Autárquicas Jazz Festpremium

O tédio da melodia é um hino de Norte a Sul. Primeiro, na união contrária e oposta de todos os candidatos contra o Presidente da Câmara vigente seja qual for a sua cor política.

É a festa das autárquicas ou a lotaria do País sem promessas. A política em Portugal dividida pela infinidade de municípios, pequenos pontos de poder na grande geografia dos interesses. As autarquias são a máquina milagrosa que arrasta o País no sentido do desenvolvimento. No entanto, parece que os portugueses insistem em ser pobres contra a ambição do Poder Local. Especialmente uma classe média que só é média em Portugal sendo que é pobre comparada com a Europa. Mas as rotundas e os discursos circulares dos milhões a fundo perdido dominam o País Real.

O bónus da rentrée e das autárquicas é o Congresso do PS. Um passeio na Avenida em que o Primeiro-Ministro exalta a obra do Governo na sua pessoa e dispersa os presumíveis sucessores em cadeiras estrategicamente colocadas na plateia. A encenação estalinista estimula a imaginação de uma nova “kremlinologia” deslocada para disfarçar planos e intenções. Costa é o senhor do Partido, o senhor do País, o senhor dos Anéis, o senhor das Alianças, o senhor que se segue. Costa é o tubarão entre os peixes ornamentais do aquário político. O Primeiro-Ministro é intocável e inalcançável e prepara-se para derramar o seu paradigma político pelas autarquias de um País em tons fortes Socialistas. As autárquicas são um “manicómio de caricaturas”.

E depois há ainda o circo temático da Festa do Avante. Evento político-cultural de alta relevância social e fundamental para a saúde financeira do PCP. Erguido nas margens do Tejo pelo trabalho voluntário dos militantes, este ano o tema dos discursos, palestras, concertos e sinfonias, é o leilão do Orçamento. Uma pergunta ocorre sem hesitação – não poderá ser o trabalho voluntário dos militantes uma forma disfarçada de exploração capitalista? Eis uma resposta eternamente adiada. O Secretário-Geral irá apresentar o caderno de encargos para o suplemento comunista, sempre a bem da Nação e nunca contra a Nação. Um partido que já liderou uma “Revolução Mundial” luta hoje na segunda linha da “Revolução Nacional” e faz a festa. O PCP tem “futuro na resistência ao futuro”.

Os discursos no campeonato dos debates autárquicos, jornada a jornada, capítulo a capítulo, concelho a concelho, são um disco de 78 rotações tocado a 45 rotações para benefício e compreensão dos portugueses interessados. O vinil está de volta e bem na moda, sobretudo pela qualidade do som e pela magia de uma gravação que regista os sons súbitos de uma realidade incontrolável e livre. O tédio da melodia é um hino de Norte a Sul. Primeiro, na união contrária e oposta de todos os candidatos contra o Presidente da Câmara vigente seja qual for a sua cor política. São críticas e remoques pessoais, diagnósticos apressados escritos na viagem de comboio, e a total e completa ausência de pequenas ideias, meias ideias, simplesmente ideias, mas sempre com a convicção inabalável própria do carisma de um salvador. Segundo, é aquele ar incauto de quem é convidado para representar o concelho numa feira de artesanato onde o que conta é a habilidade da “política dos casos”, das “questões da mobilidade”, mais os “custos da interioridade”, mais a “emergência climática”, tudo codificado num discurso político híbrido entre a impressão e o disparate com a presunção de um estadista de aldeia. Nesta lógica, cada concelho é um Império, cada freguesia uma Nação, mas fica a faltar a noção de uma unidade plural e a consciência de uma coesão nacional que devem perfazer o retrato de um Portugal moderno.

Depois há o caso do PSD. O PSD nas autárquicas é uma caixa de música guardada numa gaveta esquecida num cofre. Concluindo, do PSD não se ouve nada mas é possível escutar tudo no desvario do amadorismo, da imaginação e da improvisação. O líder do PSD não existe politicamente, o que faz com que o partido não tenha uma mensagem minimamente coordenada e politicamente dirigida ao País. Acrescente-se o facto de que não existe uma ideia para o País que possa ser aplicada politicamente no laboratório das autárquicas. Resta então um conjunto disperso de candidatos que, com ou sem coligações, vão inventando um qualquer discurso mais ou menos estridente tendo em linha de conta o trajecto e o carácter do candidato sempre em função das características do concelho. Resumindo, a estratégia autárquica do PSD tem o mérito liberal estagiário de uma “mixórdia” indescritível.

O PSD autárquico está na candidatura de Lisboa ou está na candidatura da Amadora? É óbvio que não pode estar nas duas. Ou então está no horizonte político genial de um líder que afirma que estas eleições autárquicas não são as mais favoráveis para o PSD, sendo que a grande revolução laranja está guardada para 2025. Na inteligência do discurso político está o reconhecimento da derrota antecipada e a presunção da vitória antecipada. É a lógica da claque, uma mistura exótica entre a “Pujança Mourisca” e a “Alma Salgueirista”.

Convém explicitar que em Portugal a “Direita Clássica” não existe, tem medo de existir e não sabe como existir. Os apóstolos da “Esquerda Progressista” vivem no êxtase de uma suspensão da normalidade democrática e confundem-se com uma espécie de fim da História. A “Direita Clássica” tem o dever e o direito de se sentir humilhada. Nada pode contar até ser testado pela sua própria derrota.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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