Administração Interna Digital

Sem a coragem das convicções, Governo e Oposição estão a bloquear o país. E este país bloqueado não tem futuro político.

O Governo não tem programa nem prioridades nem previsões. A política do Governo é o improviso mais o acaso mais a sorte. O choque tecnológico dos exames continua sem resolução pensada, planeada, estruturada. O caos dos exames não é caos porque está disfarçado de um apocalipse em câmara lenta. O Primeiro-Ministro não tem respostas nem argumentos porque nunca teve respostas nem argumentos. Se a educação sempre foi considerada a solução para o novo país letrado e desenvolvido, a incapacidade do Primeiro-Ministro em dar soluções ao país revela muito da sua postura enquanto governante apostado na modernidade nacional. A única resposta que o Governo consegue articular é o fado cansado da “agenda transformadora” mais os “problemas tecnológicos” mais a eficácia da “coragem política”. Um Governo na vanguarda das reformas e da modernidade não existe para pedir desculpas porque existe para assumir as responsabilidades de fazer o país avançar. Com este Governo o país dirige-se para o deserto político.

O Governo não existe para governar, o Governo existe para preservar o poder e aplicar a regra do rotativismo político na Administração Pública. A esta purga burocrática, o Governo denomina por “agenda transformadora”. Mas quanto do Portugal político não é feito de expedientes burocráticos, reformas no papel, discursos redondos sem relação com a realidade e sem visão política? Proíbe-se o papel na Administração Pública, distribua-se um i-Pad Pro a cada funcionário público, digitalize-se as políticas públicas que não existem e o país virtual será um exemplo nos rankings de desenvolvimento económico. A solução para o futuro de um país moderno está na instalação de outdoors digitais de norte a sul com a exibição de um país novo. O país novo da propaganda. O país novo para os portugueses esquecidos.

A digitalização dos exames é uma reforma à portuguesa feita por imitação da Europa desenvolvida e pela exigência do PRR. A grande esperança que é a grande tarefa de “modernizar” Portugal resulta em transformar o país num imitador excelente quando o poder político apenas consegue ser um imitador medíocre. Pela imitação da Europa, Portugal vai deixar de ocupar a “cauda da Europa”. A ideia política consiste num reformismo automático pela utilização da tecnologia e das soluções encontradas para outros contextos políticos. Falta ao Governo, porque falta a todos os Governos, pensar o país na sua realidade administrativa, recursos humanos, identidade nacional. Importar modelos é a receita secular de um Portugal sem soluções.

Se o Ministro da Educação exibe o seu voluntarismo reformista, o Ministro da Administração Interna (MAI) é o novo embaraço do Governo. O MAI mistura a Judiciária com empreiteiros, montes no Alentejo com tanques que são piscinas, atrelados confiscados a redes de tráfico de droga com favores de amigos em estaleiros da construção civil. A grande maravilha do Governo quando submetida ao escrutínio público de um Ministro da República revela um percurso na Administração Pública marcado pelo poder sem controlo e pelo sentido da impunidade. Com o beneplácito do poder político, este é o comportamento típico da Administração Pública em Portugal que serve a conveniência política mais o interesse próprio e não serve a nação. O MAI não inventou nada, apenas aplicou uma cultura política parte da identidade nacional. Pelo discurso do Governo, este é o Portugal que o Governo quer reformar. Por ironia e inépcia política este é o mesmo Portugal que o Governo eleva a Ministro da Administração Interna.

Há um reflexo kafkiano na imagem pública do Ministro da Administração Interna. De um dia para o outro, o Ministro sofre uma metamorfose na percepção pública do seu perfil político. Em vez do Ministro maravilha o Governo tem agora uma espécie de Ministro gigante que mistura informalidade com humor negro. O Governo pensava ter nomeado um “guerreiro samurai” e afinal tem nas suas fileiras o “director das dactilógrafas” dos concursos públicos que ninguém conhece. Sobra uma questão político-administrativa que é o retrato do país – As regras são sempre procedimentos a ser cumpridos pelos outros?

O Governo está a dissolver-se em público e aos olhos dos portugueses. O sorriso permanente do Primeiro-Ministro oscila entre o nervosismo e o imobilismo. O Governo não está formatado para governar nem tem a confiança para mudar o país. Uma Moção de Confiança neste momento político seria um acto de coragem que o Governo não tem. Uma Moção de Censura neste momento político seria um acto de coragem que a Oposição não tem. Sem a coragem das convicções, Governo e Oposição estão a bloquear o país. E este país bloqueado não tem futuro político.

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