A Galp tenta Moever-se e o Governo confunde-se
A comunicação deste Governo nunca foi fantástica, mas num momento crucial mostra-se errática e contraditória, como se vê no caso Galp/Moeve e no das mudanças à lei laboral.
A Galp tem sido fonte de várias notícias importantes no último ano. É uma das maiores empresas portuguesas e com funções críticas no funcionamento do país, cotada em bolsa e tem um papel crescente no mercado internacional e portanto é natural que atraia atenções. Mas mesmo para quem acompanha a empresa em detalhe, as novidades têm sido múltiplas e surpreendentes.
Há cerca de 12 meses, o CEO da petrolífera, Filipe Silva, demitia-se por “razões familiares”, mas foi devido à divulgação de notícias (pelo ECO) de uma denúncia anónima sobre uma relação pessoal com uma diretora de topo mantida em segredo. Seguiu-se a nomeação inusitada de uma liderança bicéfala, dois CEO, que ainda se mantém.
Em dezembro, a Galp escolheu a francesa TotalEnergies como parceira na exploração de petróleo no complexo do Mopane, na Namíbia. O projeto é o mais promissor da região – a empresa falou em reservas de 10 mil milhões de barris – e portanto não era surpreendente a Galp procurar um parceiro com mais experiência de operação na Bacia do Orange e maior capacidade financeira, porque procurar, testar e extrair crude em águas profundas é uma atividade dispendiosa. A surpresa residiu nos termos do acordo com os franceses – troca de ativos e ajuda da Total no financiamento, mas zero ‘cash upfront’, uma expectativa que até um dos CEO admitiu existir. Os investidores não gostaram e no dia do anúncio do acordo, as ações afundaram quase 15%, a maior queda desde março 2020 e o estalar da pandemia.
Passado menos de um mês, a Galp fez um novo acordo, desta vez com a espanhola Moeve (antiga Cepsa), nomeadamente para iniciar conversas com vista à fusão dos negócios ‘downstream’, ou seja tudo que não seja exploração e produção de petróleo. A empresa portuguesa poderá ficar com cerca de 50% do negócio combinado de estações de serviço e pelo menos 20% do negócio ‘industrial’, que deverá unir três refinarias na Península Ibérica, a da Galp em Sines e duas da Moeve do outro lado da fronteira.
Desta vez, os investidores aplaudiram, com analistas e vozes importantes do setor da energia entusiasmados com a possibilidade da criação de um ‘campeão europeu’. Até aqui tudo bem, a Galp é uma empresa privada e pode tomar decisões que podem desiludir ou deliciar os seus acionistas como quiser na definição e execução da sua estratégia. Excepto que não é assim tão simples, por duas razões.
A primeira é que o Estado tem, através da Parpública, uma participação de 8,2% na empresa. É uma quota muito menor que os 55,1% da Amorim Energia ou os 36,7% disperso em bolsa, mas ainda assim é relevante. Só para termos uma noção, essa participação na segunda-feira valia cerca de 906 milhões de euros.
A segunda é que a Galp tem um papel crucial no abastecimento de combustíveis no país. É dona da única refinaria que temos – depois de ter encerrado de forma repentina a de Matosinhos quatro dias antes do Natal de 2020 – e que fornece 90% do que o mercado consome. Ou seja, poderá ser visto como um ativo estratégico que tem de ser salvaguardado, pois estarão em causa questões de soberania, de segurança nacional e de autonomia de fornecimento. Os sindicatos dos trabalhadores da Galp já mostraram apreensão sobre a questão da soberania nacional além, naturalmente, sobre eventuais despedimentos.
De recordar que a Moeve é espanhola, mas tem como principais acionistas o fundo soberano de Abu Dhabi e o fundo de investimento norte-americano The Carlyle Group. Mas sejamos claros, não é necessário inventarmos agora fantasmas. Há acionistas destas regiões presentes em várias grandes empresas portuguesas e na energia os maiores acionistas da EDP e da REN até são chineses. Esses tabus já foram quebrados há mais de uma década.
Por outro lado, o Governo tem de proteger o interesse nacional, dentro do possível. Ainda não se sabe o que vai fazer sobre este assunto. Dialogar ou pressionar para conseguir garantias que protejam o interesse nacional sem lesar os privados? Ainda é cedo nas conversações e veremos.
Mas o que podemos ver já é que esta possibilidade de um novo rumo da Galp mostra um desnorte do Governo. Será que o Executivo de Luís Montenegro, não foi tido nem achado nestas decisões importantes de uma empresa em que é acionista? No caso da tentativa de fusão com a Moeve não teria sido benéfico o Governo ter sido envolvido no processo à partida, até para mostrar coordenação. Não, o que se seguiu foi a demonstração de descoordenação interna ministerial.
A primeira a reagir foi a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, a 13 de janeiro. A governante fez os disclaimers todos – depende das condições, vamos acompanhar de perto, está tudo em aberto, etc – antes de meter a pata na poça. Com uma aritmética própria, disse que não vê Portugal a perder controlo de uma refinaria, somos nós que ganhamos o controlo de outras duas refinarias, em Espanha. Com 20%? Sublinhou ainda que o tamanho conta, especialmente na energia, e que é apologista do mercado aberto, pois quem fecha tem medo.
As palavras da ministra foram criticadas pelos sindicatos, previsivelmente, mas acabaram por bater na frieza do Ministério da Economia e Coesão Territorial, que no dia seguinte emitiu um comunicado a dizer que o Governo fora informado sobre o início das negociações entre a Galp e a Moeve e que por estarem em causa ativos estratégicos para a soberania energética o Governo irá ficar atento. Afinal, o aberto poderá não ser assim tão bom.
Passadas duas semanas, Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e Coesão, foi ainda mais longe, disse numa conferência que era “melhor” termos uma refinaria totalmente controlada por Portugal e mostrou-se esperançoso sobre uma solução equilibrada. Passados mais dois dias, a ministra do Ambiente e Energia, veio pôr-se em linha. “Claro que é melhor”, disse.
Maria da Graça Carvalho vincou ainda que o Governo está coordenado. Se está, não parece. Castro Almeida ‘corrigiu’ a colega, mas acabou por ter de fazer ele próprio um volte face sobre outro assunto. No mesmo evento em que falou da Galp, tinha dito que a revisão da lei do trabalho “não tem pernas para andar” sem acordo na concertação social, mas meras horas depois teve de reformular a posição, esclarecendo que desejavelmente deve haver acordo na concertação social e que isso vai facilitar a sua aprovação na Assembleia da República. O tema chegou ao briefing do Conselho de Ministros, com António Leitão Amaro obrigado a declarar que este “é o tempo da Concertação Social”.
O ministro é reconhecido pelas suas diversas competências e viu o seu peso político reforçado com a pasta da Economia neste Governo, mas é muito dado a gaffes, como vimos no dia do apagão e a hilariante história dos motoristas e do combustível. Todos os governos têm, claro, os seus wild ones que os assessores tentam controlar, quase sempre sem grande sucesso.
Mas numa altura em que o Governo tenta recuperar de uma pesada derrota nas presidenciais com ação – vide a apresentação de mais um ‘pacotão’, o dos transportes, na semana passada – e navegar com calma o tempo até à decisão sobre a iniciativa mais importante neste mandato (até agora), as alterações à lei laboral, este tipo de ruído é contraproducente. Ter ministros a falar todos os dias é inevitável. Que falem sobre temas que se cruzam também. Mas têm de falar entre eles para evitar estes avanços e recuos que minam a confiança nas iniciativas e no Governo.
Nota final: o Governo anunciou em outubro do ano passado a criação de uma central de comunicação para ajudar na coerência das mensagens de diversos ministérios e na preparação de briefings de ministros. A ideia é ter a central em funcionamento no prazo de um ano. Talvez seja de acelerar isso, antes que seja tarde…
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