A perda de Natureza não é (só) um tema ambiental

  • Afonso Dinis
  • 5 Junho 2026

A perda de natureza é um tema económico e social, porque não só perdemos espécies emblemáticas, como recursos fundamentais, que são a base da economia e essenciais para o bem-estar humano.

Na semana do Dia Mundial do Ambiente, é relevante refletir sobre o impacto da perda de natureza, para perceber que é um tema que transcende a esfera ambiental. De acordo com o Living Planet Index (WWF), a dimensão das populações selvagens monitorizadas diminuiu 73% entre 1970 e 2020. Além disso, a Comissão Europeia considera 30 matérias-primas críticas (MPC), com base em critérios de importância económica e risco de fornecimento. O projeto eMaPriCe (Estudo de Matérias-Primas Críticas e estratégicas e economia circular em Portugal) acrescenta a cortiça natural a estas 30 MPC, pela sua relevância estratégica para Portugal. Assim, entende-se que a perda de natureza é um tema económico e social, porque não só perdemos espécies emblemáticas, como recursos fundamentais, que são a base da economia e essenciais para o bem-estar humano.

Para chamar atenção para estes desafios, foi definido um objetivo global Nature Positive: “travar e reverter a perda de natureza até 2030, tomando como referência os valores de 2020, e alcançar a recuperação total até 2050”. Isto significa garantir que, em 2030, haja mais natureza no mundo do que em 2020 e que a recuperação continue a partir daí. Esta meta, em conjunto com o Acordo de Kunming-Montreal e regulamentos como a Lei do Restauro da Natureza, destacam que a perda de natureza é também um tema político e legal, pela importância do alinhamento de ambição e responsabilização global, à semelhança da meta de 1,5 ºC do Acordo de Paris.

Pensando nas principais barreiras para contrariar a perda de natureza, destaca-se a falta de financiamento. A boa notícia, é que existe financiamento; a má, é que está a ser canalizado maioritariamente para atividades que prejudicam a natureza. Estudos recentes mostram que, todos os anos, é investido apenas cerca de 20% do financiamento necessário para expandir áreas protegidas terrestres e marinhas, conservar e restaurar ecossistemas, melhorar a gestão da agricultura, florestas e pescas, controlar espécies invasoras, reforçar a conservação em ambientes urbanos e reduzir a poluição da água. O setor privado apresenta um papel particularmente relevante, investindo cerca de 149 vezes mais na degradação da natureza. Estes investimentos podem levar a perdas de quase 3 biliões de dólares americanos por ano.

Por outro lado, de acordo com estimativas do Fórum Económico Mundial, uma economia nature positive pode gerar mais de 10 biliões de dólares americanos anualmente, e criar 395 milhões de empregos até 2030. Isto significa que, na sua totalidade, um investimento anual na natureza suficiente, sólido e estruturado, poderá resultar num retorno cerca de 229 vezes maior. E este financiamento não se refere exclusivamente à canalização de fundos para atividades no terreno. As próprias instituições financeiras reconhecem a relevância do tema e estão a integrá-lo nos seus portefólios, por identificarem a perda de natureza como um tema financeiro e de risco. O Banco Central Neerlandês, por exemplo, assume que a perda de natureza se traduz em risco financeiro sistémico, e integra o tema nas suas decisões de investimento devido à exposição significativa a atividades dependentes de serviços dos ecossistemas do setor financeiro neerlandês.

A perda de natureza é muito mais que um tema ambiental, portanto, em semana do Dia Mundial do Ambiente, fica o desafio: porque não falar deste tema em altura de outras efemérides, especialmente não ambientais?

  • Afonso Dinis
  • Especialista de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal

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