Exclusivo Mulheres no ‘venture capital’. Uma “minoria representativa”

Quatro investidoras partilham o que as levou ao mundo do 'venture capital' e deixam sugestões sobre como incentivar um maior equilíbrio de género no ecossistema. Conheça as histórias.

Comecemos pelos números. Apenas 16% dos general partners dos fundos de venture capital (VC) na Europa são mulheres e, num ano, a evolução foi residual. As mulheres têm ainda menos ativos sob gestão ao seu dispor: 9% vs 91% dos seus pares masculinos. Dados apontam ainda que sociedades de capital de risco com uma maior representatividade de mulheres na equipa de gestão registam retornos mais elevados e menos volatilidade nos seus investimentos. Estima-se que, em média, cerca de 2% do capital VC é investido em projetos fundados ou liderados por mulheres.

Em Portugal não há dados públicos sobre o equilíbrio de género na sociedades de capital de risco, mas os números elencados no estudo “Achieving Superior Returns with Gender Diversity in European Venture Capital Firms”, da European Women VC, não deverão diferir muito da realidade europeia, nem o cenário terá sofrido grandes alterações desde setembro de 2023, altura em que o relatório foi conhecido. Sabemos que apenas 14% das mais de quatro mil startups existentes no país são fundadas ou lideradas por mulheres.

Quatro investidoras, partners ou líderes de fundos, partilham com o ECO os caminhos que as levaram ao mundo do venture capital, quais os momentos mais e menos positivos dessa experiência e deixam algumas sugestões sobre com incentivar um maior equilíbrio de género neste ecossistema que, pode ainda ter, um impacto no tipo de investimentos realizados. Conheça as suas histórias.

“Ultrapassada a barreira cultural do setor, vamos deixar de ter um ‘men’s club‘”, diz Lurdes Gramaxo, partner da Bynd VC e presidente da Investors Portugal

Em 2012, depois de um exit de um grupo multinacional luso-holandês onde era acionista e membro do conselho de administração, Lurdes Gramaxo optou por mudar de vida. “Decidi que não queria voltar a trabalhar numa empresa corporativa. Procurei alternativas para rentabilizar a minha experiência, as redes de contactos profissionais nacionais e internacionais que tinha construído ao longo da minha vida e de alguma forma poder contribuir de volta à sociedade”, conta. Usando um termo do empreendedorismo decidiu ‘pivotar’ a sua carreira.

O empreendedorismo early stage que começava a surgir em Portugal atraiu a minha atenção e interesse e foi através de um amigo e membro do supervisory board do grupo anterior que conheci a Bynd Venture Capital, na altura ainda um veículo de business angels. Foi desta forma que começou a minha relação profissional com o mundo do investimento em venture capital”, lembra a partner da ByndVC e presidente da Investors Portugal, associação que representa mais de 300 business angels e 26 sociedades de capital de risco e entidades veículos, que, no seu conjunto, têm mais de seis mil milhões de euros de ativos sob gestão.

Anos depois faz um balanço positivo desse mergulho no mundo VC. “Não tenho, felizmente, experiências negativas que me tenham marcado. Sinto-me realizada por ter optado por este caminho e termos construído do zero uma gestora reconhecida em Portugal e em Espanha com um track record notável no setor”, diz.

Acredito firmemente que, depois de ultrapassada a barreira cultural do setor, vamos deixar de ter um ‘men’s club’. A lei e os reguladores têm impulsionado a abertura à diversidade e, no final, a experiência e o valor acrescentado que as mulheres podem aportar às equipas fará a diferença neste sentido de encurtar o atual desequilíbrio.

Lurdes Gramaxo

Partner da Bynd Venture Capital e presidente da Investors Portugal

“Otimista por natureza”, Lurdes Gramaxo diz tentar olhar sempre para o “copo meio cheio”, por isso não se deixa esmorecer pelos números no que toca ao desequilíbrio de género no mundo VC. “A baixa diversidade de género é um facto no setor do empreendedorismo, mas, em Portugal, temos feito alguns progressos — ainda que lentos —, em especial no capital de risco focado no early stage”, diz.

“Neste contexto, é cada vez mais frequente vermos mulheres entrar nas equipas das gestoras e a construir carreira profissional em venture capital. Acredito que daqui a uns anos iremos testemunhar uma maior paridade de género a nível dos partners, o que irá contribuir certamente para um círculo virtuoso na indústria”, vaticina quando questionada sobre se os baixos números de mulheres VC influenciava de algum modo as decisões de investimento.

“Acredito firmemente que, depois de ultrapassada a barreira cultural do setor, vamos deixar de ter um ‘men’s club‘. A lei e os reguladores têm impulsionado a abertura à diversidade e, no final, a experiência e o valor acrescentado que as mulheres podem aportar às equipas fará a diferença neste sentido de encurtar o atual desequilíbrio”, argumenta.

“Estamos em minoria, sim — mas somos uma minoria altamente representativa”, diz Maria Vilas Boas, operating partner da Shilling

De empreendedora a operating partner da Shilling. A entrada de Maria Vilas Boas no mundo VC foi tudo “menos linear”. “Vim parar à Shilling pelo lado oposto da mesa. Depois de mais de 10 anos na área do retalho, decidi lançar-me como fundadora, a solo, e criei a Urban Foods. Um negócio de bens de consumo (FMCG) com canal de distribuição tradicional e direct-to-consumer, que exigia investimento desde o primeiro dia. A Shilling — ainda na altura na sua versão de clube de business angels — foi o meu primeiro investidor institucional, e com quem vim a construir uma importante relação”, conta Maria Vilas Boas.

Na época, em 2017, dizia em tom de brincadeira, ao então futuro marido, que havia poucas mulheres no fundo — “na verdade, não havia nenhuma” — e que “eu seria a primeira sócia”. “Era tudo menos um objetivo. E o que foi uma provocação acabou por virar realidade”, lembra humorada.

E aconteceu depois de um exit: vendeu a Urban Foods e acabou por aceitar o desafio de Miguel Santo Amaro [hoje venture partner e IC member da Shilling, além de cofundador da fintech Coverflex] que a convenceu a juntar-se à equipa. “Entrei com um perfil muito hands-on e operativo, com foco no suporte ao portefólio, e fui assumindo cada vez mais responsabilidades — desde a operação do fundo à presença nos comités de investimento”, relata. Mais recentemente, assumiu um “papel mais abrangente na Draycott”, tendo alargado a sua intervenção para além do venture capital, “acompanhando também outras vertentes como buyouts, real estate e a estratégia de crescimento da gestora”.

No venture capital, guarda bons e não tão bons momentos. “Os menos satisfatórios têm quase sempre o mesmo denominador comum: fundadores em quem acreditamos genuinamente, que dão tudo, e que, por uma combinação de fatores — timing de mercado, estratégia mal calibrada, equipa errada, ou simplesmente falta de vantagem competitiva real —, acabam por falhar. É duro. Não só porque os despedimentos e decisões difíceis têm de acontecer de forma rápida e, muitas vezes, brutal, mas porque sabemos que estamos a falar de talento genuíno. E isso custa”, admite.

A parte boa — porque há sempre uma — é que sabemos que estas pessoas voltam. Voltam melhores, mais preparadas. Há uma cultura de ‘falhanço’ em Portugal que ainda penaliza muito quem tenta, mas do lado de cá, do lado de quem investe, já percebemos que os melhores founders são muitas vezes os que já passaram por uma primeira queda. E trazem com eles uma clareza que só o erro dá“, aponta.

O “momento mais marcante” é, curiosamente, um daqueles projetos que parecia nunca mais arrancar, até explodir. “Uma empresa que, nas nossas avaliações internas, classificávamos como praticamente morta. Métricas que não andavam, pivots atrás de pivots — mas sempre estruturados, com intenção, com foco. O founder — um second-time founder — nunca perdeu o alinhamento com o propósito do negócio. Continuou a iterar, a ouvir, a ajustar. Até que, de repente, o modelo encaixou. E a empresa explodiu. Foi o caso mais acelerado de crescimento que testemunhei no portefólio”, recorda.

“É destes momentos que se faz o gozo de trabalhar em VC. Ver uma ideia a transformar-se em empresa, ver uma luta persistente a transformar-se em resultado. Sobretudo para mim, que já estive do outro lado e sei o quão mentalmente exigente é viver num negócio que pode falhar todos os dias”, diz.

Quando entrei na Shilling, trazia a mesma dúvida: será que estamos a investir menos em mulheres? E o que percebi, pelo menos no nosso caso, foi claro: investimos em mulheres na mesma proporção com que elas nos chegam. Ou seja, o funil já começa enviesado — menos mulheres a fundar empresas, menos mulheres a levantar rondas, menos mulheres a chegar até nós.

Maria Vilas Boas

Operating Partner da Shilling

Enquanto empreendedora, nunca sentiu um tratamento diferenciado por ser mulher no acesso a investimento. Mas a verdade, lembra, é que na sala a disparidade de género era evidente. “Lembro-me, por exemplo, de estar num evento interno com o portefólio e, a certa altura, dar por mim a pensar que estávamos 100 pessoas numa sala e havia apenas duas mulheres founders — eu e a Marta Palmeiro [fundadora da Student Finance, uma das investidas da Shilling] — o contraste visual era gritante”, conta.

“Quando entrei na Shilling, trazia a mesma dúvida: será que estamos a investir menos em mulheres? E o que percebi, pelo menos no nosso caso, foi claro: investimos em mulheres na mesma proporção com que elas nos chegam. Ou seja, o funil já começa enviesado — menos mulheres a fundar empresas, menos mulheres a levantar rondas, menos mulheres a chegar até nós”, diz.

Essa falta de equilíbrio de género sente-se noutras esferas. “A mesma realidade repete-se no recrutamento. No nosso programa de estágios, por exemplo, temos um esforço consciente de trazer diversidade — e já tivemos mulheres brilhantes. Mas o número de candidaturas de mulheres é estruturalmente mais baixo”, descreve.

“O que, de novo, nos remete para a origem do problema: não está na decisão do VC, está antes. Está nas universidades, na cultura familiar, na ausência de role models, na educação que ainda não incentiva as raparigas a seguir caminhos de criação e risco”, diz. “A verdade é que ainda hoje, ser mulher implica muitas vezes ter dois ‘trabalhos’: o profissional e o doméstico. A carga de organização, gestão da casa e cuidado dos filhos recai desproporcionalmente sobre as mulheres. E isso afeta diretamente a disponibilidade — de tempo, de energia e de dinheiro — para fundar ou liderar“, afirma.

“É aqui que talvez o venture capital possa ter algum impacto. Por exemplo, defendendo condições financeiras mínimas desde o início. Um salário justo para fundadores em early stage pode ser a diferença entre conseguir ou não montar uma rede de apoio. É um tema de incentivos, mas também de visão sistémica”, diz. “Isto lembra-me que fui promovida a partner enquanto estava grávida, e também que o facto de conseguido montar o setup certo, permitiu-me focar tanto no meu lado profissional como familiar”, conta.

Menos mulheres em VC influencia o tipo de investimentos que são feitos? “Não. E, curiosamente, o que vejo muitas vezes é o contrário: as mulheres, quando estão do lado da decisão, tendem a ser mais exigentes com outras mulheres. Isso é um reflexo da cultura também — não queremos parecer soft, não queremos parecer tendenciosas. Resultado: somos, muitas vezes, mais duras entre nós do que os homens seriam”, diz.

Mas, apesar de tudo, mostra-se otimista quanto à participação de mulheres no mundo VC. “Felizmente, temos exemplos fortes. Em Portugal, temos a Cristina Fonseca — cofundadora da Indico, referência incontornável neste setor. No lado de buyouts, olho com orgulho para a minha sócia na Draycott, a Vanessa Moura Brás, que só no último ano liderou investimentos que ultrapassaram os 700 milhões de euros. E há portuguesas a deixar marca fora também — como a Isabel Salgueiro, a liderar o fundo de pré-seed da KFund em Espanha”, elenca. “Estamos em minoria, sim — mas somos uma minoria altamente representativa”, conclui.

“Há um movimento [de mudança] a ganhar força e é impossível ignorá-lo”, diz Rita Branco, diretora do Impact Innovation Fund e board member da 3XP

Não sonhava ser investidora, mas cresceu a querer fazer a diferença. A forma de o fazer foi mudando ao lado dos tempos. Quis ser professora, depois jornalista, gestora, publicitária, trabalhou muitos anos nas áreas de consultoria, marketing e comunicação, contactou com empreendedores de perfis distintos. “Sempre me movi por pessoas, perceber o que as faz vibrar, ajudá-las a desbloquear o seu potencial, trazer ao de cima as suas melhores versões… Esse continua a ser o meu mojo e, diria, a minha maior competência. Talvez por isso o capital de risco tenha surgido como uma espécie de destino natural, ainda que inesperado”, conta Rita Branco.

Há sete anos, conheceu Duarte Costa, managing partner da 3XP Global, que estava a criar uma sociedade de investimentos centrada em sustentabilidade e impacto. “Acreditou em mim e desafiou-me a embarcar neste projeto. Aceitei e apaixonei-me. Pela missão, pela visão e pela responsabilidade de liderar um Fundo com propósito”, lembra.

Hoje estou a liderar o primeiro fundo de impacto português gerido por mulheres — por mim e pela Bárbara Leão de Carvalho — e dedicado a investir em empresas financeiramente sustentáveis, com impacto social e ambiental positivo, ambição de escala e lideranças com visão, integridade e coragem. Como dizia Picasso: ‘A inspiração existe, mas tem de encontrar-nos a trabalhar.’ O capital de risco veio ao meu encontro quando estava pronta, e hoje sinto que é aqui que pertenço, a criar valor com propósito”, diz.

O Impact Innovation fund, um dos quatro sob gestão da 3XP Global, é um fundo de 25 milhões, focado em investimentos de impacto sociais e ambientais em Portugal (maioritariamente) e em Espanha.

Na atividade os momentos “menos satisfatórios” são quase sempre os mesmos: “Dizer que não a empreendedores em quem acreditamos, mas cujos projetos, por razões estratégicas ou estruturais, não se enquadram nas teses de investimento dos fundos. São decisões racionais, mas emocionalmente difíceis — porque reconhecemos o valor e a coragem de quem está do outro lado. E porque, muitas vezes, sabemos que aquele ‘não’ pode ter um impacto relevante no futuro da empresa”, admite. “Como investidora de impacto, esses momentos pesam ainda mais. Porque não avaliamos apenas a escalabilidade ou o retorno financeiro — avaliamos também o propósito, a ética, a intenção. E quando tudo isso existe, mas ainda assim não é possível avançar, é particularmente duro”, reconhece.

Acredito profundamente no poder dos exemplos. Fui convidada para liderar o primeiro fundo de impacto nacional e para integrar o board na 3XP Global, e esse gesto abriu portas e validou possibilidades.

Rita Branco

Board member da 3XP Global

Os “momentos mais gratificantes” são “muitos, felizmente”. Mas o mais recente investimento do fundo, realizado em julho numa empresa agro-tech, deu-lhe um “especial orgulho”. “A fundadora é uma mulher, que nos disse que imensas portas se fecharam, nesta ronda que estava a tentar levantar, por estar grávida. Nós avançámos com o investimento, liderámos a ronda e tornámo-nos seus parceiros, acreditando muito no potencial financeiro, ambiental e social deste investimento, mas acima de tudo no futuro que ajudaremos a construir com ele”, conta.

“Estes momentos, para mim, simbolizam tudo o que queremos representar: capital que valoriza a competência, que aposta com coragem e responsabilidade e que não perpetua tomadas de decisão antiquadas”, reforça.

Aliás, acredita, que a falta de diversidade no mundo VC “influencia claramente” o tipo de investimentos que são feitos. E explica porquê. “Inconscientemente, tende-se a investir em perfis semelhantes aos que já tiveram sucesso no passado e em perfis dos nossos contextos. Isso gera um círculo vicioso que exclui inovação, perpetua desigualdades e deixa muito valor por explorar”, diz. “A diversidade — de género, de contexto, de visão do mundo — traz precisamente o contrário: mais inovação, mais retorno, mais impacto”, argumenta.

“Para mudar este cenário, temos de criar mecanismos ativos de inclusão: desde a forma como recrutamos para os fundos, aos critérios de avaliação das startups, aos modelos de incentivo, até à forma como comunicamos com o ecossistema”, defende. “Acredito profundamente no poder dos exemplos. Fui convidada para liderar o primeiro fundo de impacto nacional e para integrar o board na 3XP Global, e esse gesto abriu portas e validou possibilidades”, aponta.

Os números que evidenciam o fosso de género no empreendedorismo e no mundo VC não a desencorajam. E considera que há sinais que uma onda de mudança começa a formar-se. “Estamos a assistir, finalmente, a uma mudança real. Lenta, mas firme. E eu tenho o privilégio de fazer parte dessa transformação”, diz. “Hoje, pertenço a alguns grupos de mulheres investidoras em VC, onde partilhamos desafios, oportunidades e conquistas. Esses espaços, que há poucos anos praticamente não existiam, são agora redes sólidas de apoio, influência e visibilidade”, afirma.

E o mesmo, acredita, está a acontecer no ecossistema empreendedor. “Vemos cada vez mais startups fundadas ou cofundadas por mulheres (embora pessoalmente quisesse ver muitas mais!), com propostas ambiciosas, sólidas e transformadoras”, aponta. “Há um movimento a ganhar força e é impossível ignorá-lo, mas há ainda um longo caminho a percorrer”.

“É importante garantir diversidade nos Investment Committees dos fundos, contribui para melhores decisões de investimento”, diz Sofia Queiroz, partner do Maze VC Fund

Ainda estudava, estava a fazer mestrado em Corporate Finance, quando começou a interessar-se por venture capital e investimento de impacto, em particular. “Foi aí que percebi como venture capital e impacto podiam estar ligados — e interessei-me de imediato pelo tema”, recorda Sofia Queiroz. “Foi também nessa altura que conheci a Maze, que ainda não tinha, nessa altura, nenhum veículo de investimento. Desde então, fui acompanhando cada vez mais de perto o trabalho da Maze, ao mesmo tempo que explorava mais ativamente o mundo de empreendedorismo”, continua.

Quando a Maze levantou o seu primeiro fundo de venture capital e abriu vagas para a equipa de investimento, não hesitou e candidatou-se. Hoje é partner do Maze VC. Feito o balanço, há bons e maus momentos.

Venture Capital é, de certa forma, uma indústria ingrata: passamos mais tempo a lidar com desafios e resolver obstáculos do que a celebrar as conquistas. As más noticias surgem inevitavelmente mais rápido do que as boas. Além disso, é um setor onde demora até sabermos se as decisões que tomámos foram, de facto, bem-sucedidas”, diz.

O copo fica cheio quando “sentimos que tivemos um impacto real nos fundadores e no crescimento das empresas ao longo do seu percurso”, diz. “Quando saímos de uma reunião estratégica e recebemos uma mensagem a dizer que o nosso contributo fez a diferença. Quando apresentamos um fundador a um investidor que acaba por liderar a ronda seguinte. Quando ajudamos a pensar numa estratégia de vendas que acelera o crescimento da empresa. Essas são as pequenas conquistas em que sentimos que o nosso papel tem valor ao longo do tempo”, exemplifica.

“Pela positiva, têm-me marcado alguns dos investimentos mais recentes em deeptechcomo a Biorce, ou a WinWin. São empresas que estão a crescer de forma significativa e cujo progresso influenciou a forma como pensamos em VC e, consequentemente, a estratégia do novo fundo que estamos a levantar, centrado na interseção entre impacto e ciência. Também foi muito gratificante termos conseguido vender algumas das nossas posições em empresas do portefólio, e começar a devolver capital aos nossos investidores, o que foi fruto de um trabalho ativo com essas startups“, diz.

O copo fica mais vazio quando o projeto não descola, não levanta capital, não cresce ao ritmo esperado ou fecha. “Investimos muito cedo, e a nossa proximidade com os fundadores tende a ser grande, o que torna estas situações ainda mais difíceis. Não apenas pela perda do investimento, que faz parte do risco do setor, mas sobretudo por conhecermos de perto as pessoas que estão por trás da empresa”, admite.

“A percentagem de mulheres com posições sénior em venture capital é baixa, o que reflete a tendência global”, reconhece Sofia Queiroz. Mas, ainda assim, os tempos estão a mudar. “Nos últimos anos tenho sentido um esforço crescente — também em Portugal — por parte do grupo de mulheres que já está no setor, com várias iniciativas focadas na criação de redes, partilha de oportunidades e crescimento de carreira”, refere.

“Sinto também que, com o surgimento de mais partners de venture capital que se relocaram para Portugal nos últimos anos, a comunidade de mulheres em VC que vive no país (mesmo não sendo portuguesas) tem vindo a crescer e a unir-se, o que tem contribuído para criar um ambiente mais colaborativo e de apoio mútuo”, acrescenta.

Mas há trabalho a fazer. Sofia Queiroz deixa alguns pontos de reflexão para ultrapassar o fosso. Para começar, “garantir que investidoras mulheres têm acesso às redes certas para desenvolverem as suas carreiras — tal como no caso das fundadoras de startups, VC é um setor altamente baseado em acesso. Criar programas que exponham mulheres a redes relevantes de LP, parceiros e outros stakeholders é um passo essencial para corrigir o desequilíbrio existente”, considera.

Nos últimos anos tenho sentido um esforço crescente — também em Portugal — por parte do grupo de mulheres que já está no setor, com várias iniciativas focadas na criação de redes, partilha de oportunidades e crescimento de carreira. (…) Sinto também que, com o surgimento de mais partners de venture capital que se relocaram para Portugal nos últimos anos, a comunidade de mulheres em VC que vive no país (mesmo não sendo portuguesas) tem vindo a crescer e a unir-se, o que tem contribuído para criar um ambiente mais colaborativo e de apoio mútuo.

Sofia Queiroz

Partner do Maze VC Fund

Outro ponto importante, que comunidade VC deve “refletir mais ativamente”, é na criação de “melhores condições para que mulheres investidoras possam progredir e ter sucesso nas suas carreiras”, o que passa por “repensar políticas de trabalho relacionadas com parentalidade, nomeadamente o que significa maternity care em VC e como impacta de forma específica as mulheres na indústria”.

“Há que dar ênfase a programas que foram criados nos últimos anos focados em investir em fundos com mulheres na liderança, o que tem ajudado a direcionar mais capital para ser gerido por mulheres”, destaca ainda.

Mitigando o baixo número de mulheres VC, e com poder de decisão, Sofia Queiroz acredita que isso possa impactar no tipo de investimentos que são feitos. “Sinto que há uma maior predisposição para investidoras mulheres se sentirem mais conectadas a fundadoras ou a soluções tecnológicas pensadas para mulheres, simplesmente porque são problemas que lhes são mais próximos”, começa por dizer.

“É por isso que é importante garantir diversidade nos Investment Committees (IC) dos fundos — para assegurar que diferentes perspetivas estão representadas e que os unconscious biases [preconceitos inconscientes] são desafiados. Quanto mais diverso for o IC, menor a probabilidade de todos partilharem esses mesmos unconscious biases, o que contribui para melhores decisões de investimento”, justifica.

“Acredito que o desequilíbrio de género em VC reflete desequilíbrios estruturais mais amplos em áreas como finanças, STEM e tecnologia. Felizmente, vemos cada vez mais estímulo ao interesse feminino nestas áreas desde a educação. O passo seguinte é garantir que os próprios fundos e os investidores em fundos (LP) reconhecem os seus próprios uncounscious biases e criam mecanismos para os mitigar. Isso tem levado a uma maior consciencialização sobre a importância de ter equipas de investimento mais diversas”, conclui.

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