A frustração de aprender
A questão que cada profissional deve colocar a si mesmo não é "se" se sente frustrado sobre não ter determinada competência, e sim: "que autoestrada neuronal está disposto a construir hoje?".
Quem nunca sentiu que tentou ser mais empático, ou mais criativo, ou mais colaborativo e que no meio do turbilhão que são muitos dos nossos dias, entre vida profissional e vida pessoal, a frustração acaba por ser o denominador comum a estas tentativas de desenvolvimento?
No mundo corporativo, a exigência por competências humanas como empatia, comunicação eficaz e pensamento crítico nunca foi tão alta. Relatórios como os do World Economic Forum referem que algumas destas competências humanas, como a empatia, como o pensamento crítico serão muito requeridas nas organizações em 2030, e 2030 está já ao virar da esquina.
No entanto, o desenvolvimento de competências num adulto pode representar um paradoxo: um processo lento e (aparentemente) frustrante que parece ir contra a urgência do mercado ou as próprias urgências que colocamos a nós mesmos.
A verdade desconfortável é que a aprendizagem transformadora começa, através de passos pequenos, de repetição e com recurso à emoção. E sim, por vezes no nosso turbilhão temos a sensação de fracasso. Mas é real? Não! É apenas um medo, um reflexo de não termos ido ao encontro de uma expectativa que colocámos e o nosso cérebro interpreta isso como um “perigo” para a nossa sobrevivência.
Este sentimento não é um sinal para desistir, mas sim um sintoma natural e biológico, e é importante termos essa consciência quando estamos num processo de aprendizagem, de desenvolvimento, de algo que nos pode ser complexo.
Quando aprendemos algo novo, desde liderar uma conversa difícil a falar em público, o nosso cérebro está literalmente a construir novas redes neuronais, novas autoestradas de informação. No início, estas ligações são débeis e ineficientes. A “eletricidade” da informação não flui facilmente, exigindo um esforço consciente e enorme, que muitas vezes resulta em erro e desânimo (a tal perceção de perigo que referi acima). É precisamente através da consistência que podemos dar a volta a esta situação.
Podemos não ver nada ao princípio mas de repente, o comportamento está enraizado e a competência surge.
Cada repetição, cada tentativa, mesmo as que (aparentemente) falham, contribui para fortalecer as novas redes neuronais. É um trabalho invisível, lento e biológico. A consistência não é uma filosofia, é um imperativo biológico.
Contudo, a repetição por si só é um motor incompleto. Um grande catalisador da aprendizagem é a emoção. O neurocientista António Damásio, em “O Erro de Descartes”, demonstrou que a emoção não é inimiga da razão (ao contrário da visão cartesiana tradicional), mas sim uma componente essencial na tomada de decisão e na memorização.
Uma experiência de aprendizagem carregada de emoção, seja a felicidade/orgulho de uma pequena vitória ou a vulnerabilidade de um erro corrigido, é marcada pelo cérebro como relevante. A emoção (resultante de alguns dos nossos neuroquímicos) funciona como uma “cola” que cimenta a memória, garantindo que a lição não se perde.
É aqui que entra o grande desafio no ambiente de trabalho moderno, que premeia a gratificação instantânea, e onde nós aprendemos a nos auto colocar essa mesma pressão.
A ausência de um “gosto” ou de um aplauso imediato após o esforço pode levar ao abandono antes do tempo. É importante por isso pensar em passos curtos (ao invés de um gigante) e celebrar esses micro passos ou micro vitórias. Celebrar os pequenos passos, não é cliché, é uma estratégia biológica.
Cada micro vitória reconhecida liberta dopamina, o neurotransmissor da motivação, que sinaliza ao cérebro: “Isto foi bom. Repete. Vá tu consegues” Ao criar os nossos próprios milestones (“hoje ouvi sem interromper”, “a minha apresentação foi 1% melhor” entre outros), alimentamos o ciclo da consistência e a nossa capacidade de dar continuidade ao processo de aprendizagem.
É por esta razão que o desenvolvimento de competências humanas é tão distinto da aprendizagem técnica. Elas não se decoram num manual; praticam-se em cenários reais, com repetição, emoção e uma dose extraordinária de paciência e consistência.
Num futuro onde a inteligência artificial automatizará muitas tarefas técnicas, serão estas competências: empatia, comunicação, liderança, pensamento crítico que vão ser o verdadeiro diferenciador humano.
O processo de as adquirir não será nem sempre fácil, nem sempre fantástico. Será um percurso marcado por tentativas, erros e um progresso quase impercetível. Até que passa a ser percetível.
A recompensa não é apenas a aquisição de uma nova competência, mas sim uma transformação fundamental na forma como interagimos com o mundo.
A questão que cada profissional deve colocar a si mesmo não é “se” se sente frustrado sobre não ter determinada competência, e sim: “que autoestrada neuronal está disposto a construir hoje?”, ou seja, que processo de aprendizagem está hoje disposto a realizar com paciência e consistência para adquirir as competências críticas de sucesso para o futuro do trabalho.
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