Se queremos exportar mais valor, o país precisa de políticas que permitam às empresas crescer — não de incentivos que as mantenham pequenas, escreve o economista Óscar Afonso.
- Portugal enfrenta um problema estrutural nas suas exportações, com uma balança de bens deficitária que pode agravar-se se a procura turística diminuir.
- Os dados do Eurostat revelam que apenas 3,5% das empresas portuguesas exportam acima do limiar estatístico, inferior à média da UE, evidenciando a fragilidade do tecido exportador.
- A falta de empresas de média dimensão competitivas limita a capacidade de crescimento e a criação de riqueza, tornando a economia mais vulnerável a choques externos.
Numa crónica anterior alertei para o défice estruturalmente elevado da balança de bens, que poderá resultar num desequilíbrio externo se o excedente da balança turística começar a fraquejar, o que é uma possibilidade real dada a elevada volatilidade da procura turística. Basta ver o que sucedeu no contexto da pandemia por Covid-19, com uma interrupção súbita da atividade turística seguida de um ‘boom’ pós-confinamento — explicado pela psicologia e pela natureza humana —, que gradualmente se desvanecerá.
Nesta crónica abordo ao de leve algumas das limitações estruturais que impedem uma maior exportação de bens no nosso país.
Portugal tem hoje uma economia mais aberta do que há duas ou três décadas, mas os dados mais recentes sobre o tecido exportador revelam um problema estrutural que permanece largamente ignorado no debate público: exportamos com demasiadas empresas demasiado pequenas.
Esta realidade tem implicações profundas para o crescimento económico. Quando o tecido exportador é composto por muitos operadores de pequena dimensão, torna-se mais difícil explorar economias de escala, diluir custos fixos de internacionalização e ganhar poder de negociação nos mercados externos. O resultado tende a ser um desempenho exportador menos robusto e um contributo mais modesto das exportações para a criação de riqueza.
Os dados do Eurostat relativos aos países da União Europeia (UE) mostram precisamente isso. Por um lado, Portugal apresenta uma propensão exportadora de bens inferior à média da UE, mesmo utilizando um limiar estatístico relativamente baixo para identificar empresas exportadoras. Por outro lado, as exportações portuguesas de bens revelam também um grau de concentração relativamente reduzido, o que indica que os maiores exportadores nacionais têm um peso menor no total das exportações do que sucede na maioria das economias europeias.
Mais revelador ainda é o que acontece quando se observa a distribuição das exportações para além das maiores empresas: uma parte significativa do total está dispersa por um número muito elevado de operadores de pequena dimensão. Esta estrutura sugere um problema de escala que limita a capacidade de crescimento do setor exportador e ajuda a explicar porque é que o peso das exportações de bens no PIB português continua relativamente modesto.
Os dois gráficos que acompanham esta análise ilustram precisamente esta dupla fragilidade: poucos exportadores relevantes e uma excessiva fragmentação do tecido exportador.
Poucas empresas exportadoras de bens acima do limiar estatístico
A Figura 1 mostra que Portugal regista a 8ª menor propensão exportadora de bens (20ª posição) entre os países da UE. Apenas 3,5% das empresas exportam acima do limiar estatístico de declaração, um valor claramente inferior à média da UE (4,6%) e ainda mais distante da média das economias de leste (5,4%).
Figura 1. Propensão exportadora de bens das empresas nos países da UE em 2023: número de exportadores de bens face ao número total de empresas da economia de mercado (%)

Fonte: Eurostat e cálculos próprios. Nota: dados ordenados do maior para o menor (da esquerda para a direita). As empresas da economia de mercado correspondem ao agregado da indústria, construção e serviços de mercado, excluindo Administração pública e defesa, segurança social obrigatória e organizações associativas; o número de empresas agrícolas não está disponível, mas a maioria das exportações agrícolas revela-se nas estatísticas através de empresas da Indústria Alimentar ou Grossistas de Produtos Agrícolas, que estão incluídas. Os países de leste estão assinalados com a letra L a seguir ao nome, sendo ainda incluída a média simples dos valores desses países nos dados apresentados. O valor de Portugal está assinalado com uma caixa com bordo vermelho, acompanhado do ranking na UE a cinza.
Importa compreender o que está por trás deste indicador. A medição das exportações intracomunitárias segue as orientações definidas pelo Regulamento (UE) 2019/2152, que estabelece que cada Estado-membro deve assegurar a cobertura estatística de pelo menos 95% do valor total das exportações dentro da UE. Contudo, a definição do limiar monetário concreto de declaração — ou seja, o valor mínimo de exportações a partir do qual uma empresa tem de reportar operações — é determinada pelas autoridades estatísticas nacionais.
Em Portugal, esse limiar é fixado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) de forma a equilibrar dois objetivos: garantir a qualidade estatística e reduzir a carga administrativa sobre as empresas. Em 2023, ano a que se referem os dados analisados, o limiar situava-se nos 400 mil euros, tendo sido posteriormente elevado para 600 mil euros no período 2024-2026.
Esta referência é importante para interpretar corretamente os resultados. Em economias com estruturas empresariais mais concentradas — como a Alemanha — o limiar pode ser significativamente superior, rondando 1 milhão de euros, porque um número relativamente reduzido de grandes empresas já assegura a cobertura estatística exigida.
No caso português, o quadro é distinto. O facto de Portugal apresentar simultaneamente um limiar relativamente baixo e uma propensão exportadora modesta sugere que uma parte significativa das PME nacionais não atinge volumes de exportação suficientes para ultrapassar esse limiar estatístico.
Por contraste, a propensão exportadora mais elevada observada nas economias da Europa de Leste é consistente com um tecido empresarial fortemente integrado em cadeias internacionais de fornecimento industrial, muitas vezes articuladas com o ecossistema produtivo alemão. Essa integração facilita atingir volumes de exportação mais elevados e aumenta o número de empresas que ultrapassam o limiar estatístico.
Este primeiro retrato já aponta para uma fragilidade estrutural: em Portugal, relativamente poucas empresas exportam volumes significativos de bens.
Um tecido exportador excessivamente fragmentado
A análise da concentração das exportações de bens reforça esta conclusão e revela um segundo problema estrutural: a excessiva fragmentação do tecido exportador.
A Figura 2 revela que Portugal ocupa a 19ª posição (9ª mais baixa) no peso do Top 5 de exportadores de bens – ou seja, as cinco maiores empresas exportadoras -, com um valor de 15%, que compara com 19% nos países de leste e 21% na UE. O mesmo padrão ocorre no Top 10 (19%, 24% e 27%, respetivamente).
Figura 2. Concentração das exportações de bens por empresa (% do total) em 2023: Top 5 a Top 1000 de exportadores de Portugal e média simples dos países da UE e dos países de leste

Fonte: Eurostat e cálculos dos autores.
Estes números significam que os maiores exportadores portugueses – empresas como a Autoeuropa, Navigator ou Galp – têm um peso no total das exportações nacionais inferior ao que os “campeões” de outros países da UE têm nos seus respetivos totais. Ou seja, Portugal não tem grandes exportadores com dimensão suficiente para impulsionar o total das exportações e a economia, ao contrário de Estados-membros mais avançados como os Países Baixos.
Ao cair para a 21ª posição no Top 20 e Top 50 e para a 22ª posição no Top 100, 500 e 1000, os dados revelam algo ainda mais crítico: o tecido exportador português é composto por uma multiplicidade de empresas muito pequenas.
Se o Top 1000 de exportadores de bens em Portugal pesa 75% do total, muito menos do que na grande maioria dos países europeus – o valor é de 84% nos países de leste e no conjunto da UE -, isso significa que uma parcela muito maior das exportações está diluída por muitas empresas de reduzida dimensão.
Com efeito, esses dados significam que os exportadores a seguir aos 1000 maiores asseguram 25% do total das exportações de bens, possivelmente com valores individuais pouco acima ou mesmo abaixo do limiar estatístico de declaração.
Esta dispersão de uma parcela muito significativa das exportações por um número muito elevado de operadores sugere a presença de custos fixos de internacionalização relativamente elevados face à escala das empresas, limitando a capacidade de expansão nos mercados externos.
O problema estrutural da escala e o peso relativamente reduzido das exportações de bens no PIB
Estes dados indicam que, embora Portugal tenha uma propensão exportadora relativamente baixa acima do limiar estatístico, existe provavelmente um número elevado de empresas que exportam valores residuais ou ocasionais abaixo desse limiar, numa proporção superior à da maioria dos países europeus. Tal configuração revela um problema de escala que penaliza o desempenho externo da economia.
- Em primeiro lugar, a existência de muitos exportadores pequenos dificulta a exploração de economias de escala. Custos fixos associados à internacionalização — como logística, certificação, marketing ou redes comerciais — tornam-se mais difíceis de diluir quando os volumes exportados são reduzidos.
- Em segundo lugar, empresas pequenas tendem a ter menor poder de negociação nos mercados externos, tanto com clientes como com fornecedores ou distribuidores. Isso traduz-se frequentemente em margens mais reduzidas e menor capacidade de investir em inovação, marca ou diferenciação.
- Em terceiro lugar, este padrão limita a diversificação geográfica das exportações. Muitas empresas de pequena dimensão concentram as vendas externas num número reduzido de mercados, frequentemente o mais próximo — Espanha, que continua a ser o principal destino das exportações portuguesas.
O padrão evidenciado ajuda também a explicar por que motivo as exportações portuguesas de bens têm um peso relativamente reduzido no PIB no contexto europeu, como destaquei numa crónica anterior.
Destacam-se três fatores principais:
- Escassez de médias empresas competitivas e consolidadas: entre o Top 10 (as grandes) e a massa de microempresas (para além do Top 1000), Portugal parece ter um certo “vazio” de empresas de média dimensão competitivas, com capacidade exportadora relevante.
- Baixa produtividade média dos exportadores, consistente com a presença de numerosos operadores de pequena escala, frequentemente concentrados em atividades de menor valor acrescentado.
- Vulnerabilidade das empresas de menor dimensão e da economia como um todo: um número elevado de empresas de pequena dimensão — que constitui o grosso do tecido empresarial — exporta pouco e para poucos mercados. Este padrão tende a traduzir-se em margens de lucro reduzidas e menor geração de riqueza (PIB), além de tornar estas empresas e a economia mais expostas a choques de procura externa.
Conclusão: exportar mais exige empresas maiores e mudar de políticas
A leitura conjunta destes dados aponta para uma fragilidade estrutural do modelo exportador português: não falta apenas exportar mais, falta sobretudo exportar com escala.
Portugal tem conseguido aumentar o número de empresas presentes nos mercados externos, mas uma parte demasiado significativa dessas empresas exporta pouco e de forma irregular.
O resultado é um tecido exportador muito fragmentado, com poucos operadores de grande dimensão e um número insuficiente de empresas de média dimensão capazes de crescer de forma sustentada nos mercados internacionais.
Este problema de escala tem implicações económicas relevantes. Reduz a produtividade média do setor exportador, limita a exploração de economias de escala e dificulta a consolidação de posições competitivas em cadeias de valor internacionais. Em última análise, traduz-se num contributo relativamente modesto das exportações de bens para a criação de riqueza.
Num contexto internacional cada vez mais competitivo — marcado por tensões geopolíticas, reconfiguração das cadeias de valor e maior competição tecnológica — esta fragilidade torna-se ainda mais evidente, pois torna as empresas e a economia mais vulneráveis e expostas a choques.
Se Portugal pretende reforçar o seu crescimento económico e reduzir vulnerabilidades externas, precisa de um tecido empresarial capaz de crescer, consolidar presença internacional e atingir maior escala. Isso exige mais empresas de média dimensão, mais produtividade e maior capacidade de transformar presença nos mercados externos em valor acrescentado. Porque, no fim de contas, quando muitos exportam pouco, a economia exporta menos valor do que poderia.
O problema de escala entronca noutros, como uma fiscalidade que a desincentiva — com realce para a derrama estadual progressiva, uma originalidade portuguesa que nenhum país quererá importar — e um modelo de apoios europeus que parece ter contribuído para a referida fragmentação das exportações.
Se queremos exportar mais valor, o país precisa de políticas que permitam às empresas crescer — não de incentivos que as mantenham pequenas.
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Muitos exportadores, pouca escala e baixo valor
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