento de 50% face ao que tinha sido o volume de emissões em 2018, segundo as estatísticas do Climate Bond Iniciative. A previsão para 2020 da mesma entidade é que se atinjam os 350 mil milhões. Portanto mais um crescimento significativo e é natural que também existam empresas portuguesas a recorrer a este tipo de financiamento.

E o que é a Euronext está a fazer? Entre os objetivos apresentados no ano passado falavam de um novo segmento dedicado a green bonds

IU: O segmento foi efetivamente lançado em outubro e, nesse segmento, já temos 200 emissões e cerca de 120 mil milhões de euros de montante emitido e já estão empresas portuguesas como a EDP. É uma oferta que já está disponível, mas que tencionamos continuar a expandir para outro tipo de obrigações ligadas ao tema da sustentabilidade. Já existem standards para social bonds e já existem emissões cotadas na Euronext com essas características. Estão a ser desenvolvidos critérios para transition bonds e também já existem para sustainability bonds, cujos fundos têm uma aplicação mais abrangente. Há todo um novo léxico financeiro de ativos que estão a ser desenvolvidos para apoiar este processo de sustentabilidade porque há procura dos investidores por eles.

Neste segmento, vamos ver dívida pública verde?

IU: Há Estados soberanos que já têm feito emissões de green bonds. Temos na Euronext emissões do Governo holandês, do francês — que é um dos mais ativos neste segmento — e mais recentemente também do belga e do irlandês. Portanto, todos os países onde temos bolsas já fizeram emissões e não me surpreenderia se o Governo português também o viesse a fazer. Penso, aliás, que é uma das intenções que está na carta de compromissos que o Governo lançou antes do fim do ano.

Todos os países onde temos bolsas já fizeram emissões de green bonds e não me surpreenderia se o Governo português também o viesse a fazer. Penso, aliás, que é uma das intenções que está na carta de compromissos que o Governo lançou antes do fim do ano.

Isabel Ucha

Presidente da Euronext Lisbon

Jorge Moreira da Silva, continuando no tema do Governo, como vê a atitude em relação às finanças sustentáveis?

Jorge Moreira da Silva (JMS): Percebo a questão, mas estando na OCDE não me queria referir especificamente a Portugal. Vejo com muito bons olhos o facto de, de repente, as finanças sustentáveis estarem a ser assumidas fora do contexto meramente governamental. Eu fui membro do Governo em Portugal em diversas ocasiões e recordo-me a importância que a política pública tem para criar o contexto de investimento.

Não é possível desenvolver negócios verdes, emprego verde e crescer de uma forma sustentável sem que o contexto de investimento seja preparado e o contexto de investimento resulta de reformas estruturais que possam dar previsibilidade e estabilidade aos investidores. O problema não é apenas de investimento, é o da segurança e previsibilidade desse investimento. Portanto, vi sempre com bons olhos essas reformas, desde a fiscalidade verde até ao comércio de emissões. Ou seja, o facto de o Estado tomar a iniciativa.

Então o que é que mudou?

JMS: O que me parece hoje novo não é tanto a dimensão do Estado ou governamental. O que é verdadeiramente novo é a circunstância do mercado de capitais, os investidores institucionais e o setor privado assumir esta área como uma área de liderança e oportunidade e não de mera responsabilidade social. Para quem trabalha no tema da sustentabilidade, como é o meu caso, há muitos anos, estamos perante uma mudança de paradigma, de uma fase de nicho, para uma fase de investimento em grande escala. De uma retórica essencialmente ambientalista para uma lógica de investimento verde enquanto oportunidade de desenvolvimento, de negócio, de crescimento e de prosperidade para os povos e para as empresas. Portanto penso que há uma janela de oportunidade que não podemos deixar de encarar.

Que oportunidades são essas?

JMS: A sustentabilidade já não é só ambiental. Falávamos do ministro do Ambiente. Em muitos casos, e em muitos países, é o que acontece: associam-se finanças sustentáveis ao ministério do Ambiente. Já não estamos nesse contexto. Espero que os Governos, começando pelo português, possam encarar a sustentabilidade do investimento numa lógica mais abrangente, que é a dos 17 objetivos de sustentabilidade da agenda 2030, que incluem ambiente, combate às alterações climáticas, preservação dos ecossistemas, mas também associados à erradicação da pobreza, combate às desigualdades, à igualdade de género, à manutenção da paz, às cidades sustentáveis… Portanto estamos a falar de um conjunto de objetivos que ultrapassam largamente a mera abordagem ambiental.

Estamos perante uma mudança a um ritmo e numa direção muito significativos. Hoje já existem 30 biliões de dólares de ativos que têm algum tipo de preocupação de sustentabilidade. Claro que ter preocupações de sustentabilidade não significa que estejam totalmente alinhados com os 17 objetivos de sustentabilidade. Mas temos, por outro lado, a noção de que existem 380 biliões de dólares no mercado de capitais e nos fundos de pensões, o que é muito mais do que precisamos anualmente para cumprir os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS). Para isso, são precisos 2,5 biliões de dólares anuais a mais do que temos hoje, nomeadamente para os países mais pobres. Mas o mercado de capitais e os fundos de pensões já têm 380 biliões de dólares de volume. Bastaria 1% desse mercado para o planeta ter o problema dos ODS resolvido.

Não havendo critérios uniformizados, como se sabe se estes 30 biliões são mesmo geridos de forma sustentável?

JMS: Penso que esse é o tema. O problema não é volume, é alinhamento. Se me perguntar se o problema é falta de financiamento ou de potencial de investimento, não é. Esse investimento e esse potencial de financiamento existem. A grande dificuldade é saber como é que existe mobilização, mas também alinhamento e impacto. Não basta mobilizar, não basta que o bolo aumente, é necessário que a forma de o repartir seja mais equitativa, sustentável e alinhada com os 17 ODS. E depois é preciso ter impacto e não greenwashing. Ora, isso só se consegue com três ou quatro grandes mudanças à escala global, mas que envolvem os níveis nacional e local.

Quais são as mudanças necessárias?

JMS: Primeiro, ao nível da medição. Não se podem gerir ou incentivar aquilo que não se consegue medir. E hoje temos um nível de mediação, nomeadamente do financiamento ao desenvolvimento que não é compatível com esta dinâmica do domínio privado. Hoje medimos bem a ajuda pública ao desenvolvimento. Faz parte das minhas obrigações na OCDE. Sabemos quanto é que os Estados atribuem aos países mais pobres, mas ainda não existe uma métrica suficientemente inclusiva e abrangente para medir todos os fluxos financeiros que envolvam também o setor privado. Portanto estamos a definir uma nova métrica — com um nome terrível de jargão técnico — que é a total official support for sustainable development. Vamos medir todo o fluxo financeiro para o desenvolvimento sustentável.

Em segundo lugar é necessário, nomeadamente para o investimento de impacto social, ter uma métrica compatível com esta designação “impacto”. Hoje temos 228 mil milhões de dólares de ativos à escala global associados ao investimento de impacto social, mas com uma fragmentação de regras, critérios e mecanismos muito grandes. Há mais de uma centena de políticas à escala global, em várias dezenas de países, que são muito diferentes. Não há uma definição única de impacto, uma única forma de medir esse impacto e estamos a lidar com políticas muito fragmentadas.

O que estão a fazer para uniformizar a definição de impacto?

Também aqui a OCDE está a definir neste momento o development impact framework para garantir que, pelo menos, no que tem a ver com investimento de impacto social no âmbito da ajuda ao desenvolvimento, ou seja, na lógica em que os privados se empenham — e não o Estado — com iniciativas de impacto social para os países do sul, que existe uma métrica comum.

Depois há uma outra noção que é muito importante, que é esta vertente da regulação dos mecanismos financeiros inovadores. Estamos a assistir a uma grande dinâmica nas green bonds, nas social impact bonds e nas sustainable impact bonds. Há um conjunto de iniciativas que hoje vale a pena encarar não numa lógica apenas de piloto porque já começam a ter uma certa escala e vale a pena que os reguladores, o mercado de capitais, o setor financeiro e a banca comercial olhem para este tema também numa perspetiva de level playing field para que se possa ir de nicho para uma lógica de escala comparável, competitiva, escrutinável e transparente.

Vale a pena que os reguladores, o mercado de capitais, o setor financeiro e a banca comercial olhem para este tema também numa perspetiva de level playing field para que se possa ir de nicho para uma lógica de escala comparável, competitiva, escrutinável e transparente.

Jorge Moreira da Silva

Diretor da cooperação para o desenvolvimento da OCDE

O contexto político está preparado para que se passe do nicho para a massificação?

JMS: Há a necessidade de fazer reformas estruturais para atrair o investimento. No campo das alterações climáticas, de pouco serve que o mercado de capitais ou sistema financeiro de repente assumam uma grande vontade de financiar o verde se não existem políticas de carbon pricing e de internalização na economia das externalidades ambientais. No fundo, temos de por um preço de carbono em tudo o que nos rodeia. Isso já está muito visível nas empresas que fazem parte do sistema de comércio de emissões europeu, mas é necessário alargar os mecanismos de tributação de carbono a setores que não estão integrados no comércio de emissões.

Hoje existe um debate vibrante a nível europeu, com o Green Deal, que também inclui esta questão do border tax adjustment, isto é, como se tratam os países, os bens, serviços e produtos de países que não têm metas ambientais, nomeadamente do Acordo de Paris tão compatíveis com o sistema europeu. Devem essas empresas ter vantagens competitivas ilegítimas ou devem ter mecanismos de tributação à entrada para que haja um nível de concorrência e competição mais leal? Este é um debate que está agora a acontecer. Isto para dizer que não basta falar de financiamento numa lógica voluntarista, os Estados também têm de fazer reformas e é necessário trabalhar nas métricas para haver transparência.

Se não falta liquidez, porque é que o financiamento não é mobilizado com impacto?

IU: Gostava de acrescentar a forma como o mercado está a abraçar este tema. Falei das green bonds e de outras formas de emissões de obrigações que estão a crescer, mas há também o lado da gestão das carteiras de ativos. A Euronext é uma gestora de muitos índices, calculamos muitos índices de bolsa europeus, outros mais locais, focados nas economias dos vários países, e até globais. Temos índices que vão muito além do que é a nossa pegada em termos das bolsas europeias que operamos. Mais de 800 índices.

Tivemos uma grande procura de mais índices. De todos os índices que calculámos nos últimos dois anos e que acrescentámos ao nosso portefólio, cerca de dois terços foram índices com critérios de sustentabilidade. E são procurados por gestores de carteiras internacionais, que estão cada vez mais a indexar e a replicar as suas carteiras em relação a estes índices. Mas há um movimento ao nível dos produtos de retalho. Estamos a desenvolver muitos índices para instituições financeiras, bancos, gestores de ativos que depois os usam para emitir certificados, depósitos, derivados ou warrants.

Em Portugal, há esse interesse dos investidores e das empresas?

IU: Do lado dos investidores, do mercado e dos cidadãos há uma enorme pressão. Do lado das empresas, que se confrontam com mais exigência em termos de reporte, há dúvidas. A CMVM fez uma consulta pública recentemente sobre o que o mercado precisa e o que espera deste tema das finanças sustentáveis e do regulador. Um dos temas em destaque foi o facto de as empresas de menor dimensão sentirem alguma falta de orientação e de conhecimento em relação à forma como devem abordar os investidores e o mercado em geral.

Portanto, a Euronext está a divulgar um guia para o reporte da informação não financeira, ou guia ESG [environment, social and governance] que vai ser distribuído a todo o mercado e aborda os vários temas da sustentabilidade: quais os temas que cada empresa no seu setor deve endereçar, que tipo de indicadores de critérios deve usar, como avalia temas, quais os standards de reporte a usar e se deve ou não haver certificação externa, legislação nos diferentes países.

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