A grande maioria dos gestores foi capaz de alcançar em 2025 ganhos acima da taxa de inflação média, mas mais de metade revelou-se incapaz de superar os seus índices de referência.
- O ano de 2025 destacou-se como um período excecional para os fundos nacionais que investem em ações europeias e particularmente empresas ibéricas.
- Apesar do desempenho positivo, mais de metade dos gestores nacionais não conseguiu superar os seus índices de referência.
- O universo das obrigações não foi território fértil para os gestores nacionais em 2025 com 54% dos fundos a ter um desempenho abaixo da taxa de inflação.
O ano que passou ficará para a história como um dos mais notáveis para os mercados bolsistas da Península Ibérica. O PSI disparou 29,6% — o melhor desempenho desde 2006 –, enquanto o vizinho IBEX 35 pulverizou recordes com uma valorização estratosférica de 49%, a mais expressiva desde 1993.
Do outro lado do Atlântico, a onda de ganhos também foi visível, apesar da queda abrupta do mercado no início de abril ao sabor do anúncio das tarifas comerciais de Donald Trump. O S&P 500 manteve-se em terreno positivo pelo terceiro ano consecutivo, avançando 17,9%, impulsionado pela febre da inteligência artificial e pelos lucros resilientes das gigantes tecnológicas.
Para os fundos de investimento domiciliados em Portugal e regulados pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), este contexto favorável traduziu-se num ano amplamente positivo, de acordo com dados recolhidos junto da própria CMVM e da Refinitiv.
Entre os 286 fundos abertos com pelo menos um ano de atividade analisados pelo ECO, apenas 32, cerca de 11% da amostra, encerraram o ano passado com perdas. A esmagadora maioria terminou com ganhos, e com 67,5 % dos fundos a oferecer rendibilidades acima da taxa de inflação média que se cifrou nos 2,3%, segundo o Índice de Preços do Consumidor do Instituto Nacional de Estatística.
No topo do pódio dos fundos nacionais mais rentáveis de 2025 surge o Caixagest Ações Portugal Espanha, que fechou o ano com ganhos de 41,4%, e com o rácio retorno/risco mais elevado entre os fundos de ações.
Mas nem tudo foram rosas no jardim da gestão ativa nacional. Mais de metade (52%) dos gestores revelaram-se incapazes de superar o seu índice de referência (benchmark), uma taxa de insucesso que espelha a dificuldade estrutural da indústria em justificar as comissões cobradas quando comparada com alternativas passivas. O problema é particularmente agudo nos fundos de ações, onde apenas 28% dos gestores conseguiram bater o seu benchmark.
A exceção à regra foram os fundos de ações portuguesas, com praticamente todos a apresentarem rendibilidades acima dos 30%, batendo assim os 29,6% do PSI — embora todos tenham ficado aquém dos 35,5% do índice quando contabilizados os dividendos distribuídos pelas empresas cotadas.
No topo do pódio dos fundos nacionais mais rentáveis de 2025 surge o Caixagest Ações Portugal Espanha, que fechou o ano com ganhos de 41,4% e mais de 47 milhões de euros de ativos sob gestão.
O feito foi conseguido por via de uma carteira fortemente concentrada em bancos espanhóis, colocando entre as seis principais apostas do fundo quatro instituições financeiras do país vizinho: Santander, Sabadell, CaixaBank e Bankinter. As restantes duas posições do sexto pelotão são preenchidas pela Inditex e pela EDP.
Mais de metade (54%) dos fundos nacionais de obrigações apresentou um desempenho abaixo da taxa de inflação média de 2,3%, gerando assim perdas reais para os subscritores.
O fundo gerido pela Caixa Gestão de Ativos conseguiu bater o desempenho de 29,6% do PSI, embora tenha ficado aquém dos 49% do IBEX 35. Atualmente conta com uma rendibilidade anualizada de 16,2% a cinco anos e de 6,9% a dez anos.
Mas não foi apenas a rendibilidade absoluta alcançada pelo Caixagest Ações Portugal Espanha que o fazem brilhar. O fundo apresentou também o melhor rácio retorno/risco (medido pela relação entre o desempenho alcançado e a volatilidade anual da unidade de participação) entre todos os fundos nacionais de ações. Significa que o Caixagest Ações Portugal foi não apenas o fundo que mais rendeu em 2025 como também o fundo de ações que mais ganhos gerou com menos oscilações.
No pódio dos grandes vencedores do ano passado surgem dois fundos geridos pela Futuro –– Sociedade Gestora de Fundos de Pensões, do grupo Montepio: o fundo setorial Montepio Euro Financial Services, que fechou o ano com ganhos de 38,6%, e o fundo de ações europeias PPA Ação Futuro, que encerrou com uma valorização de 33,1%. Ambos beneficiaram da exposição ao setor financeiro europeu, que viveu um ano dourado.
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Gestores provam valor mas nem todos convencem
Entre os fundos nacionais que investem exclusivamente em empresas cotadas na Euronext Lisboa, o IMGA Ações Portugal, gerido por David Afonso foi quem mais se destacou, ao valorizar 32,7% na categoria A.
Com um património superior a 418 milhões de euros no final do ano passado, o maior fundo de ações portuguesas fechou o ano tendo como principais posições a Galp Energia, o BCP e a Jerónimo Martins. Nos últimos dez anos, o IMGA Ações Portugal contabiliza uma rendibilidade anualizada de 6,5%, um desempenho sólido que bate confortavelmente a inflação acumulada no período.
Contudo, quando se analisa a relação retorno/risco, o vencedor no segmento de ações nacionais foi o Sixty Degrees Ações Portugal, gerido por Virgílio Garcia. O fundo fechou 2025 com uma rendibilidade de 32,6% — praticamente empatado com o IMGA –, mas apresentou um rácio retorno/risco 9% acima da média da categoria e 11% superior ao fundo da IMGA. Este desempenho sugere uma gestão mais disciplinada da volatilidade, fundamental para investidores de longo prazo que procuram minimizar as oscilações na carteira.
Os fundos nacionais de tesouraria renderam cerca de 2,5% em 2025, mais um ponto percentual do que a taxa média de remuneração dos depósitos no ano passado até novembro.
De notar que praticamente todos os fundos de ações portuguesas conseguiram bater o PSI em 2025, uma exceção notável face ao padrão geral de insucesso da gestão ativa.
A explicação reside na menor eficiência do mercado doméstico comparativamente aos grandes índices globais, criando oportunidades para gestores capazes de identificar desalinhamentos entre preço e valor. Ainda assim, nenhum conseguiu superar os 35,5% do PSI com dividendos incluídos, evidenciando a importância de contabilizar a remuneração acionista na avaliação de performance.
Na categoria dos Planos Poupança-Reforma (PPR), um dos produtos preferidos pelos portugueses para construir um complemento de reforma que agrega quase 19 mil milhões de euros sob gestão, o fundo PPR mais rentável de 2025 foi o Oxy Capital LiquidOpportunities PPR na categoria DA, com uma valorização de 24,5%. Porém, a estrutura de comissões deste PPR inclui um mecanismo que merece atenção redobrada dos seus subscritores.
De acordo com o prospeto deste fundo, a gestão cobra uma “comissão de performance” de 20% sobre a valorização líquida do fundo que excedam um ganho mínimo garantido de 8% ao ano — montante que é alocado à categoria AA do PPR, destinada exclusivamente aos colaboradores da gestora. Esta comissão é cobrada a cada cinco anos ou quando o investidor resgata o seu investimento antes desse período, conferindo assim um impacto significativo na rendibilidade líquida do investimento.
O pódio dos PPR mais rentáveis de 2025 é completado pelo Bankinter Mega TT PPR, que apresenta uma exposição mínima de 85% ao mercado acionista e registou ganhos acima dos 23% nas três categorias sob o qual é comercializado, e pelo Smart Invest PPR Dinâmico do Banco Invest, que investe pelo menos 70% da carteira em ações, essencialmente através de fundos cotados (ETF), e que fechou o ano com ganhos de 9,9%.
Destaque ainda para os PPR M3 Capital do BBVA, de nível de risco 2, e para o Bankinter Obrigações EUR 2027 PPR, de nível de risco 3, que apesar de não se terem destacado pelas rendibilidades absolutas alcançadas — 2,7% e 2,9%, respetivamente — apresentaram um rácio retorno/risco bem acima dos seus pares, oferecendo assim uma proposta de valor interessante para investidores mais conservadores.
Obrigações desiludem, tesouraria e imóveis brilham
O universo das obrigações não foi território fértil para os gestores nacionais em 2025. Mais de metade (54%) dos fundos de dívida apresentou um desempenho abaixo da taxa de inflação média de 2,3%, gerando assim perdas reais para os subscritores.
O contexto de yields em alta e preços em queda — particularmente evidente na primeira metade do ano, antes da estabilização da política monetária do BCE — penalizou as carteiras de rendimento fixo. Mesmo assim houverem fundos que se destacaram pela positiva.
Foi o caso do Santander Investimento Global FI Mobiliário Aberto, que alcançou uma valorização de 5,51%, tornando-se no fundo nacional de obrigações mais rentável de 2025. O fundo apresenta uma carteira exposta a obrigações mundiais unicamente através de unidades de participação do fundo Santander GO Dynamic Bond, gerido pela PIMCO, um dos maiores gestores de obrigações a nível mundial.
Seguem-se dois fundos da IMGA: o IMGA Euro Taxa Variável I, focado em obrigações europeias, e o IMGA Rendimento Mais I, com exposição a obrigações mundiais, ambos com ganhos de 3,2% e 3,5%, respetivamente.
No universo do betão, o fundo imobiliário aberto mais rentável do ano voltou a ser o AF Portfolio Imobiliário, repetindo o triunfo de 2024 com uma rendibilidade de 8,31%.
Entre os fundos de tesouraria, que se posicionam como alternativa direta aos depósitos bancários, o ano revelou-se satisfatório quando comparado com a remuneração que os bancos pagam pelas poupanças das famílias. Segundo dados da Refinitiv, os fundos nacionais de tesouraria renderam cerca de 2,5% em 2025, mais um ponto percentual do que a taxa média de remuneração dos depósitos no ano passado até novembro.
O melhor exemplo é espelhado pelo IMGA Money Market USD A e o IMGA Money Market I, que fecharam o ano com valorizações de 4,13% e 2,45%, respetivamente, ao mesmo tempo que apresentaram um rácio retorno/risco muito acima dos concorrentes.
Para aforradores que procuram uma alternativa líquida aos depósitos com potencial de rendibilidade superior, estes produtos demonstraram o seu valor em 2025, oferecendo ganhos reais após inflação sem comprometer significativamente a segurança do capital.
No universo do betão, o fundo imobiliário aberto mais rentável do ano voltou a ser o AF Portfólio Imobiliário, gerido pela Interfundos, repetindo o triunfo de 2024 com uma rendibilidade de 8,31%. Com um património superior a 183 milhões de euros, o fundo contabiliza uma rendibilidade anualizada de 6,1% nos últimos dez anos, batendo toda a concorrência e posicionando-se como uma referência na categoria.
Seguem-se dois fundos geridos pela Square Asset Management que apresentam um rácio retorno/risco melhor que o fundo da Interfundos: o Property Core Real Estate Fund, que acumula 343 milhões de euros de ativos sob gestão e fechou o ano com uma rendibilidade de 6,22%, e o CA Património Crescente, o maior fundo de investimento imobiliário nacional com um património superior a 1.400 milhões de euros e que em 2025 alcançou ganhos de 6,16%.
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Mas nem tudo foram vitórias no universo dos fundos nacionais. Entre os principais derrotados do ano destacam-se as duas classes do fundo alternativo 3CC Global Crypto Fund, da 3 Comma Capital, que apresenta uma carteira com exposição a vários criptoativos como Bitcoin, Etherum e Solana, e que encerrou 2025 com perdas acima dos 22%.
O desempenho negativo espelha a volatilidade extrema destes ativos, que viveu um ano de grande volatilidade, como foi visível pela cotação da Bitcoin que, depois de atingir um novo máximo histórico acima dos 121 mil dólares em outubro, caiu 27% até ao final do ano, fechando o ano perto dos 88 mil dólares e não só apagando a totalidade dos ganhos do ano como encerrando 2025 a perder mais de 5%.
Destaque ainda para o fundo de obrigações mundiais Lynx Defensivo, que perdeu 17,8% no ano passado, para o fundo de gestão de património imobiliário Fungepi, que fechou o ano com uma desvalorização de 12,95%, e ainda para o fundo de ações dos EUA Optimize LFO Rise US Equities, que viu as três categorias sob as quais é comercializado fecharem o ano com perdas entre 9,7% e 11% — um desempenho particularmente penalizado pela desvalorização de 12% do dólar face ao euro, apesar de o S&P 500 ter valorizado quase 18%.
A análise do desempenho dos fundos nacionais em 2025 confirma uma verdade incómoda para a indústria da gestão ativa: mais de metade dos gestores continua incapaz de justificar as comissões cobradas quando comparados com os índices de referência.
Com apenas 48% dos fundos a conseguir superar o seu benchmark, a questão com que se deparam os investidores é se vale a pena pagar pela gestão ativa ou seria mais sensato optar por alternativas passivas, mais baratas e, frequentemente, mais eficazes.
Para este ano, os desafios não serão menores. Com as bolsas europeias a negociarem perto de máximos históricos, rácios de avaliação esticados em muitas praças financeiras e um contexto geopolítico marcado pela incerteza das políticas comerciais norte-americanas, os gestores terão de demonstrar capacidade de seleção de ativos para justificar a confiança — e as comissões — dos investidores. O ano de 2025 foi generoso. O próximo poderá ser bem mais seletivo.
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Os fundos nacionais que mais brilharam no último ano
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