E se o Governo permitir voltar ao escritório este ano? Empresas estão prontas para abrir portaspremium

Independentemente do setor, a generalidade das empresas está já a preparar o regresso aos escritórios, seja ele só no início do próximo ano ou ainda em 2021. Os planos fazem-se a curto e longo prazo.

A generalidade das empresas já está a preparar o regresso dos trabalhadores aos escritórios. Seja só em 2022, como prevê o recente diploma do Governo, ou ainda este ano, caso o Executivo recue nesta obrigatoriedade.

O documento foi apresentado em meados de março e alargou até ao fim do ano a obrigatoriedade do teletrabalho sempre que possível. Mas nem todos os partidos estão de acordo. O PCP pediu a apreciação parlamentar do diploma, defendendo que é preciso, em alternativa ao trabalho remoto, garantir a proteção sanitária dos trabalhadores para que possam exercer as suas funções presencialmente. E, como avançou o ECO, também o PSD pediu a apreciação parlamentar do diploma, pretendendo não eliminar a obrigação, mas fazê-la depender de uma avaliação da situação sanitária.

Numa altura em que o país se prepara para sair do estado de emergência, as organizações contactadas pela Pessoas estão prontas para voltarem a abrir as portas dos escritórios e darem as boas-vindas aos colaboradores, assim que o Governo o permita. Nenhuma pensa prolongar o teletrabalho obrigatório, no entanto, serão mantidos numa primeira fase os horários em "espelho" e turnos rotativos e optativos. Mas, para o futuro, também já se desenham os novos modelos de trabalho. Sendo uns mais flexíveis do que outros, a maioria são regimes híbridos.

Voltar aos escritórios, assim que for possível

Com 100% dos colaboradores em casa, a Landing.Jobs aguarda "com muita expectativa" um levantamento da regra que impõe o teletrabalho obrigatório até final de 2021. "Não concordamos com esta regra, não é isso que as pessoas e as empresas necessitam", diz Diogo Oliveira, CEO da Landing.Jobs. Assim que possível, o objetivo da empresa de recrutamento tecnológico é deixar de limitar as pessoas de poderem ir ao escritório apenas e só quando a tarefa não possa ser desenvolvida em casa. "Atuaremos com uma liberdade e flexibilidade elevada", continua.

Assim, o objetivo é manter o modelo híbrido, oferecendo aos colaboradores a opção de trabalharem a partir de casa ou do escritório. No entanto, Diogo Oliveira considera que será preciso continuar a incentivar as pessoas a encontrarem-se pessoalmente. "Acreditamos que a motivação e energia positiva poderão andar correlacionadas com a química de equipa, que é construída mais facilmente em interações físicas", defende.

Também na Revolut o objetivo é abrir as portas do escritório assim que possível, ainda que isso não implique que todos os colaboradores passem a ter de se deslocar até ao local de trabalho, diz fonte oficial da empresa à Pessoas. Será um modelo mais flexível, em que o objetivo é, numa primeira instância, havendo ainda restrições, dar novamente a possibilidade de trabalhar no escritório.

Já no mês passado, a New Work Portugal dizia o mesmo à Pessoas: que está a aguardar a "luz verde" do Governo para abrir novamente o escritório de Matosinhos. No entanto, naquilo que parece ser uma tendência nas empresas tecnológicas, a reabertura não é sinónimo do regresso dos colaboradores, pois a decisão de voltar ou não ao escritório transcende o grupo que engloba a rede social profissional alemã Xing. São os colaboradores que a tomam.

Modelos em "espelho" para um regresso progressivo

Fora do setor tecnológico, a maioria dos modelos que as empresas de outras indústrias tencionam implementar, ainda que também híbridos e flexíveis, implicam uma definição de dias de teletrabalho e dias de trabalho no escritório. É o caso dos CTT, que, se o teletrabalho deixar de ser obrigatório até ao final do ano, pretende voltar ao sistema de "espelho", já testado depois do primeiro confinamento.

"Os CTT têm um modelo que estava em funcionamento antes deste segundo confinamento que poderia ser implementado novamente", afirma fonte oficial da empresa liderada por João Bento -- que, por ser uma empresa operacional e de retalho, mantém a grande maioria dos colaboradores no serviço presencial deste o início da pandemia. Apenas os trabalhadores que desempenham funções que podem ser realizadas à distância estão em teletrabalho.

"Os CTT têm um modelo que estava em funcionamento antes deste segundo confinamento que poderia ser implementado novamente.”

Fonte oficial dos CTT

O mesmo sistema seria seguido pela LLYC Portugal que tem, neste momento, 100% dos colaboradores em teletrabalho. Se o regresso aos escritórios for permitido antes do previsto, a empresa voltará ao modelo de "espelho" que adotou em setembro, quando voltou ao local de trabalho por pouco mais de um mês.

"No ano passado regressámos ao escritório com a equipa dividida em dois grupos, sendo que cada grupo trabalhava no escritório dois dias por semana, de forma a assegurar uma ocupação do espaço com o devido distanciamento, entre outras medidas tomadas sob a coordenação do nosso consultor externo de saúde e segurança no trabalho para a minimizar riscos. Será desta forma que iremos proceder numa primeira fase, assim que for levantada a obrigatoriedade de teletrabalho", avança Tiago Vidal, sócio e diretor-geral da LLYC Portugal.

Apesar de não ser o sistema ideal para a empresa, por não permitir aos colaboradores estarem todos juntos, Tiago Vidal admite que "correu muito bem" e, numa primeira fase, "foi e será um ótimo equilíbrio entre o que é mais seguro para a equipa e, claro, a par com a manutenção do convívio que nos é possível ter".

Tal como a Pessoas avançou no final de fevereiro, empresas como o El Corte Inglés, L'Oréal e MVGM Portugal, ainda que pretendam manter uma certa política de work from home, também aguardam as recomendações do Governo no sentido de voltarem aos escritórios para abrir portas. O sistema de "espelho" é o que reúne mais adeptos numa primeira fase de regresso.

Como se trabalha num cenário pós-pandemia?

Imaginando o futuro pós-pandemia, que ainda ninguém sabe muito bem quão perto está, os CTT avançam estar a "finalizar uma política de teletrabalho numa perspetiva de médio/longo prazo, adotando uma nova organização do trabalho assente na experiência que todos temos vivido desde o início da pandemia".

De facto, são estas políticas de teletrabalho e os regimes híbridos que as empresas defendem que vão perdurar, mesmo depois da Covid-19. Na LLYC Portugal, o objetivo é que, assim que "os riscos de saúde sejam nulos, possamos ter um modelo de trabalho flexível, mas que permita à nossa equipa ter momentos trabalho e de socialização presenciais", explica Tiago Vidal. No fundo, a empresa quer manter a flexibilidade a que os colaboradores se habituaram -- e que já não dispensam --, mas recuperar a socialização e proximidade física do período pré-pandemia.

Ainda que o futuro modelo de trabalho não esteja totalmente definido, o sócio e diretor-geral da LLYC Portugal conta que questões como o número de dias em teletrabalho e no escritório, a adaptação do local de trabalho e o tipo de tarefas desenvolvidas em teletrabalho ou no escritório, estão a ser trabalhadas de modo a "transformar este desafio numa oportunidade para um melhor futuro e um modelo de trabalho que aproveite o melhor de cada um, conciliando a vida profissional e pessoal, e reforce ainda mais o espírito de equipa e sentimento de pertença". "Muita coisa vai mudar quando for possível tomar decisões sem estarmos condicionados pela pandemia", remata.

Já na EDP, o futuro também passará por um modelo híbrido que combine trabalho presencial e remoto. O modelo para a era pós-pandemia prevê a "possibilidade de os nossos colaboradores trabalharem remotamente dois dias por semana, desde que exista compatibilidade com a função", uma realidade que abrange aproximadamente 50% da nossa força de trabalho, explica fonte oficial da empresa à Pessoas.

"Durante este período de pandemia, ideias preconcebidas foram desafiadas e a eficácia do trabalho remoto ficou clara: com cerca de 70% dos nossos colaboradores a trabalhar a partir de casa, fomos capazes de continuar a entregar resultados muito positivos", assegura a empresa, adiantando que recentemente foram lançados dois questionários globais que recolheram as perceções relativas à experiência de teletrabalho dos colaboradores. A motivação (95%), as condições para a produtividade (80%) e a produtividade percebida (75%) apresentaram resultados "extremamente positivos". "Hoje está claro para as nossas lideranças e colaboradores que estas novas formas de trabalhar podem ter sucesso, ainda que a importância da proximidade social continue a ser valorizada", refere a empresa de eletricidade.

De office para community hub

Na Landing.Jobs, o regime de trabalho do futuro será o híbrido, com alta flexibilidade, mas isso não implica que se removam os escritórios da equação. Aliás, a maior evolução tem a ver com a distribuição das equipas em diversas cidades como Lisboa, Porto, Barcelona e Berlim. "Isso acarreta mudanças estruturais na forma como nos organizamos e comunicamos", afirma Diogo Oliveira. O objetivo é, assim, o de permitir aos colaboradores que trabalhem em modelo de coworking nas várias instalações da empresa.

"Queremos evoluir de office para community hub, um local onde stakeholders internos e externos se reúnam e aprendam em conjunto.”

Diogo Oliveira

CEO da Landing.Jobs

"Queremos evoluir de office para community hub, um local onde stakeholders internos e externos se reúnam e aprendam em conjunto. Com a distribuição dos nossos colaboradores pela Europa, abriremos a possibilidade de as pessoas trabalharem de escritórios diferentes para mudarem de ambiente, se assim preferirem, e também para conhecerem outros colegas e realidades em pessoa", ambiciona Diogo Oliveira.

Mais uma vez, as tecnológicas são as empresas mais adiantadas nos modelos de trabalho que implementarão no futuro. Na Revolut, assim que o teletrabalho não seja considerado obrigatório e não existam restrições à circulação das pessoas, "os colaboradores poderão definir com os seus managers ou líderes de equipas a frequência com que querem trabalhar a partir de casa ou quando planeiam trabalhar no escritório", assume fonte oficial.

No início do ano, a Revolut anunciou uma mudança no sentido de adotar uma política de trabalho flexível, nomeadamente com a reformulação dos seus escritórios e, mais recentemente, com a permissão de os colaboradores trabalhem a partir de qualquer parte do mundo até um limite de 60 dias por ano.

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