O mercado de apostas da Polymarket conta com um volume milionário sobre os resultados das eleições presidenciais, com os apostadores a atribuírem a Seguro o papel de grande favorito à vitória.
- As sondagens indicam um empate técnico entre os candidatos às eleições presidenciais, mas a Polymarket atribui a António José Seguro uma probabilidade de vitória de 54%.
- A Polymarket já movimentou mais de 106 milhões de dólares em apostas sobre as eleições presidenciais.
- A plataforma Polymarket funciona numa rede de computadores descentralizada (blockchain) e usa verificadores automáticos para confirmar os resultados dos eventos
Enquanto as sondagens apontam para um empate técnico entre António José Seguro, João Cotrim Figueiredo e André Ventura a quatro dias da primeira volta das eleições presidenciais de 18 de janeiro, no mercado de criptoativos há quem esteja a pôr muito dinheiro no resultado final e a apontar claramente a um vencedor.
A plataforma de apostas Polymarket já movimentou mais de 106 milhões de dólares (cerca de 91 milhões de euros à cotação atual) em 13 apostas distintas relacionadas com a corrida a Belém, num fenómeno que mistura finanças descentralizadas, especulação e uma nova forma de medir o sentimento coletivo sobre eventos populares.
A aposta principal, que aponta para o vencedor final (incluindo a realização de uma eventual segunda volta), reuniu quase 102 milhões de dólares até esta quarta-feira em volume de apostas e atribui a António José Seguro uma probabilidade de vitória de 54%. Há precisamente um mês, esta mesma aposta atribuía uma probabilidade de vitória a Seguro de apenas 2,4%.
Nessa altura, o grande favorito à conquista da Presidência da República era Luís Marques Mendes, com uma probabilidade de vitória de 67,5% – hoje, o candidato apoiado pelo Governo tem uma probabilidade de vitória de apenas 16%, segundo os dados da Polymarket. Mas a história não fica por aqui.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
Considerando apenas as duas apostas centradas nos resultados da primeira volta – que já movimentaram em conjunto 2,7 milhões de dólares – André Ventura e Seguro encontram-se em “empate técnico” numa dessas apostas, com cada um a ter uma probabilidade de 45% e 43%, respetivamente, de vencer as eleições no próximo domingo. Segue-se a longa distância Cotrim Figueiredo (9%) e Marques Mendes (2%).
Na outra aposta centrada somente nos resultados da primeira volta, que aponta para o primeiro e segundo candidato mais votado no domingo, as probabilidades são mais renhidas, com António José Seguro e André Ventura novamente com valores muito próximos (33% e 32%, respetivamente), seguido de João Cotrim Figueiredo com uma probabilidade de 22%, deixando de fora a grande distância tanto Luís Marques Mendes (11%) e muito mais longe Henrique Gouveia e Melo (1%), como aponta também a última sondagem da Universidade Católica divulgada na terça-feira, apesar de com números mais baixos.
Já a aposta que pergunta especificamente quem passará à segunda volta, Seguro lidera destacado com 80% de probabilidade, seguido por Ventura com 75%, enquanto Cotrim Figueiredo tem 30% e Luís Marques Mendes apenas 14%. Os números das apostas da Polymarket traçam assim um cenário de vitória do líder do Chega ou de Seguro na primeira volta, seguida de uma segunda volta disputada por Ventura e Seguro com vitória deste último.
Os números das várias apostas da Polymarket sugerem que os apostadores veem uma corrida renhida na primeira volta, mas com desfecho previsível na segunda com vitória da António José Seguro.
Henrique Gouveia e Melo, que partiu para estas eleições como grande favorito, aparece na última sondagem em empate técnico com Luís Marques Mendes na terceira posição na primeira volta ao recolher apenas 14% das preferências de votos, e tem apenas 3% de probabilidade de chegar à segunda volta segundo os apostadores da Polymarket.
Os números desta plataforma de apostas sugere que os apostadores veem uma corrida renhida na primeira volta, mas com desfecho previsível na segunda – um cenário que, aliás, tem menos de 1% de probabilidade de não se concretizar, segundo outra aposta que se encontra a decorrer na Polymarket.
Há ainda apostas mais específicas, se bem que com muito menos volume, como a possibilidade e de apostar em quem vencerá na primeira volta no distrito de Lisboa, onde Seguro lidera com 75%, seguido por Cotrim Figueiredo com 18% e Ventura com apenas 6% – um padrão que reflete a tradicional geografia eleitoral portuguesa, com a capital mais favorável a candidatos de centro-esquerda e liberais.
Para quem não está familiarizado com o universo dos mercados de previsão baseados em criptoativos, a Polymarket pode parecer um conceito exótico. Mas o princípio é relativamente simples: em vez de responder a sondagens sem qualquer consequência, os utilizadores compram e vendem “ações” sobre resultados de eventos futuros usando a stablecoin USDC (uma criptomoeda ligada ao dólar norte-americano). Cada aposta oferece contratos binários — “sim” ou “não” — cujo preço varia entre 0 e 1 dólar, sendo que a soma das duas opções é sempre 1 dólar.
Por exemplo, se os apostadores acreditam que Seguro vai ganhar as presidenciais, podem comprar ações “sim” a 0,54 dólares (o preço atual reflete a probabilidade de 54%). Se Seguro vencer, cada ação valerá 1 dólar no final, conferindo-lhes um lucro de 0,46 dólares por ação. Se perder, a ação fica cai para 0 dólares, perdendo tudo.
Mas os apostadores podem vender as suas posições a qualquer momento antes dos resultados finais, permitindo lucrar com mudanças nas probabilidades sem esperar pelo resultado final. Por exemplo, quem há um mês apostou na vitória de Seguro, comprou cada ação a 0,065 dólares. Se não quiser levar a aposta até ao fim e vender hoje a 0,54 dólares, teria um ganho de 475 dólares por cada 1.000 dólares investidores, uma mais-valia de 631% em um mês!
A plataforma Polymarket funciona numa rede de computadores descentralizada (blockchain) que torna as transações mais rápidas e baratas, e usa verificadores automáticos para confirmar os resultados dos eventos quando chegam ao fim. Quando há ambiguidade, um Comité de Integridade de Mercado da própria Polymarket decide o desfecho. Atualmente, a plataforma não cobra taxas sobre as transações, embora isso possa mudar no futuro.
Da casa de banho ao clube dos multimilionários
A história da Polymarket é tão improvável quanto fascinante. Shayne Coplan tinha apenas 21 anos quando abandonou a Universidade de Nova Iorque no primeiro ano e começou a programar a plataforma de apostas na casa de banho do seu apartamento em Manhattan, em plena pandemia de Covid-19.
“Nova Iorque estava fechada e a questão era: quando é que isto vai acabar? Quando é que a vacina vai estar pronta?”, recordou Coplan numa entrevista ao programa 60 Minutes da CBS em dezembro.
A ideia era criar um mecanismo para agregar opiniões díspares e transformá-las numa única probabilidade, aproveitando o conceito económico da “sabedoria das multidões”, a teoria de que um grande grupo de pessoas, mesmo sem serem especialistas, pode prever resultados com notável precisão quando há incentivos financeiros envolvidos.
Lançada em junho de 2020, a Polymarket cresceu exponencialmente, mas o caminho não foi linear. Em janeiro de 2022, a Commodity Futures Trading Commission (CFTC), o regulador dos mercados de futuros nos EUA, multou a empresa em 1,4 milhões de dólares por operar uma plataforma de contratos de swaps sem o registo adequado. Coplan cooperou com as autoridades, pagou a multa e bloqueou geograficamente os utilizadores americanos — embora muitos tenham continuado a aceder através de VPN.
A 13 de novembro de 2024 outro incidente. Agentes do FBI invadiram a casa de Coplan, apreenderam os seus telemóveis e computadores, mas não o prenderam. Numa publicação no X, o fundador da Polymarket afirmou que a administração Biden estava a fazer “uma última tentativa para perseguir empresas que considera estarem associadas a adversários políticos”.
A reviravolta aconteceu em julho do ano passado, quando o Departamento de Justiça e a CFTC encerraram as investigações sem apresentar novas acusações. Logo depois, a Polymarket comprou a QCEX, uma bolsa licenciada pela CFTC, por 112 milhões de dólares, pavimentando o caminho para um regresso legal ao mercado americano.
Em outubro, a Intercontinental Exchange (ICE), que controla a Bolsa de Valores de Nova Iorque, investiu 2 mil milhões de dólares na Polymarket, avaliando a empresa em 9 mil milhões de dólares.
Poucos meses depois, em agosto, a Polymarket anunciou outro investimento polémico: a 1789 Capital, empresa de capital de risco co-fundada por Omeed Malik onde Donald Trump Jr., filho mais velho do atual presidente dos EUA, é sócio, investiu “dezenas de milhões de dólares” na empresa. Além disso, Trump Jr. juntou-se ao conselho consultivo da Polymarket, curiosamente, mantendo também um papel semelhante na Kalshi, a sua principal concorrente.
Questionado pelo “60 Minutes” sobre se a nomeação do filho do presidente Donald Trump visava obter influência política e proteção, Coplan recusou a interpretação: “Definitivamente não é para me proteger. Esta administração é muito pró-inovação e pró-cripto e pró-Polymarket, o que é incrível“, disse. “Sou um jovem empreendedor. Se tenho pessoas que acreditam no que faço, que entendem como a política funciona e podem ajudar-me a orientar-me e ensinar-me, não há nada de errado nisso”.
Hoje, aos 27 anos, Coplan é multimilionário, pelo menos no papel. Em outubro, a Intercontinental Exchange (ICE), que controla a Bolsa de Valores de Nova Iorque, anunciou um investimento de 2 mil milhões de dólares na Polymarket, avaliando a empresa em 9 mil milhões de dólares. Os dados da plataforma serão integrados na própria bolsa de Nova Iorque para ajudar investidores e traders a antecipar movimentos de mercado.
Entre a sabedoria das multidões e a manipulação
A legitimidade dos mercados de previsão como indicadores mais fiáveis do que as sondagens tradicionais ganhou força após as eleições presidenciais americanas de 2024.
Enquanto a maioria dos analistas dizia que a corrida entre Donald Trump e Kamala Harris era “demasiado renhida para prever”, a Polymarket atribuía 67% de probabilidade de vitória a Trump uma semana antes das eleições. Na noite da eleição de Trump como 47.º Presidente dos EUA, antes de o resultado ser oficialmente confirmado pela Associated Press, a plataforma de apostas de Coplan dava 95% de certeza a uma vitória de Trump.
Um estudo académico publicado em julho do ano passado confirmou que a Polymarket revelou-se superior às sondagens na previsão do resultado das presidenciais americanas, especialmente nos Estados decisivos. A plataforma também antecipou a desistência de Joe Biden após o debate desastroso de 28 de junho de 2024, com as probabilidades a dispararem em tempo real enquanto a comunicação social tradicional ainda insistia que o presidente se manteria na corrida. Mas nem tudo foram sucessos.
“É a coisa mais precisa que temos como humanidade neste momento, até que alguém crie uma espécie de super bola de cristal”, respondeu Shayne Coplan à pergunta se a Polymaker é mais precisa para antecipar o futuro do que sondagens e opiniões de analistas ou especialistas.
Em janeiro deste ano, a Polymarket tornou-se protagonista de uma controvérsia que manchou a sua reputação. Quando as forças americanas capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro a 3 de janeiro, apostadores que tinham colocado mais de 10,5 milhões de dólares na aposta “Os EUA vão invadir a Venezuela?” esperavam lucros avultados. A plataforma, no entanto, recusou-se a resolver as apostas a favor do “sim”, argumentando que a captura de Maduro não constituía uma “invasão” nos termos do contrato, que especificava “operações militares destinadas a estabelecer controlo” sobre território venezuelano.
A decisão gerou fúria entre os utilizadores, com acusações de que a Polymarket estava a redefinir retroativamente os seus próprios termos para evitar pagar grandes quantias. Para piorar, uma conta anónima criada pouco antes do evento ganhou mais de 436 mil dólares apostando no momento exato da captura de Maduro, levantando suspeitas de insider trading.
A controvérsia do caso da Venezuela ilustra um dos maiores riscos destas plataformas: a facilidade com que informação não pública pode ser monetizada e a subjetividade na interpretação dos termos contratuais quando milhões estão em jogo.
Apesar do êxito mediático nas eleições americanas, a precisão da Polymarket não é consensual. Um estudo que analisou mais de 2.500 mercados políticos em quatro plataformas (Iowa Electronic Markets, Kalshi, PredictIt e Polymarket) durante as últimas cinco semanas da campanha de 2024 concluiu que a Polymarket teve uma taxa de precisão de apenas 67%, inferior aos 78% da Kalshi e aos 93% da PredictIt.
Investigadores também identificaram evidências de “wash trading” (negociação fictícia para inflar volumes artificialmente) na Polymarket em outubro de 2024, levantando questões sobre a integridade dos dados que a plataforma oferece.
Com mais de 10 mil apostas ativas em simultâneo — desde “Irá Trump comprar a Greenland antes de 2027?” a “Qual o preço da coleção de cartas de Pikachu do youtuber Logan Paul?” que irá a leilão a 16 de fevereiro — a possibilidade de a Polymaker manipular ou de apostas criadas para fins questionáveis é real.
A própria Polymarket foi criticada por oferecer apostas sobre os incêndios de Los Angeles, com apostas sobre quantos hectares seriam queimados, com muitos a chamaram de “arson markets“, sugerindo que alguém poderia ter incentivo para atear mais fogos para ganhar apostas.
Voltando à corrida ao Palácio de Belém, é importante não interpretar os mais de 105 milhões de dólares como uma medida direta de interesse ou participação nas presidenciais. O volume de apostas não representa dinheiro “investido” num sentido tradicional, mas sim o valor total de todas as transações, incluindo compras e vendas repetidas das mesmas “ações”.
Numa aposta líquida, como o que sucede com a principal aposta das presidenciais portuguesas, as mesmas posições podem ser negociadas dezenas ou centenas de vezes, inflando o volume total. Ainda assim, o facto de António José Seguro ter 66% de probabilidade de vitória final quando as sondagens o colocam tecnicamente empatado com Cotrim e Ventura na primeira volta é revelador.
Os apostadores estão também convictos que André Ventura — apesar de poder vencer a primeira volta — terá um “teto” de votos na segunda volta, incapaz de agregar o espetro suficiente de eleitores para derrotar Seguro num confronto direto. É uma leitura que encontra paralelo nas sondagens sobre “dinâmica de vitória”: quando se pergunta aos portugueses quem acham que vai ganhar (independentemente da sua intenção de voto), Seguro tem vindo a subir e ultrapassou recentemente Ventura e Marques Mendes.
A dois dias das eleições presidenciais há pelo menos 100 milhões de dólares a dizer que António José Seguro será o próximo Presidente da República, mesmo que as sondagens ainda vejam uma corrida demasiado renhida para prever o resultado final.
Mas a grande questão filosófica permanece: são os mercados de previsão como a Polymarket uma ferramenta mais precisa para antecipar o futuro do que sondagens e opiniões de analistas ou especialistas? Ou são apenas mais um casino financeiro onde informação privilegiada, manipulação e vieses cognitivos produzem sinais tão ruidosos quanto úteis?
“É a coisa mais precisa que temos como humanidade neste momento, até que alguém crie uma espécie de super bola de cristal”, responde Coplan. A ideia subjacente é poderosa: quando as pessoas arriscam o seu próprio dinheiro, têm incentivos para procurar informação, analisar dados e fazer previsões racionais. As sondagens, pelo contrário, não custam nada ao inquirido responder e medem intenções que podem mudar. Mas a realidade é mais complexa.
Como mostrou o fiasco da Venezuela, os termos contratuais importam tanto quanto os eventos reais, e a Polymarket, que se apresenta como descentralizada, mantém controlo centralizado sobre a resolução de apostas através do seu comité de integridade. Isso introduz um elemento de confiança institucional que contradiz o espírito “sem confiança” dos criptoativos.
Além disso, os resultados das apostas podem refletir não a probabilidade real de um evento, mas a demografia específica de quem aposta: utilizadores de criptoativos, maioritariamente jovens, masculinos, com inclinações políticas específicas. No caso das eleições americanas, alguns analistas sugeriram que a sobre-representação de apoiantes de Trump entre os utilizadores da Polymarket pode ter enviesado as probabilidades a seu favor, embora o resultado final tenha dado razão à plataforma.
- Para os defensores dos mercados de previsão, plataformas como a Polymarket representam uma evolução democrática na produção de informação: em vez de confiar em analistas pagos, institutos de sondagens com metodologias opacas ou comentadores televisivos, podemos observar o que milhares de pessoas com dinheiro em jogo realmente acreditam. É uma forma de “sabedoria das multidões” financeiramente incentivada.
- Para os críticos, são instrumentos perigosos que podem ser manipulados por atores com recursos suficientes, criar incentivos perversos (como apostar em tragédias e depois tentar provocá-las) e operar numa zona cinzenta regulatória onde a distinção entre mercados de previsão e jogos de azar se esbate.
A nomeação de Donald Trump Jr. para o conselho consultivo da Polymarket num momento em que a administração Trump está a desregular o setor de criptoativos apenas reforça as suspeitas de que influência política e interesses comerciais estão perigosamente entrelaçados.
Independentemente desta visão, é certo que a quatro dias das eleições presidenciais há pelo menos 106 milhões de dólares a dizer que António José Seguro será o próximo Presidente da República, mesmo que as sondagens ainda vejam uma corrida demasiado renhida para prever.
No domingo (e muito provavelmente a 8 de fevereiro), saberemos se o dinheiro viu algo que os analistas não viram, ou se foi apenas mais uma aposta especulativa num mundo onde tudo, até a democracia, se tornou negociável.
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