O bom irlandês que ‘vendeu’ o Novobanco

Mark Bourke foi decisivo para o sucesso da venda do Novobanco aos franceses por 6,4 mil milhões. Os trabalhadores apreciam simpatia e rigor do irlandês que gosta de praticar kitesurf na Caparica.

  • Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal

A agenda de Mark Bourke provavelmente nunca esteve tão sobrecarregada como nos últimos dois anos. O irlandês viajou pelos quatro cantos do mundo com a missão de vender o Novobanco e a imagem de Portugal como um bom destino para investir. Foram mais de 400 encontros com investidores da Europa aos EUA e Médio Oriente, com tempo contado ao segundo. Talvez por isso, quando surgiu o interesse dos franceses do BPCE, Bourke pediu que fossem concretos. Não queria perder tempo em interações que não dessem a lugar algum. “Ele é assim: muito focado no essencial e distrai-se pouco com o que é acessório”, comenta um diretor do banco ao ECO.

Entre os trabalhadores acredita-se que, se a venda do Novobanco foi bem-sucedida, isso se deveu à elevada competência do seu líder, um irlandês de 59 anos que chegou a Lisboa há cerca de sete anos e que percebe melhor português do que fala.

Nunca ninguém pensou que pudesse ser vendido por aquele valor. Fez um grande trabalho”, observa uma gestora do banco.

“O Mark geriu todo o processo com muito foco. Foi o grande coordenador e conciliador porque ao mesmo tempo estava a preparar o banco para o IPO”, lembra um diretor.

O próprio admite que foi “o melhor IPO que nunca existiu”. Embora o plano para a ida para a bolsa tenha caído por terra, não foi por falta de interesse. “Podia ter feito o IPO duas vezes”, segundo admitiu em entrevista à Bloomberg.

6,4 mil milhões? “Não é muito normal”

Mark Bourke também granjeia respeito e admiração junto dos pares. Isso já acontecia antes da venda, que só ajudou a confirmar a boa reputação. “Quando há uns meses se falou num valor de cinco mil milhões pelo Novobanco, também tive dúvidas e foi vendido por 6,4 mil milhões de euros. É um price to book de 1,6 vezes, o que não é muito normal”, afirmou recentemente o CEO do rival Santander Portugal, Pedro Castro e Almeida, que no passado já tinha elogiado Mark Bourke por estar a contribuir para uma boa imagem de Portugal lá fora.

“É ótimo ter um banco francês a pagar o que pagou por um banco português. (…) Haver investidores europeus interessados em investir em Portugal demonstra a atratividade do país”, frisou Castro e Almeida.

Para os bancos, de resto, a venda do Novobanco é a melhor notícia que poderiam ter. O Fundo de Resolução irá encaixar cerca de 860 milhões de euros com esta operação. O dinheiro vai ajudar a abater a dívida ao Estado e a aliviar o fardo que pesará sobre o setor nas próximas décadas.

O novo dono também considera que Mark Bourke fez um “ótimo trabalho” e não vê razão para mudar.

“Sejamos claros, o Novobanco tornou-se um dos bancos mais rentáveis da Europa (…). A administração fez um excelente trabalho e, claro, vou contar com o seu compromisso”, afirmou o CEO do Groupe BPCE, Nicolas Namias, quando anunciou o negócio de compra há dois meses.

Mark Bourke, CEO do Novo Banco, em entrevista ao ECO - 02FEV24
Mark Bourke, CEO do Novobanco, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Fã de Portugal e de kitesurf na Caparica

Bourke também quer continuar por cá. Gosta de Portugal e da praia. É fã de kitesurf, que pratica com frequência nas ondas da Costa da Caparica.

Chegou a Lisboa em 2019 para ocupar o cargo de administrador financeiro. Vinha do intervencionado Allied Irish Banks, que ajudou a vender na bolsa — o bom trabalho valeu-lhe a distinção de melhor CFO para o Irish Times em 2018.

O objetivo era fazer o mesmo caminho aqui. Quando assumiu as rédeas do Novobanco em 2022, na sequência da saída de António Ramalho, o banco já tinha concluído a dura reestruturação e os prejuízos eram coisa do passado. Os americanos da Lone Star já estavam a pensar na venda e queriam aproveitar a experiência de Bourke na Irlanda. Faltava acabar com o acordo de capital contingente (CCA, na sigla em inglês), o mal-afamado mecanismo através do qual o banco recebeu não só injeções milionárias do Fundo de Resolução (3,5 mil milhões ao todo) para cobrir perdas com ativos tóxicos herdados do BES, mas também a ira política nos últimos anos.

No final do ano passado, quando o Novobanco se livrou do CCA, Bourke juntou os trabalhadores na nova sede no Tagus Park e brindou com champanhe o início de um novo capítulo sem as amarras do Estado.

Tolerância zero com quem maltrata trabalhadores

É muito bem visto entre os trabalhadores. Apreciam o perfil informal e descontraído, mas rigoroso do seu chefe máximo e, por isso, receberam com agrado a notícia de que o novo patrão conta com Mark Bourke para liderar o próximo capítulo do banco.

“Escapa um pouco ao perfil de bancário que associamos. Nunca vi o Mark de gravata. Nem nas conferências com os outros banqueiros. Mas não é por isso que perde autoridade”, adianta outra fonte. “Inspira confiança e é muito verdadeiro”, reforça.

“É muito pro-trabalhadores. Quando queremos alguma medida, apresentamos-lhe logo as contas de quanto custará ao banco para não perder tempo”, revela a coordenadora da comissão de trabalhadores, Liliana Felício.

“Tem tolerância zero para quem maltrata os trabalhadores”, acrescenta.

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