A face oculta da bitcoin após tombo de 52% em quatro meses

Concentração da mineração, ameaça da computação quântica e fuga massiva de investidores de fundos que investem em bitcoin revelam fissuras de um mercado que vivia da promessa de valorização contínua.

Do máximo histórico de 126 mil dólares em outubro ao abismo dos 60 mil dólares na semana passada, a bitcoin protagonizou uma das correções mais acentuadas da sua história nos últimos quatro meses, apagando mais de metade do seu valor e arrastando consigo dois biliões de dólares de capitalização do mercado global de criptoativos.

O colapso ocorre precisamente poucos dias depois de Donald Trump, em Davos, voltar a garantir que estava a trabalhar “para garantir que os EUA continuem a ser a capital mundial das criptomoedas”, revelando que nem o apoio presidencial consegue travar a volatilidade inerente a um ativo que continua a procurar o seu lugar no sistema financeiro global.

A descida vertiginosa da cotação da maior criptomoeda do mundo expõe as fragilidades de um mercado que, durante meses, acreditou numa subida sem limites. Mas a realidade mostrou-se mais cruel.

A 6 de fevereiro, a bitcoin tocou os 60.074 dólares, o valor mais baixo desde setembro de 2024, antes da eleição de Trump. Três dias depois, registou uma recuperação parcial, voltando a ultrapassar os 70 mil dólares, num movimento que ilustra a montanha-russa em que se transformou o investimento em criptoativos.

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A nomeação de Kevin Warsh por parte de Trump como próximo presidente da Reserva Federal dos EUA (Fed) funcionou como o gatilho imediato para a intensificação das perdas dos criptoativos. Os analistas do Deutsche Bank identificaram esta escolha como o elemento que “desencadeou” a última vaga de vendas de bitcoin.

Warsh é conhecido por defender políticas monetárias restritivas e um balanço mais reduzido da Fed, uma postura que historicamente pressiona ativos especulativos como os criptoativos. “O mercado teme um hawk com ele”, explicou Manuel Villegas Franceschi, analista do Julius Baer à Reuters.

Uma política monetária mais apertada, com taxas de juro elevadas por mais tempo e menor liquidez no sistema, retira oxigénio aos ativos de risco. E os criptoativos beneficiam tradicionalmente de um balanço expandido da Reserva Federal, que inunda os mercados de liquidez e torna o capital mais barato.

Os ETP de bitcoin registaram saídas líquidas superiores a 3 mil milhões de dólares em janeiro, depois de já terem perdido 2 mil milhões em dezembro e 7 mil milhões em novembro.

A queda da bitcoin coincide também com uma reversão dramática nos fluxos dos fundos negociados em bolsa (ETP). Após terem sido apontados como o motor da valorização em 2024 e 2025, os ETP de bitcoin registaram saídas líquidas superiores a três mil milhões de dólares em janeiro, depois de já terem perdido dois mil milhões em dezembro e sete mil milhões em novembro.

“Esta venda constante sinaliza que os investidores tradicionais estão a perder interesse e o pessimismo geral sobre as criptomoedas está a crescer”, destacam os analistas do Deutsche Bank numa nota enviada aos seus clientes.

Correlação da bitcoin com as ações tecnológicas

Ao contrário da narrativa de que a bitcoin seria um ativo descorrelacionado e uma proteção contra crises, a maior criptomoeda do mundo tem seguido de perto o desempenho das ações tecnológicas. Quando o índice Nasdaq resvalou há dias, arrastado por receios sobre o impacto da inteligência artificial nas empresas de software, a bitcoin acompanhou a queda.

A correção do setor tecnológico acelerou a liquidação de posições alavancadas em criptoativos, com mais de mil milhões de dólares em posições de bitcoin liquidadas em apenas 24 horas no início de fevereiro.

Segundo dados da plataforma CoinGecko, que acompanha o desempenho de vários criptoativos, o mercado global cripto perdeu cerca de dois biliões de dólares desde o pico registado em outubro do ano passado, com mais de um bilião evaporado apenas no último mês.

A bitcoin acumula perdas de 18% desde o arranque do ano, enquanto ethereum e solana, segunda e terceira maiores criptomoedas por capitalização de mercado, acumulam perdas de quase 30%.

“A bitcoin deixou de negociar com base no entusiasmo. Perdeu parte dessa narrativa e está agora a negociar com base em pura liquidez e fluxos de capital”, afirmou Maja Vujinovic, CEO de ativos digitais na FG Nexus, em entrevista à CNBC.

Ethereum e solana, a segunda e terceira maiores criptomoedas por capitalização de mercado, sofreram perdas ainda mais acentuadas. Ambas acumulam quase 30% desde o arranque do ano, face aos 18% de perdas da bitcoin.

Nuno Serafim, gestor do fundo nacional 3CC Global Crypto Fund, que em dezembro tinha uma exposição de 82% a bitcoin, 11,3% a ethereum e 1,39% em solana, explica esta diferença de volatilidade: “a bitcoin será sempre, dentro dos ativos digitais, aquele que terá menor volatilidade” enquanto “Solana e Ethereum são plataformas tecnológicas cuja evolução do preço dos seus tokens estará sempre associada aos casos de uso que desenvolvam e à taxa de adoção desses casos de uso” e “essa adoção levará a um aumento da procura dos seus utility tokens e, por conseguinte, ao seu preço.”

O gestor acredita que ambas as plataformas têm futuro, notando que o “ethereum e solana terão o seu espaço em função de méritos diferentes”, acrescentando que “uma das áreas de maior crescimento e potencial no espaço do Blockchain está na tokenização de ativos, onde as stablecoins são o exemplo de maior sucesso.”

Segundo Nuno Serafim, “essa tokenização passará em grande parte por redes descentralizadas, como a rede Etehereum, que neste momento já absorve a grande parte deste tipo de projetos e, assim continuará a ser num futuro próximo.”

As três maiores minas controlam mais de 60% do ritmo de extração global de bitcoin, com a Foundry USA a liderar com 31,69% dos blocos minerados. Por países, os EUA dominam 37,8% da mineração global de bitcoin, seguidos pela Rússia com 15,5% e pela China com 14,1%. A rede consome mais de 170 terawatt-hora anuais, embora 54% já provenha de fontes de energia renovável em 2025. Michael Förtsch @Unplash

Futuro incerto para a bitcoin

A rede de Bitcoin funciona como um sistema de pagamentos descentralizado, sem qualquer entidade central como um banco central ou Governo a controlá-la, com todas as regras codificadas no próprio protocolo informático. Foi criada com o objetivo de substituir euros e dólares nas carteiras dos consumidores, mas essa visão nunca se tornou realidade.

Jerome Powell, presidente da Fed, foi claro em dezembro ao classificar a bitcoin como “um ativo especulativo, como o ouro, mas digital”, frisando que não é um meio de pagamento nem uma forma de reserva de valor.

Nuno Serafim contesta esta visão sobre a reserva de valor. “Penso que existe um desconhecimento geral, mesmo entre profissionais, de quais as características funcionais de um ativo ‘reserva de valor'”, notando que a “baixa volatilidade não está listada entre essas características em nenhuma literatura credível que aprofunde sobre o tema.”

A realidade é que a maioria das pessoas não compra bitcoin por acreditar no seu papel como moeda ou reserva de valor. Compra para especular, para lucrar com a subida dos preços.

Nesse sentido, o gestor do único fundo nacional que investe em criptoativos considera que “o ouro e a bitcoin são, sem sem dúvida, reservas de valor, cada um com a sua história, pelo facto de serem meios de preservação de valor a longo prazo, terem escassez de oferta, durabilidade, portabilidade, divisibilidade, liquidez e, já agora, volatilidade.”

A realidade é que a maioria das pessoas não compra bitcoin por acreditar no seu papel como moeda ou reserva de valor. Compra para especular, para lucrar com a subida dos preços. Mas a bitcoin enfrenta riscos estruturais significativos.

  • Concentração da mineração: no ano passado, mais de 60% dos blocos mineradores foram realizados por apenas três grupos — AntPool, Foundry USA e ViaBTC. Se um único consórcio controlar metade do poder computacional da rede, poderá manipular transações e vender a mesma bitcoin mais do que uma vez.
  • Ameaça da computação quântica também paira sobre o sistema: investigadores da Google anunciaram avanços significativos com o processador Willow, capaz de realizar em minutos cálculos que levariam biliões de anos em computadores convencionais.
  • A volatilidade é outra marca distintiva. Um fundo cotado de bitcoin como o CoinShares Physical Bitcoin ETP é cinco vezes mais volátil do que investir em ações dos mercados desenvolvidos e sete vezes mais volátil do que uma carteira equilibrada de ações e obrigações.
  • O impacto ambiental também não pode ser ignorado. Os mineiros de bitcoin consomem anualmente mais de 170 terawatts-hora de eletricidade, segundo estimativas da Universidade de Cambridge, o suficiente para colocar a “nação Bitcoin” como a 24.ª mais consumidora de energia do mundo, entre a África do Sul e o Egito.

Previsões divididas entre os especialistas

O futuro da bitcoin divide os analistas. Michael Burry, o investidor que ficou famoso por apostar contra o mercado imobiliário americano em 2008, alertou recentemente que os mineiros irão “à falência” e serão “forçados a vender” as suas reservas se a bitcoin cair abaixo dos 50 mil dólares. Além disso, Michael Burry referiu na sua conta do Substack que “não há nenhuma razão orgânica para que a bitcoin diminua ou pare a sua queda”.

Dados da plataforma de apostas Polymarket indicam que cerca de um terço dos utilizadores acreditam que a Bitcoin descerá abaixo dos 60 mil dólares em fevereiro e com 16% a apostar numa queda abaixo dos 55 mil dólares, mas com 69% dos utilizares a preverem que a bitcoin possa cotar acima dos 75 mil dólares.

Youwei Yang, economista-chefe da Bit Mining, prevê uma amplitude alargada para 2026, com a Bitcoin a negociar entre 75 mil e 225 mil dólares. “O ano de 2026 poderá ser forte para a bitcoin, apoiado por possíveis cortes nas taxas de juro e uma atitude regulatória mais favorável às criptomoedas”, afirmou o especialistas à CNBC, acrescentando que “é provável uma volatilidade elevada no meio de incertezas macroeconómicas e geopolíticas persistentes”.

A Stifel, uma empresa de investimento e research norte-americana, estima que a bitcoin possa cair até aos 38 mil dólares, apontando uma nova tendência de correlação da criptomoeda com o dólar americano.

A nossa melhor estimativa [para a bitcoin] é de que ocupará progressivamente um maior peso nas carteiras dos investidores, quer institucionais quer particulares, pelo que é expectável que o seu preço se mantenha numa trajetória ascendente de longo prazo.

Nuno Serafim

Gestor do fundo nacional 3CC Global Crypto Fund

Já a 10X Research projeta uma descida até aos 50.000 dólares após uma pequena recuperação de curto prazo. “Penso que vamos ter uma pequena subida de contra tendência que poderá andar de lado ou recuperar um pouco”, disse o analista Markus Thielen, acrescentando que “durante o verão fazemos outro mínimo”.

Nuno Serafim, do 3CC Global Crypto Fund, recusa fazer previsões de curto prazo, notando que “as projeções para a bitcoin ou outro qualquer ativo são exercícios especulativos pelo que é algo que não gostamos de fazer.”

Porém, o gestor destaca que a bitcoin “ocupará progressivamente um maior peso nas carteias dos investidores, quer institucionais quer particulares, pelo que é expectável que o seu preço se mantenha numa trajetória ascendente de longo prazo”, sublinhando que, “no curto prazo, o facto de ser um ativo em estágio inicial de adoção e, também por isso, de elevada volatilidade, será natural assistir a deslocações de preço de grande amplitude em função de alterações do apetite de risco, liquidez, taxas de juro, adoção da tecnologia blockchain e regulação.”

Este domingo, a bitcoin negociava ligeiramente acima dos 71 mil dólares, ainda 44% abaixo do seu máximo histórico. O caminho para a recuperação permanece incerto, dependente de fatores que vão desde a política monetária da Fed até ao apetite dos investidores institucionais por ativos de risco.

Por agora, a promessa do “ouro digital” parece mais distante do que nunca, substituída pela realidade crua de um mercado especulativo exposto à sua própria fragilidade.

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