A bomba-relógio do risco climático em Portugal
Ricardo Pinto dos Santos, CEO da MDS Portugal, está preocupado com a falta de proteção por seguros das famílias e empresas, porque os considera fundamentais para enfrentar novos riscos climáticos.
A sucessão de tempestades e incêndios que temos enfrentado nos últimos anos desafia a ideia de que estes fenómenos são excecionais.
Só nos últimos 17 anos, Portugal enfrentou 20 eventos climáticos extremos, sendo o sétimo país europeu mais afetado por perdas económicas causadas por estes fenómenos. E, segundo os especialistas, em 2030, 95% da população nacional poderá estar exposta a riscos climáticos.
Num país com características como o nosso, com forte exposição costeira, histórico de incêndios florestais e polos urbanos vulneráveis às cheias, é imperativo encarar o problema com pragmatismo e responsabilidade.
Depois dos danos humanos, sociais e económicos, a prioridade é sempre a recuperação. Mas importa colocar uma questão estrutural: estamos financeiramente preparados para recuperar?
O risco estrutural
Portugal padece de uma fragilidade silenciosa. Falo do protection gap, isto é, a diferença entre as perdas económicas totais e as perdas efetivamente cobertas por seguro. O protection gap é um risco sistémico.
A nível mundial, a Swiss Re estimou que as perdas económicas globais por catástrofes naturais atingiram 275 mil milhões de dólares em 2022, das quais apenas 125 mil milhões estavam segurados. Isto significa que, à escala global, mais de metade do impacto financeiro permanece descoberto.
A diferença entre o que está ou não segurado traduz-se em impacto direto sobre empresas, famílias e inevitavelmente sobre as finanças públicas.
As tempestades recentes que assolaram o país comprovam-no. A Autoridade de Supervisão de Seguros e Pensões (ASF) estimou que os danos patrimoniais provocados pelas tempestades geraram perdas de cerca de 600 milhões de euros, contabilizando apenas o património segurado. Se tivermos como referência o estudo da Swiss Re referido acima, percebe-se a magnitude do impacto socioeconómico da falta de proteção, tanto para as famílias e empresas quanto para o país como um todo.
O custo económico da falta de proteção
Acresce outro dado estrutural. O nosso tecido empresarial é largamente composto por PME, muitas das quais operam com capital limitado e reduzida capacidade de absorção de choques. Quando uma PME sofre um sinistro sem cobertura adequada, arrisca-se a enfrentar um período de paragem insustentável, com consequências sociais relevantes, como lay-offs, despedimentos ou, no limite, encerramento.
As famílias também não estão imunes. Nas habitações, é frequente verificar-se a desatualização dos capitais seguros face ao custo real de reconstrução.
Para as empresas e famílias, por causa do protection gap, o resultado é inevitável. Para o país, esta bomba-relógio poderá ser uma catástrofe sem paralelo.
Recentemente, tive a oportunidade de ouvir o presidente da Câmara Municipal de Leiria num evento público, no qual o autarca de uma das zonas mais afetadas pelas tempestades, enalteceu o setor segurador. Foi este, segundo Gonçalo Lopes, o primeiro (e até àquele momento em que falava) o único a contribuir para repor a situação.
O seguro transforma a incerteza em previsibilidade financeira e isso faz toda a diferença na capacidade de recuperação. O setor segurador desempenha um papel social de extrema importância, ao permitir mitigar e gerir o risco de forma preventiva, atuando com rapidez na reposição da normalidade.
Reduzir o protection gap
Existem três vias claras para reduzir o protection gap em Portugal. Primeiro, sensibilizar e educar a sociedade civil e o tecido empresarial para a necessidade de adequar capitais e coberturas à realidade do risco. Segundo, rever periodicamente as apólices, porque o risco evolui com o negócio, com o património e com o próprio contexto climático. Terceiro, encarar o seguro pelo que ele verdadeiramente é, um instrumento de resiliência, de gestão e de continuidade.
Num tempo em que falamos de sustentabilidade empresarial, importa recordar que não existe sustentabilidade sem capacidade de resistir ao choque. A resiliência financeira é parte integrante da sustentabilidade.
Perante um risco que se tornou estrutural, a proteção não pode continuar a ser tratada como acessória.
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