Advocacia sem fronteiras: a aposta no mercado asiático

A CMS, a Melo Alves e a Morais Leitão são três firmas que apostaram no mercado asiático. Revelaram que o impacto da entrada na Ásia no crescimento e posição global das firmas foi muito positivo.

Depois de África, a Advocatus “voou” até ao mercado asiático para perceber quais são as oportunidades de negócio das sociedades de advogados. Um mercado que, segundo os escritórios, é “altamente dinâmico” e com economias com crescimentos “muito significativos”.

A CMS, a Melo Alves e a Morais Leitão são três firmas que apostaram nesse mercado e que pretendem continuar a potencializar os seus negócios nessa geografia. Por exemplo, a Morais Leitão decidiu abrir em 2023 um escritório próprio em Singapura, liderado pelo sócio André Sousa Vieira, e que conta com três advogados portugueses. Segundo a firma, esta escolha estratégica permite-lhes assegurar uma presença lusófona efetiva na Ásia, oferecendo aos clientes serviços de “proximidade” e “elevada qualidade”.

“O nosso objetivo principal foi o de estabelecer relações sólidas com clientes asiáticos interessados em investir tanto em Portugal como nos mercados lusófonos africanos, onde temos uma forte presença”, explica a diretora internacional Ana Robin de Andrade. A firma destaca ainda a importância da região da Ásia-Pacífico (APAC) como “polo gerador de investimento para Portugal e para a África Lusófona”.

Segundo a diretora, a escolha de Singapura foi óbvia, quer pela sua “estabilidade política e jurídica”, quer pelo “ambiente de negócios robusto” e pela “atratividade enquanto hub financeiro estratégico para toda a região APAC”. “A partir de Singapura, podemos chegar a clientes desde a China à Austrália, passando pela Coreia, Indonésia e Japão. De igual modo, mas em sentido inverso, podemos acompanhar, desde Singapura, investimentos portugueses e africanos em todos estes países”, refere.

Mais a norte de Singapura, a Melo Alves apostou no território chinês, por ter uma comunidade empresarial “altamente dinâmica”, uma classe média em “rápido crescimento” e um número crescente de cidadãos interessados na internacionalização.

Jorge Chang é o sócio responsável pela Asian Desk, sendo a sua origem asiática o principal motivo para a ligação a este mercado ter sido feita de forma “natural” e “estratégica”. “O meu objetivo foi sempre criar uma ponte jurídica e cultural de forma eficaz entre a Ásia e Portugal”, disse o sócio da Melo Alves.

Apostamos numa estratégia de eficiência e proximidade cultural, com base em parcerias locais bem selecionadas — escritórios de advogados, consultores e agentes com profundo conhecimento do mercado. Esta abordagem permite-nos manter uma estrutura ágil, com presença estratégica e, ao mesmo tempo, garantir qualidade e confiança junto dos clientes da Melo Alves”, sublinha Jorge Chang.

Outros dos players que apostaram no mercado asiático foi a CMS, impulsionada pela vontade de estar presente nestas economias que registam crescimentos “muito significativos”.

“Fundimos dois dos nossos escritórios de Hong Kong para uma integração perfeita e a CMS Singapura tem uma aliança jurídica formal com a Holborn Law para oferecer aconselhamento jurídico internacional e em Singapura. Na Índia, estabelecemos uma parceria com uma das sociedades líderes naquele mercado, a induslaw, que se juntou recentemente à CMS, abrindo novas oportunidades”, refere o managing partner José Luís Arnaut.

A CMS opera na Índia, Singapura, Hong Kong e China, mercados que, segundo a firma, são “estrategicamente importantes” para os clientes. “Os nossos centros em Hong Kong e Singapura estão estabelecidos há muito tempo e apoiam as necessidades dos clientes no norte e sudeste da Ásia, oferecendo-lhes uma ampla gama de serviços. Os nossos escritórios em Pequim e Xangai atendem à procura dos clientes em áreas específicas, enquanto a nossa recente entrada na Índia reflete o rápido crescimento económico do país”, acrescenta.

No que toca às áreas de prática, os três escritórios revelam que naquelas geografias exercem desde Imigração e Nacionalidade, Imobiliário e Investimento Estrangeiro, Direito Comercial e Societário, Direito Penal e Compliance empresarial, Energia e M&A e ainda Arbitragem Internacional e Financiamento de Projetos, entre outros.

Dos desafios ao sucesso

A aposta no mercado asiático foi recebida positivamente por parte dos clientes destes três players e, segundo Jorge Chang, estes valorizam não só a “competência técnica” como também a capacidade das firmas compreenderem o contexto cultural e as suas prioridades. “A confiança é um valor central na cultura asiática e ter um interlocutor jurídico que fala a mesma língua — no sentido literal e figurado — é uma vantagem competitiva clara”, revela o sócio da Melo Alves.

No caso da Morais Leitão, que entrou no terceiro ano a operar na Ásia, o balanço é “muito positivo” e assumem que demonstraram o valor acrescentado da rede Morais Leitão Legal Circle através de equipas mistas compostas por advogados dos vários escritórios, “aliando experiência internacional com profundo conhecimento local”.

Apesar da boa recetividade, existem desafios a ultrapassar, como encontrar a equipa certa e a adaptação ao mercado ao nível regulatório. Na Melo Alves o maior desafio tem sido encontrar e formar a equipa certa, ou seja, profissionais qualificados, bilíngues e com sensibilidade cultural para trabalhar entre dois sistemas jurídicos e realidades de negócio tão diferentes. “Construir esta equipa exigiu tempo, mas tem sido fundamental para garantir consistência e qualidade”, refere Jorge Chang.

Por outro lado, na Morais Leitão a entrada em Singapura é “bastante exigente ao nível de regulação aplicável a uma sociedade de advogados”, uma vez que é um mercado jurídico muito “maduro”, onde compete diariamente com as grandes firmas globais.

O desafio que temos é o de explorar plenamente a rede Morais Leitão Legal Circle, não só perante o cliente final, mas também junto dessas firmas internacionais. A reputação que temos em Portugal, na Europa e África lusófona revela o nosso conhecimento profundo dos mercados lusófonos, mas queremos ir mais longe e fazer essa prova localmente, perto do cliente”, assume Ana Robin de Andrade.

Também na CMS o maior desafio foi adaptarem-se às “nuances” asiáticas e a reorientação das equipas para adotarem uma abordagem centrada no mercado. “No entanto, fizemos progressos significativos através da colaboração regular e da troca de ideias dentro da nossa organização global e dos nossos grupos setoriais”, garante o managing partner.

Procura de serviços é crescente

Desde o crescimento económico sustentado até à resiliência, várias são as oportunidades que os advogados identificam no mercado asiático. “A Ásia apresenta uma oportunidade de crescimento significativa para o futuro. Vemos um potencial significativo para desenvolver o nosso modelo, que tem tido um enorme sucesso, nos mercados asiáticos e esperamos expandir significativamente o âmbito do nosso apoio aos principais clientes nestes mercados”, assume José Luís Arnaut.

Já Ana Robin de Andrade sublinha que, num contexto global de crescente instabilidade geopolítica a nível global, a região APAC destaca-se pela “resiliência”, “dinamismo económico” e “capacidade de adaptação”. “Esta região continuará certamente a desempenhar um papel determinante no equilíbrio económico internacional, sendo simultaneamente mercado gerador e recetor de investimento estratégico, particularmente para África”, acrescenta.

Por outro lado, Jorge Chang aponta oportunidades como um “crescimento económico sustentado”, a “internacionalização crescente das famílias asiáticas” e o “aumento do investimento estrangeiro”.

Uma coisa certa, todos consideram que existe uma tendência “clara” de crescimento na procura por serviços jurídicos especializados na Ásia. “Existe uma procura crescente por serviços jurídicos de alta qualidade, mas uma oferta ainda limitada, sobretudo no que diz respeito à ligação com países como Portugal. Muitos clientes asiáticos querem investir ou mudar-se para a Europa, mas enfrentam barreiras linguísticas, jurídicas e culturais”, revela o sócio da Melo Alves.

Num balanço feito à Advocatus, os três escritórios revelam que o impacto da entrada na Ásia no crescimento e posição global das firmas foi muito positivo e, no caso da CMS, a recente aposta no mercado indiano, com a integração da firma full service induslaw, potenciou esse crescimento. Com esta incorporação, a dimensão da CMS aumentou significativamente: passamos a ter 7.200 advogados, em 50 países”, revela José Luís Arnaut.

Questionados se pretendem expandir-se para novos mercados asiáticos, a Melo Alves avançou que o foco é o Japão, por ser um país com um “elevado poder económico” e “estabilidade jurídica”. “Acreditamos que o Japão será um motor de crescimento estratégico a médio prazo, com um perfil de cliente que valoriza muito a qualidade, a discrição e a confiança”, avança o sócio.

No caso da Morais Leitão, celebraram no segundo semestre de 2024 uma parceria com o escritório JLA Advogados, em Timor-Leste, com o objetivo de expandir a sua presença e atuação na região.

Esta colaboração está a ser desenvolvida de forma muito promissora, com a exploração conjunta de múltiplas oportunidades num mercado em crescimento. Timor-Leste tem vindo a afirmar-se como um destino atrativo para o investimento, especialmente nos setores dos recursos minerais, oil & gas, imobiliário e turismo”, explica Ana Robin de Andrade, que acrescenta que a adesão plena de Timor-Leste à Associação das Nações do Sudoeste Asiático reforçará ainda mais essa atratividade.

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