“Apeirogon”, com os seus infinitos ângulos, remete-nos a multiplicidade de pontos de vista, todos com as suas razões, que fazem a extraordinária complexidade do conflito no Médio Oriente.

A guerra e as relações internacionais não são a minha especialidade. Normalmente escrevo sobre economia, sociedade e política. Mas hoje, ainda que apenas para organizar pensamentos sobre o terrível caos em que o mundo está mergulhado, não consegui libertar-me da necessidade de refletir sobre os dilemas morais e estratégicos levantados pela guerra entre Israel e Gaza.

“Apeirogon” – um polígono com uma infinidade contável de lados – é um título roubado ao livro de Colum McCann cuja leitura se intersetou, numa muito adequada coincidência, com o eclodir do conflito entre Israel e o Hamas. É uma história de dor, reconhecimento e reconciliação entre dois homens, um israelita e um palestiniano, que perderam as filhas às mãos “dos outros”. Como estupendamente recordou Frei Bento Domingues no Público do passado sábado, é uma história que revela o poder salvífico da solidariedade entre os homens de boa vontade.

“Apeirogon”, com os seus infinitos ângulos, remete-nos também a multiplicidade de pontos de vista, todos com as suas razões, que fazem a extraordinária complexidade do conflito. É para tentar por alguma ordem interior nesta babel que escrevo estes apontamentos avulsos, perplexos e inconclusivos.

  1. Memória Infinita. A história é a que sabe: mais de um século de recriminações, ódios e conflitos, degenerando muitas vezes em guerras ou atos bárbaros desesperados cujos nomes entraram no léxico de todo o mundo: Nakba, Seis-dias, Yom Kippur, Sabra e Chatila, Intifadas, bombistas suicidas, colonatos, etc. etc… Por detrás de tudo, a primazia da etnia sobre o indivíduo que impede o reconhecimento e respeito mútuos. Diz-se que “águas passadas não movem moinhos”; aqui nada passa, o tempo parece ter uma memória infinita.
  2. Olho por olho. O ataque do Hamas de 7 de outro foi uma carnificina cobarde e não provocada. Pôs termo a uma relação entre Israel e Gaza pautada por algum equilíbrio, precário e tenso, mas funcional. Israel teve todo o direito de retaliar. Não estou inteiramente seguro dos custos em vidas humanas inocentes desta retaliação. A que julgar pelo que se vai sabendo pela imprensa saber (com a ressalva da existência de uma enorme nuvem de fake news), a retaliação terá excedido largamente o direito à legítima defesa dos cidadãos de Israel. Foi raiva cega e vingança. Reações motivadas pelo ódio não são ajuizadas, como demonstra a catástrofe provocada pela “war on terror” americana depois do 11 de setembro. “Olho por olho, acabamos todos cegos”.
  3. Maneira certa. Não se trata de saber se Israel tem o direito de retaliar contra o Hamas pelo ataque selvagem que o grupo infligiu a homens, mulheres, bebés e avós israelitas. Trata-se de fazer as coisas da maneira certa – uma maneira que não incendeie a “pradaria” e que não faça o jogo do Hamas, do Irão e da Rússia. E, também, de uma maneira que preserve a superioridade moral de uma democracia liberal (embora enfraquecida por um primeiro ministro debilitado e pela influência da extrema-direita religiosa ortodoxa, e fragmentada por um persistente apartheid étnico) vis a vis uma organização de terroristas e fanáticos religiosos, que almejam um regime teocrático.
  4. Provocação. Acredito que o objetivo profundo dos ataque do Hamas (mancomunados com o Hezbollah no Líbano sob a batuta dos mentores iranianos) foi provocar uma reação de Israel que faça explodir toda a estrutura da aliança moderada que os Estados Unidos têm vindo a construir na região: o tratado de paz de Camp David, os acordos de paz de Oslo, os acordos de Abraham e, acima de tudo, a possível normalização das relações entre Israel e a Arábia Saudita, o berço do Islão. Israel será muito imprudente se se deixar cair na armadilha.
  5. Armadilha. Cair na armadilha seria querer “destruir o Hamas uma vez por todos” invadindo e reocupando Gaza, deixando-se arrastar para uma guerra urbana de longa duração que pegará fogo a toda a região. Cair na armadilha é fazê-lo alienando ainda mais os palestinianos moderados, em particular na Cisjordânia.
  6. A quem aproveita. Como nos policiais é útil pensar a que aproveita esse “crime”. Quem ganharia se o conflito se agudizasse, e generalizasse, arrastando eventualmente os EUA? O Irão e os seus aliados do Hezbollah, a Síria e a Rússia, que veria os recursos americanos para a Ucrânia desviados. Quererá Israel estar nesta companhia?
  7. O pau e a cenoura. Tudo seria mais fácil se o governo israelita não brandisse apenas o cacete contra o Hamas (com danos colaterais invitáveis para os habitantes inocentes de Gaza) e se dispusesse, paralelamente, a oferecer concessões aos palestinianos na Cisjordânia (como, por exemplo, o fim dos colonatos). Mas no atual quadro político em Israel tal é altamente improvável. Netanyahu, na ânsia de permanecer no poder para evitar as acusações criminais que contra si impendem, fez-se refém de uma minoria de ultraortodoxos, o equivalente judeu dos fanáticos islamitas.
  8. Danos colaterais. Que me perdoem os infelizes inocentes de Israel e Gaza, mas a liberdade de expressão no Ocidente global é também uma vítima desta guerra, cancelada que está pelo receio de acusações de antissemitismo ou islamofobia.

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