Tiago Mateus, do BPF, explica a implementação da plataforma interna de IA, defende a necessidade de uma gigafábrica em Portugal e destaca a importância de investir em cibersegurança.
O Banco Português de Fomento (BPF) lançou este mês uma plataforma interna, o Fomento.AI, suportada por inteligência artificial (IA) para aumentar a eficiência e a produtividade. Em entrevista ao ECO, Tiago Mateus, Chief Technology and Operations Officer do BPF, explica o que está a ser implementado e o trabalho que está a ser feito junto dos colaboradores.
O responsável pela área de tecnologia e operações acredita que a IA é uma tecnologia revolucionária que vai criar empregos e explica os pilares mais importantes e a base tecnológica do Banco. Tiago Mateus acrescenta ainda que o LLM português Amália terá um papel relevante no futuro, defende que Portugal precisa de uma gigafábrica e detalha outros investimentos estratégicos.
Quando começaram a preparar o Fomento.AI?
A ideia começou a ganhar escala no início de outubro. Conseguimos acelerar o projeto porque sabíamos exatamente aquilo que queríamos. Portanto, foi muito fácil desenvolver isto. Eu próprio fiz o desenho, fiz exatamente as features que nós precisávamos e a Glint, que também tem alguma experiência em soluções deste tipo, customizou a solução à nossa imagem e foi um tema relativamente fácil de desenvolver.
A implementação, o setup da ferramenta, é que demorou um bocadinho mais e estamos ainda a consolidar este tema até porque isto está instalado na nossa infraestrutura.
Quais são os principais objetivos que o banco espera alcançar com a nova plataforma? E como é que vão medir o sucesso?
Na prática, o principal objetivo passa por ganhos de eficiência operacional, maior rigor, segurança e compliance. Por isso, é relativamente fácil medir esses ganhos: nos use cases que estamos a implementar, conseguimos comparar o tempo médio de reporte e de preparação de um dossiê antes da implementação com o tempo médio que a ferramenta nos permite hoje.
Estão a usar o LLM Amália na vossa plataforma?
Não. O que estamos a utilizar é da OpenAI. E depois vamos ter a possibilidade de integrar outros motores, nomeadamente o ChatGPT, mas estamos em processo de aquisição de licenças.
Teme que o Amália seja um projeto que não vai ter uso por parte da Administração Pública?
Acho que vai, mas ainda tem um caminho a percorrer. Projetos desta magnitude exigem tempo, são motores que precisam de ser bem treinados e de compreender profundamente o ecossistema e a informação que têm de interpretar. Por isso, não é com um estalar de dedos que se lança um projeto Amália totalmente português.
Vai demorar o seu tempo, naturalmente, mas será avaliado quando estiver mais musculado e consolidado.
Quanto tempo pode demorar até ser implementado?
Não sei. Não tenho aqui uma bola de cristal, mas eu penso que ainda em 2026. A expectativa era essa.

Qual o valor investido no Fomento.AI?
Este investimento não foi da ordem das centenas de milhares de euros, aliás, foi um investimento relativamente baixo. Isso deve-se ao facto de sabermos exatamente o que pretendíamos. O Banco Português de Fomento foi quem desenhou o projeto, pelo que não se tratou de uma iniciativa muito longa nem excessivamente densa.
O nosso parceiro, a Glintt, teve essencialmente como função desenvolver o front-end exatamente de acordo com as nossas especificações e integrar um motor de LLM de utilização livre. No final, foi um projeto relativamente barato.
Em que casos práticos é que os colaboradores vão notar impacto no dia-a-dia?
Há um use case muito prático e fácil de compreender. Temos informação extremamente dispersa, em pontos de rede, caixas de e-mail e até no nosso portal externo. Esta ferramenta permite mapear toda essa informação: notícias, documentação, manuais, procedimentos, normas, bem como fazer o screening contínuo do nosso portal externo, onde tudo isso é publicado.
A partir dessa base, a ferramenta consegue cruzar a informação previamente definida e atualizada de forma recorrente com a informação local – aquela que reside nos portáteis dos colaboradores, no OneDrive e nas caixas de e-mail.
Com um prompt muito simples, o colaborador consegue iniciar uma conversa com o agente e, em poucos segundos, obter um documento, uma análise ou uma síntese clara sobre o tema que procura. A grande vantagem desta ferramenta [do Fomento.AI] é precisamente esta capacidade de interação: perguntar algo, conversar com o agente sobre um determinado assunto e, tendo toda a documentação já pré-mapeada, permitir que os colaboradores obtenham respostas de forma rápida, simples e contextualizada.
Como está a ser a implementação junto dos colaboradores? Sentem que há resistência da parte deles?
Ainda não lançámos o Fomento.AI em toda a organização. Neste momento, está disponível para o grupo que designamos Power Users, e estamos a recolher as suas opiniões. Queremos perceber como os colaboradores experienciam as vantagens e desvantagens da ferramenta.
Felizmente, as vantagens superam claramente as desvantagens, e o projeto está a revelar-se um sucesso. Com base neste levantamento, decidiremos a extensão do lançamento para toda a organização e recolheremos mais feedback.
Até agora, o feedback tem sido extremamente positivo. A rapidez e a agilidade com que a ferramenta ajuda os colaboradores a resolver problemas é notória — as pessoas estão realmente a gostar de a utilizar.
Vai ser implementado de cima para baixo, na organização?
Sim.
Portugal precisa de uma gigafábrica.
Sentiam que, de alguma forma, por parte dos colaboradores, eles já pediam ferramentas de IA?
A nossa atividade enquanto banco promocional envolve muita complexidade regulamentar, pelo que somos extremamente exigentes em termos de rigor, segurança e compliance.
Os próprios colaboradores reconheciam a necessidade de ferramentas deste tipo.
Plataformas como o Copilot ou ChatGPT aprendem com a documentação e com as questões colocadas pelos colaboradores, pelo que ter estas ferramentas num ambiente controlado oferece maior segurança — tanto para a organização como para os próprios colaboradores. A ferramenta tem sido muito bem recebida e só foi possível adotá-la porque os próprios colaboradores já manifestavam esta necessidade.
O BPF tem programas de requalificação para os profissionais que estão menos aptos para trabalhar com ferramentas de IA?
Com o apoio da direção de comunicação do banco, estamos a desenvolver uma série de tutoriais e programas de formação para que todos os colaboradores estejam na mesma página e com o mesmo nível de conhecimento sobre este tipo de tecnologia.
Quando contratam já exigem o requisito de ser ‘AI ready’?
Temos uma idade média de colaboradores de 36 anos, o que facilita imenso a adaptação a estas tecnologias. A nossa geração, e mesmo a anterior, está bastante apta a lidar com ferramentas digitais. Recentemente li um artigo que indicava que profissões vão desaparecer e aquelas que vão surgir, entre as novas, destaca-se o prompt engineering. Haverá certamente especialistas em prompts de IA, que serão valiosos em qualquer indústria.
Não se trata de uma exigência formal, mas é algo intrínseco: tanto à idade média da nossa equipa como ao tipo de formação que valorizamos para integrar o banco. Felizmente, contamos com quadros formados nas melhores universidades de Portugal, onde o contacto com estas tecnologias começa cedo, e isso reflete-se nas competências que procuramos nos nossos colaboradores.
Sobre a gigafábrica de IA e no caso de não vir para Portugal como é que o BPF vê esta situação?
Neste momento, não estou nas melhores condições nem no melhor timing para responder a essa pergunta com detalhe. O que posso dizer é que Portugal precisa de uma gigafábrica.
Quais são as principais prioridades tecnológicas do Banco de Fomento para os próximos anos?
Chegámos ao Banco Português de Fomento há cerca de um ano. Encontrámos uma instituição que resultou da fusão de três entidades e, como consequência, tínhamos 24 aplicações diferentes, que eu costumo chamar, com alguma ironia, de uma autêntica manta de retalhos.
Algumas coisas funcionavam muito bem, outras menos. Decidimos então definir um plano estratégico de transformação digital baseado em cinco pilares: infraestrutura resiliente e escalável, experiência de cliente distintiva, eficiência operacional, inovação e agilidade, e segurança e conformidade. A partir destes pilares, definimos work streams e iniciativas estratégicas. Começámos por adotar metodologias ágeis, centradas em MVPs bem definidos, o que nos permitiu afunilar a organização para o desenvolvimento de produtos de software.
Um exemplo é o canal com a banca comercial, onde os nossos parceiros submetem candidaturas para linhas protocoladas e outros produtos, incluindo capital e crédito. Este foco permitiu-nos aumentar densidade e qualidade no desenvolvimento destes produtos.
Nos próximos anos, vamos lançar um conjunto de produtos que trarão mais agilidade, eficiência, segurança e rigor comparativamente ao que temos hoje. Entre eles está também o novo portal para empresas, que permitirá a empresários e empresas aceder ao seu portfólio de produtos, consultar ofertas e verificar garantias pré-aprovadas, quer de curto, quer de médio e longo prazo.
Nos últimos meses, mudámos o nosso data center, que antes tinha condições delicadas. Com o apoio de um fornecedor, conseguimos garantir redundância e escalabilidade, permitindo agora soluções na cloud. Por fim, em termos de eficiência operacional, temos processos muito manuais, que estamos progressivamente a automatizar com robotização e com o uso de inteligência artificial, nomeadamente através do Fomento.AI.
Em resumo, os próximos anos vão focar-se na implementação dos cinco pilares estratégicos e no lançamento de vários produtos e novidades, tanto para a banca comercial e empresas, como no âmbito interno da organização.
Quantas pessoas trabalham no Banco de Fomento?
232 no BPF. No grupo, cerca de 650.
No banco há cinco pilares: infraestrutura resiliente e escalável, experiência de cliente distintiva, eficiência operacional, inovação e agilidade, e segurança e conformidade.
Quais são talvez os maiores desafios regulatórios e de compliance que sentem no setor tecnológico?
Nós estamos focados em soluções de cibersegurança. Portanto, apesar de não sermos um banco transacional, como se fosse um banco comercial, temos informação delicada, temos informação dos nossos colaboradores, temos informação de contratos com os nossos clientes e, portanto, é uma obsessão estar aqui com tecnologias e ferramentas de cibersegurança de última geração.
E depois cumprir com aquilo que é regulamentação nacional e internacional, considerando que somos supervisionados pelo Banco de Portugal.
A área de cibersegurança neste momento é uma área onde o Banco de Fomento está a apostar muito e a investir?
É um dos pilares estratégicos, segurança e conformidade, como eu referi. É um dos cinco pilares.
Pode-se dizer que é quase mais importante neste momento investir em cibersegurança do que em IA?
Eu acho que se coadunam. Ao desenvolvermos uma ferramenta interna de IA, já estamos a proteger a documentação, a segurança e as interações com estes agentes. Estes motores estão dentro do banco, nas nossas instalações, o que garante um ambiente controlado.
Por outro lado, se utilizássemos um ChatGPT diretamente no browser, estaríamos a colocar em risco informação bancária sensível, algo que aqui conseguimos evitar.
As organizações estão a começar a utilizar IA mas se não for feito o trabalho do outro lado de cibersegurança, pode correr mal.
Exatamente. Começámos por aí. Queremos ter os motores de IA nas nossas instalações, e não em outro local. Não sei se todos seguem este caminho, mas vários pareceres e entendimentos internacionais indicam que esta é a melhor prática.
Há informação muito confidencial e sensível que não pode ser partilhada fora do banco, não é?
Quando interagimos com o ChatGPT via browser, o motor aprende e interpreta tudo o que lhe é fornecido, incluindo documentação. Por isso, colocar relatórios ou dados de clientes num ambiente externo é sempre arriscado sem as devidas salvaguardas.
Tem sido um caminho desafiante e intenso. A transformação digital e a melhoria da eficiência operacional não se fazem em três ou seis meses. Começámos por conhecer as pessoas, a tecnologia e as ferramentas que tínhamos disponíveis. Podem perguntar o que mudou? Em termos de resultados, um banco que em 2024 produzia 500 milhões de euros por ano e passou a produzir mais de 6 mil milhões de euros… Mas a verdadeira mudança foi cultural.
Implementar uma nova cultura organizacional não acontece de um dia para o outro. A nossa Comissão Executiva, vinda de empresas privadas, trouxe um mindset privado e uma abordagem orientada a resultados. O sucesso tem sido, precisamente, motivar as pessoas, mostrar a missão própria do Banco Português de Fomento e criar um ambiente em que a cultura desejada se vai entranhando gradualmente.
Será a IA o elemento mais diferenciador dos últimos 20, 30 anos, quer para as pessoas, quer para as organizações?
Em termos de trabalho, esta ferramenta vai transformar o ritmo e a perceção imediata das pessoas sobre determinado assunto. Passar de uma simples consulta no Google para uma conversação com uma ferramenta de IA muda completamente a forma como obtemos respostas.
É, sem dúvida, uma transformação titânica, e tenho a certeza de que esta evolução vai continuar.
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